Copas das saudades

Pela primeira vez em décadas, Juca Kfouri vai passar a Copa “em casa”, sem sentir tanto a dor da separação dos filhos e das netas

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A minha primeira Copa do Mundo vivi ao pé do rádio, em 1958, ao lado de meus dois irmãos e de meu pai, que, mesmo sendo um fumante moderado, não tirava o cigarro da boca durante os 540 minutos dos seis jogos que levaram a Seleção Brasileira ao seu primeiro título, na Suécia, de maneira invicta, cinco vitórias e um empate.

Eu tinha 8 anos e me lembro vivamente das vozes que pareciam vir do além, em ondas que se aproximavam e fugiam dos ouvidos. “Plaaaacar na Suéciaaaa; Braaasil ciiinco, Suéciaaa doooois”, anunciava o narrador, que chmávamos, então, de speaker, para decretar que a Copa do Mundo é nossa e que com brasileiro não há quem possa.

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Minha primeira Copa como pai foi 20 anos depois, em 1978, na Argentina, acompanhada pela TV, quando eu já tinha três filhos, mas só o mais velho, André, com quase 5 anos, entendia um pouco a importância do momento.

Eu trabalhava na revista Placar e andré, não me pergunte por quê, havia se tomado de amores pelo Londrina, cuja camisa era parecida com a da seleção argentina, razão pela qual, acredite, ele torceu pelos hermanos e, assim, a exemplo do pai, também se deu bem em sua primeira copa, pois a Argentina foi campeã.

Pouco antes o mesmo André dizia que era torcedor do “Acrédito Paranamense”, o que me fez acreditar que ele, paulistano, preferia ter nascido no Paraná.

E veio a minha primeira Copa fora de casa, quatro anos depois, na Espanha, uma Copa inesquecível, porque, como diria o compadre Washington Olivetto, a primeira não se esquece. Foi a mais doída de todas, não só pela famosa derrota do esquedrão Telê Santana, Zico, Sócrates e Falcão, como, ainda, pela minha primeira separação por mais de dois, três dias, de meus três pimpolhos de então, André, Daniel e Camila.

Até que eles ficassem grandes, chorei escondido em todas as despedidas naquela e nas Copas posteriores, em 1986, no México, e em 1990, na Itália. Só para os Estados Unidos fui mais tranquilo, porque a Camila, a caçula, completara 16 anos.
Não durou muito, porém, porque em 1998, na frança, havia o Felipe, e de novo doeu muito a dor da saudade de uma criança, a mais dolorosa de todas as dores. Pense, então, como foi com a suadade, primeiro da neta e, depois, das netas.

Na Alemanha, em 2006. Eu via a Luiza, então com 1 ano e meio, pela tela do computador e não conseguia conter a emoção, torcendo para a Copa acabar e voltar para amassá-la. Pior mesmo só na Copa seguinte, na África do Sul, quatro anos atrás, porque daí existia também a Julia, com 2 anos e meio. Chorava-se tanto ao telefone ou ao computador que resolvemos parar de nos ver daquele jeito…

Na verdade, viajei tão contrariado que, por óbvia causa emocional, tive uma queda de resistência e levei para Joanesburgo um incômodo zunido no ouvido esquerdo, fruto de um ataque sórdido, e ensurdecedor, de herpes-zóster.

Agora, enfim, a Copa será no Brasil. Quer dizer, digo isso apenas porque a sensação de distância será menor e porque a abertura será em São Paulo, onde moro, no estádio do Corinthians.

Porque seráo 40 dias entre Teresópolis, onde a Seleção Brasileira se preparará a parir de fins de maio e, depois, vários destinos pelo país e, tomara, até chegar ao Rio, no Maracanã, para a grande final.

Se o time do Felipão perder antes, as saudades serão abreviadas, mas, por maiores que sejam, e serão, não torcerei por isso, ao contrário. Não nego, apenas que, se acontecer, ao menos terei uma compensação.

Pois seja ou não seja a Copa do Mundo nossa, é a com a falta das netas que não há quem possa.

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