Caso raro: médica ‘queima’ tumor de bebê ainda no útero em cirurgia inédita

Os médicos descobriram o tumor no tórax do bebê no segundo trimestre da gestação e a médica cirurgiã conta que desde então, o casal ficou angustiado com os riscos da gravide

Resumo da Notícia

  • Os médicos descobriram o tumor no tórax do bebê no segundo trimestre da gravidez
  • A médica conta que os pais não curtiram algumas fases da gestação pois estavam apreensivos
  • Por fim, a cirurgia foi um sucesso e a equipe médica quer relatar o caso para revistas científicas mundiais

A jornalista Polyana Resende Brandt deu à luz ao primeiro filho no dia 18 de maio e relatou algo surpreendente. Ela falou para o veículo BBC Brasil que o nome escolhido para o bebê era ‘Ragnar’, que é um nome de guerreiro, mas mal ela sabia o que estava por vir.

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Quando ela estava no segundo trimestre da gravidez, foi identificado em exames um tumor no tórax do bebê, era um quadro raro chamado ‘sequestro pulmonar’, pelo tumor se parecer com o formato de um pulmão mas sem função específica.

Esse tumor, apesar de não ser maligno, ou seja, não ser um câncer, estava crescendo e comprimindo os órgãos do bebê, além de ‘roubar’ parte do sangue do corpo e fazer com que água ficasse depositada na região do pulmão”, falou Danielle do Brasil, a cirurgiã especializada em cirurgia fetal no Hospital Santa Lúcia, em Brasília.

Os médicos ao ver os exames, falaram que se a gravidez não tivesse acompanhamento especializado, ela poderia perder o filho. “Foi desesperador descobrir isso. Tive que manter a fé e buscar os melhores especialistas. A gente tem que valorizar a ciência e saber que ela pode, sim, andar de mãos dadas com a fé. Foi o que eu e meu marido, que esteve ao meu lado em todos os procedimentos, fizemos”, contou ela.

A médica que a jornalista foi atrás se chama Danielle do Brasil, e ela fez uma especialização em casos de alto risco na King’s College, em Londres. Uma das saídas para o caso de Ragnar era queimar um dos vasos que abasteciam o tumor com sangue.

Polyana e o marido viveram boa parte da gestação, angustiados (Foto: Reprodução/ Arquivo pessoal/ BBC)

“Assim, com uma agulha grossa que contém fibra de laser dentro, podemos queima esse vaso, e a massa ‘morreria’ e depois seria absorvida pelo corpo. A ideia também era retirar o líquido do tórax para ajudar os pulmões expandirem. Queimamos o vaso perfeitamente, e toda a equipe estava bastante satisfeita. Mas infelizmente após 10 dias, o tempo usual que esperamos para ver se a técnica ofereceu benefícios, descobrimos circulação do tumor fez outro caminho, fazendo com que a massa voltasse a crescer e aumentando o líquido no tórax”, falou a médica.

Procedimento inédito

Danielle do Brasil contou que foi difícil falar para os pais que não tinha tido sucesso no primeiro procedimento: “Pense em um casal que imaginou, durante boa parte da gravidez, que o bebê poderia morrer. Mas do sufoco, nasceu a criatividade”, falou ela, se referindo aos próximos passos do caso.

A equipe médica decidiu destruir o vaso com a mesma técnica, e Polyana e o marido não aceitaram a tentativa. “Quando a gente se torna mãe, nasce uma força colossal”, falou a jornalista.

O outro procedimento durou duas horas e meia, “Foi o mais difícil da minha vida. Na cirurgia fetal, nem sempre sabemos os passos de tudo que vai acontecer – não é para todos os casos que temos clareza do que está lá dentro. Eu tinha um alvo móvel que era o tumor, dentro de outro alvo móvel que é o líquido amniótico – e tentando atingir a massa com uma base imóvel, que era a minha agulha”, afirmou a médica.

O tumor do bebÊ foi queimado ainda no útero (Foto: Reprodução/ Arquivo Pessoal/ BBC)

Após o sucesso do procedimento, Ragnar nasceu no final da gestação e o primeiro raio-x do tórax do bebê não tinha nenhum sinal de tumor. Porém, a médica irá continuar em observação. Em três meses faremos uma tomografia de tórax, um exame mais completo. Nossa expectativa encontrar áreas de fibrose por cicatrização do tumor que foi destruído. E claro, que esse neném não precise mais cirurgia”, falou a médica.

A equipe que realizou a cirurgia está reunindo provas e procedimentos para enviar um relato de caso para revistas científicas e tornar o caso mundialmente conhecido.