“Antigamente, não havia perspectiva de um homem gay adotar”: veja o que rolou no 3º episódio do POD&Tudo

Pais de Teté e responsáveis pelo perfil @papaipeando no Instagram, Betho Fers e Erick Silva contaram sobre como foi todo o processo de adoção da filha e quais caminhos percorreram para que pudessem chegar onde estão agora

Resumo da Notícia

  • Foi ao ar nesta quinta-feira mais um episódio do POD&Tudo
  • No terceiro episódio do podcast, Andressa Simonini e Yulia Serra entrevistaram Betho Fers e Erick Silva
  • Pais de Teté, Betho é doula de adoção e Erick é psicólogo e educador parental em formação

Nesta quinta-feira, 21 de julho, foi ao ar o terceiro episódio do POD&Tudo, podcast da Pais&Filhos. Transmitido ao vivo pelo YouTube, nossa editora-executiva, Andressa Simonini, filha de Branca Helena e Igor, comandou o bate-papo ao lado da editora de revista e conteúdos especiais, Yulia Serra, filha de Suzimar e Leopoldo.

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No terceiro episódio do POD&Tudo, recebemos nos estúdios do podcast Betho Fers e Erick Silva, pais de Stephanie e fundadores do Instagram @papaipeando. Betho é doula de adoção e estuda psicologia, enquanto Erick já é psicólogo e estuda educação parental. Os dois abriram o coração e contaram para gente como se conheceram, sobre o processo de adoção e de onde veio o desejo de ter uma filha juntos. Spoiler: desde o dia um!

“A vontade de ser pai para mim existe antes da vontade de ser. Sempre tive afeição muito grande com crianças. Eu precisava passar por um caminho até chegar no homem que se tornaria pai, mas eu sempre tive essa vontade desde criança”, contou Betho. No entanto, o trajeto até chegar no momento de estar com a filha nos braços não foi tão simples: o entendimento de ser um homem gay chegou tarde, somente aos 17 anos, e até isso acontecer ele passou por diversas situações traumáticas.

Andressa Simonini e Yulia Serra comandaram a entrevista do terceiro episódio do POD&Tudo
Andressa Simonini e Yulia Serra comandaram a entrevista do terceiro episódio do POD&Tudo (Foto: Arquivo Pais&Filhos)

O desejo de ter um filho, o não entendimento de ser gay, o histórico de viver em uma família religiosa: o combo fez com que Betho se relacionasse por 4 anos com uma mulher e até noivasse. Foi um pensamento do que faria após realizar o sonho de se tornar pai que fez com que ele desse um passo para trás e observasse o cenário com mais atenção.

“Na época não tinha perspectiva de um homem gay adotar uma criança. Hoje as pessoas podem ter filhos de outras formas, mas naquela época não tinham outros formatos. A gente não tinha abertura dentro de casa para falar sobre o que eu sentia. Acho que eu precisei de um tempo porque era como se eu estivesse fora do prumo o tempo todo”, contou Betho.

Para Erick, o cenário era um pouco diferente: “Eu sempre quis ser pai. Dentro do meu ideal de paternidade, eu queria ser pai por meio da adoção, que antes era dito ‘pegar uma criança para criar’. Eu tinha referência de vizinhos, coisas do tipo. Era da forma que eu pensava que seria possível. Eu queria ser pai, mas não necessariamente casar com uma mulher para ser pai”.

O mais velho da família, ter a noção de como é preciso ter muita atenção para criar um ser humano era algo que estava presente no dia a dia dele sempre. “Desde muito cedo eu me via como pai, até por ser o filho mais velho e ter responsabilidades com a minha irmã. Essa afetividade que eu entendo que a paternidade também tem que ocupar, estar dentro do papel do cuidar, tudo isso foi alimentando a minha construção de como seria ser pai no futuro”.

O encontro perfeito

Betho e Erick se conheceram em uma balada. De lá, logo de cara, o papo fluiu e os dois deixaram claro um para o outro a vontade de ter filhos. Pronto: o encontro perfeito já tinha rolado. Querer ser pai era praticamente um pré-requisito que os dois tinham para que pudessem se relacionar com outras pessoas, pensando na perspectiva de um futuro a dois e na família que desejavam formar.

“Ser pai por adoção era a vontade de ambos. A gente vinha dessa conversa ainda de um viés caricato da adoção, que a gente ia ajudar uma criança, que era uma forma de fazer caridade… sem noção nenhuma do que era aquilo”, contou Betho durante a entrevista ao POD&Tudo. Só sabe realmente o que é uma determinada experiência quem passa por ela, e com a adoção não é diferente. Depois de esperar por anos, eles decidiram que tinha chegado o momento da família dos dois aumentar.

