Família

Amor sem preconceito: casal gay compartilha emocionante história de adoção

Vinicius e Eduardo realizaram o sonho da paternidade por meio da adoção

Helena Fonseca

Helena Fonseca ,filha de Bethania e Paulo

(Foto: Acervo Pessoal)

(Foto: Acervo Pessoal)

Aqui no projeto “Lá em Casa é Assim”, parceria da Pais&Filhos com a Natura Mamãe e Bebê, a cada família aprendemos e nos apaixonamos mais. O Vinicius Campos nos enviou a história de sua família e provou que, não importa a configuração, o que importa em uma família sempre é o amor!

“Lá em casa há um lar.

Lá em casa é como eu nunca imaginei que poderia ser. Aos vinte e poucos anos, tardiamente, percebi que era gay. Com a chegada das experiências e primeiras relações, também veio a dura realidade: meu grande sonho de ser pai não seria possível.

Em 2005, fiz uma viagem pra Buenos Aires com o intuito de estudar espanhol, mas conheci e Edu e minha vida mudou completamente. Foi amor desses fortes, pra valer, e em pouco tempo fomos morar juntos. Tinha encontrado o que pra muitos gays costuma ser difícil: um relacionamento estável.

Ao lado do meu amor viajei o mundo, conheci restaurantes deliciosos, vivi experiências únicas, mas alguns anos depois comecei a sentir que precisávamos de um projeto de vida menos centrado na nossa felicidade. E com o casamento gay se tornando realidade em muitos países do mundo, começou a ressurgir dentro de mim aquela vontade de ser pai.

Desde o princípio a adoção era o caminho que eu imaginava. Não queria alugar barriga e gerar uma criança. Uma frase de um livro lido na adolescência não saía de minha cabeça: “O mundo somente será melhor quando nos responsabilizamos por todas as crianças que nele habitam”.  Meu sonho se tornou ainda mais possível e latente em mim quando o casamento entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado na Argentina, em julho de 2010. Eu estava com a faca e o queijo na mão, só tinha um pequeno grande problema: o Edu não sentia vontade alguma de ser pai. Mas então, em uma festa de aniversário, um amigo de um amigo nos comentou sobre um programa de apadrinhamento. Você podia se inscrever e visitar crianças que estivessem num abrigo. Era a chance delas conhecerem um museu, um restaurante, de no fim de semana ir ao cinema e ter adultos que lhe dessem carinho e proteção enquanto sua questão judicial não se resolvia. Era a nossa chance de ver como nos relacionaríamos com crianças e se o Edu curtiria essa dinâmica.

Ele topou e, mais do que isso, parecia entusiasmado com a ideia! Depois de um longo processo de entrevistas, nos designaram três irmãos: Milagros, Alfredo e Pablo. Três! A ideia inicial era apadrinhar um, depois nos convenceram de dois, e no final das contas, por questões de força maior, começamos a nos encontrar com essas três lindas e doces crianças.

Na época, estavam com 5, 7 e 8 anos. Uma vez por semana, uma hora. Uma vez por semana duas horas. Quatro, oito, o dia inteiro, dormindo com a gente. Em apenas seis meses eles começaram a vir pra casa na sexta à noite e ficar até no domingo fim de tarde. E nós, que inicialmente apenas os levávamos para passear, começamos a ir a reuniões de escola, já comprávamos roupa e materiais que necessitavam, e até ao médico às vezes íamos. O Edu logo de cara descobriu que carregava um talento natural pra ser pai. Em pouco tempo se apaixonou por eles e se entregou de uma maneira que nem nos meus melhores sonhos era possível.

Nesses fins de semana e nas férias, eles conheceram novos lugares, estilos de vida, aprenderam a andar de bicicleta, a nadar, foram ao mar pela primeira vez. Receberam aulas de inglês de uma professora particular que mandávamos ao abrigo. Descobriram filmes, livros, músicas, até aprenderam português. Mas o mais importante: nesse tempo todo eles não estiveram sozinhos. Atravessaram as dificuldades da vida num abrigo sabendo que dois adultos os amavam e os protegiam, dois adultos que não deixavam a esperança apagar.

Dois anos depois entramos com o pedido de adoção, e o processo demorou mais dois anos. Ou seja, desde que nos conhecemos até que vieram morar com a gente foram quatro anos. Muito tempo! Mas talvez exatamente por toda essa preparação, todo esse ensaio nos fins de semana e nas férias, é que nos tornamos pais de primeira viagem com muito mais bagagem do que a maioria dos pais.

Quando nossos pequenos chegaram, já havíamos lido vários livros de educação infantil, já tínhamos nos questionado milhares de vezes se realmente queríamos ter filhos, tínhamos experimentado momentos difíceis e duros que pareciam insuportáveis, mas também tínhamos tido o dia depois e com ele o real entendimento de cabeça fria de que pra tudo sempre existe um jeito e que o amor vence qualquer batalha.

Obviamente estávamos inseguros, existem muitas histórias e comentários que dizem que adotar crianças mais velhas é um projeto quase que impossível, mas com paciência, amor e orientação fomos vencendo os obstáculos. Uma de nossas preocupações era como eles se adaptariam à nova vida. Sofreriam preconceito por ter dois pais? Seria possível uma casa com dois homens no comando? Fomos pra terapia. Os cinco juntos. E durante um ano trabalhamos todos os nossos fantasmas, e para o nosso espanto, o tema “dois pais gays” nunca apareceu nas sessões. Não era um problema pra gente, e muito menos pra eles.

Em casa fomos nos adaptando. As tarefas foram sendo divididas naturalmente. Quando precisam, eles sempre chamam o pai certo. Se é fome perguntam pelo Edu, se sentem dor de barriga gritam meu nome, pra dúvidas na escola é com ele, pra dúvidas com a roupa é comigo. Nossa família não tem tarefas preestabelecidas, aqui cada um é o que pode e o que sabe ser.

Somos uma família que aposta no diálogo, falamos sobre tudo. Se surgem perguntas, em seguida vêm as respostas. Foi assim desde o começo, mesmo eles pequenos. Nossos filhos têm uma história de vida difícil, e ela é tratada com verdade e transparência, afinal não só de coisas boas se constrói uma família. Encarar juntos aquilo que provoca dor acreditamos ser uma mostra de respeito e amor que damos constantemente a nossos pequenos.

Nem sempre temos a solução, mas estamos sempre a seu lado. Em casa somos chatos com o uso de eletrônicos, valorizamos as refeições em família, a música, as longas conversas. Em casa nos reunimos para ver vídeos de internet com mensagens de um mundo melhor. Vemos documentários, filmes, séries, e qualquer obra artística quando precisamos conversar sobre um assunto difícil. Lemos poesias no jantar, e no dia das crianças eles escolhem o presente que quiserem, desde que seja numa livraria. Sim, dia das crianças é dia de livro (nem sempre gostaram, mas se adaptaram).  Em casa, quando falamos de relacionamento amoroso, procuramos usar palavras que não determinem gênero, eles sabem que são livres para amar quem quiserem e como quiserem. Em casa nos esforçamos diariamente pra que a educação da nossa filha tenha o mesmo peso que a dos meninos, e que ela se sinta tão forte e capaz como eles.

Aqui valorizamos os sentimentos e nossos filhos são apoiados e cuidados quando choram ou precisam de colo. A frase “para de chorar que você não é menina” nunca foi escutada por eles aqui dentro.  Em casa somos cinco pessoas felizes, que se amam, e que a cada dia tentamos superar as dificuldades usando como únicas ferramentas o diálogo e o amor. Afinal uma casa só e torna um lar quando transborda de felicidade.”

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