“Curti muito cada etapa da vida do meu filho, mas vê-lo alcançar a minha altura é mágico!”, conta Cris Guerra

Cada novo papo sério entre nós e esse movimento bonito de crescer, me fazem cócegas na alma

Resumo da Notícia

  • Cris Guerra comenta sobre o desenvolvimento de seu filho
  • Relata como foi se tornar mãe
  • Passa sua reflexão e experiência para outras mães
(Foto: Bruno Marçal)

Na casa da minha avó paterna havia uma parede mágica. Ficava dentro do seu quarto de costura, displicentemente escondida por um pedaço de cortina. Quando íamos visitá-la, vovó desvelava aquele trecho da parede e, com o lápis na mão, pedia que nos encostássemos ali descalços, coluna ereta, enquanto ela marcava no revestimento o ponto mais alto da nossa cabeça.

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Ganhar estatura era uma verdadeira festa. E aquele cantinho da casa era como uma régua das nossas vidas. A letra bonita e cheia de personalidade da Vovó fazia daquela reta uma linha do tempo vertical. “Cris, 6 anos, outubro de 1976”, anotava. Cada um dos seis netos conquistava seus rabiscos naquele espaço, criando um desenho caótico que decoração alguma poderia superar em cor e alegria. Íamos à casa da Vovó e voltávamos maiores.

Lembrei disso outro dia, quando tomei emprestada uma cerâmica da cozinha para anotar as medidas do meu filho e do seu amigo. Francisco saiu frustrado por ainda estar 11 centímetros mais baixo que eu, embora os pés já tenham alcançado a minha numeração – ele vai fazer 13 anos, tempo em que centímetros valem mais do que dólares. Aprender a lidar com a impaciência e a frustração é tarefa demorada. Garanto que antes disso ele já terá me alcançado em altura.

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A mágica costuma durar até os 18, 21, quando cessa a fase de crescimento. A partir de então, a balança é que costuma registrar eventuais aumentos do nosso corpo, geralmente acompanhados de certa culpa.

A mais nova mania de Francisco é o efeito- girafa: na hora do beijo de boa-noite, ele fica na ponta dos pés e experimenta comigo uma marcação “homem a homem”, os dois medindo um metro e sessenta e quatro. O ingênuo test-drive da vida adulta nos diverte a ambos. Vejo muitas mães dizendo que têm saudade dos seus bebês. Também me emociono ao deparar com os pequenos Franciscos em fotos virtuais ou impressas, ora recém-nascidos, ora orgulhosos dos aninhos contados nos dedos. Amarei para sempre cada um deles, mas confesso que estou me divertindo ao vê-lo caminhar para uma estatura maior do que a minha.

Já posso adivinhar o alongamento da minha coluna, colocando vértebra por vértebra para funcionar em nova dinâmica e compensando, como na ioga, os anos que passei agachada, curvada e exausta – ainda que com aquele sorriso 24 horas no rosto cheio de olheiras. O pequeno peso que cresceu com o tempo, como numa musculação inteligente, poderá enfim trocar de papel comigo – com direito a me carregar no colo.

Esse movimento bonito me faz cócegas na alma. Cada novo papo sério entre nós dois será nosso momento na parede do crescer. Compreenderemos, juntos ou não, que tamanho está longe de ser sabedoria. Nossos rabiscos, assim espero, hão de encontrar seu jeito de fazer juntos um desenho bem bonito.

 

Cris Guerra

Costuma dizer que foi o filho quem a pariu e, além de mãe, ela é pai. Tem cinco livros publicados, é colunista em rádios e revistas e viaja o Brasil dando palestras sobre comportamento. Apaixonada por moda, acha que até as palavras servem para vestir

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