Betho Fers e Erick Silva emocionaram as entrevistadoras e o público durante o terceiro episódio do POD&Tudo
Betho Fers e Erick Silva emocionaram as entrevistadoras e o público durante o terceiro episódio do POD&Tudo (Foto: Arquivo Pais&Filhos)

O processo de adoção

Quando começam a falar sobre o processo de adoção até chegar o dia em que Stephanie foi para a casa do casal, Betho deixa uma questão muito clara: “A gente faz muita questão de não assumir um papel de que nós, por sermos pais e termos adotados, somos os gays que deram certo – porque esse é o lugar que nos colocam muitas vezes. Muitos outros passaram por momentos de solidão para que a gente pudesse estar aqui e ter uma família. Querer ter um filho só para mostrar que você deu certo é algo muito perigoso”.

Quando foram até o fórum dar início ao processo de adoção, eles precisam entregar vários documentos logo de cara: RG, CPF, comprovante de renda… e, entre todas as entrevistas que fizeram com a equipe técnica e a assistente social para saberem se eles estavam habilitados a ser pais, uma pergunta estava sempre presente: o porquê os dois queriam ter filhos.

“Essa era uma pergunta que me irritava um pouco: ter que justificar o tempo todo o por que eu queria ser pai. Acho que além de procurar uma resposta certa, ajudou – apesar da irritação – no meu processo de entender onde morava essa paternidade. É um processo um pouco invasivo, que a gente tem que comprovar algumas coisas, é diferente de uma relação heteronormativa que às vezes acontece sem querer e ninguém questiona. Acho que essa pergunta não cabe em uma única resposta, uma única frase ou momento. Para mim, ser pai é todo um processo: eu fui um no momento em que a Stefany chega, depois de meses que eu comecei a ser outro pai voltando pra rotina e mercado de trabalho e acho que isso é cíclico”, explica Erick.

Para Betho, a visão que ele tinha sobre as perguntas que faziam para eles durante as entrevistas tinham pesos diferentes do que tinham para o companheiro: “Essa etapa foi muito prazerosa para mim e eu acho que ditou muito de quem eu sou como profissional hoje. A pessoa da vara da infância não tá perguntando porque você quer ter filhos, ela não está buscando uma reposta. Ela não vai bater na sua porta e ver se você cumpriu com aquilo que você disse que faria. Essa é uma forma de auxiliar esse pretendente à adoção a trilhar o caminho da parentalidade. Eu concordo que a gente vai descobrir a parentalidade depois que ela passa a existir na nossa vida, mas quando a gente fala de outras vias (ser madrasta, duas mães e uma não gestante), você precisa se contornar antes de isso acontecer para lidar com possíveis barreiras”.

Betho e Erick esperaram exatamente um ano para o processo de habilitação ser finalizado. Depois disso, mais espera: foram um ano e quatro meses sonhando com a ligação que contaria para os dois que eles tinham uma filha e que poderiam conhecer a menina. Depois que receberam, enquanto estavam entrando em um mercado, foi uma festa só: Betho saiu contando para todas as pessoas que via pela frente que ele agora era pai.

Pais de Teté e donos do perfil @papaipeando, Betho Fers e Erick Silva abriram o coração sobre a história de vida deles
Pais de Teté e donos do perfil @papaipeando, Betho Fers e Erick Silva abriram o coração sobre a história de vida deles (Foto: Arquivo Pais&Filhos)

A chegada da filha

Stephanie chegou para aumentar a família de Betho e Erick e, logo de cara, já mostrou que a parentalidade é cheia de desafios. Erick, para cuidar da filha, tirou uma licença-paternidade de 4 meses. Enquanto isso, Betho tirou a licença de 5 dias e emendou o tempo com férias de 15 dias. “Foi um momento punk. Por mais que a gente estude, pense, idealize, a realidade é muito diferente. Isso começou a ficar mais forte no dia que eu vi o Betho sair de casa, ele retornar para casa e eu ainda com o roupão que eu coloquei de manhã”.

No entanto, as coisas mudaram um pouco depois disso: ao retornar para o trabalho, Betho foi demitido e os dois passaram o período da licença-paternidade de Erick juntos cuidando de Teté. Com o tempo, os dois construíram com a filha uma relação de carinho, amor e respeito. A mãe de Betho, que sempre deixou claro que o sonho da vida dela era ser avó, ganhou uma companheira e melhor amiga: as duas são unha e carne hoje em dia.

Assista ao POD&Tudo com Betho Fers e Erick Silva na íntegra