Família

Desabafo: “Se por um lado não sofri violência obstétrica, por outro sofri a violência emocional”

Ufa! Depois de passar por três perdas, essa mãe lidou com a insensibilidade e deu a volta por cima

Helena Fonseca

Helena Fonseca ,filha de Bethania e Paulo

Patrícia Carvalho

(Foto: Acervo Pessoal)

Nem sempre a história da formação de uma família é feliz do começo ao fim. A Patricia Carvalho participou do projeto “Lá em Casa é Assim”, parceria da Pais&Filhos com a Natura Mamãe e Bebê, e contou para a gente sobre algumas perdas difíceis que teve que enfrentar, mas o final da história é feliz: sua filha, Sarah, chegou para completar essa casa. Conheça essa família:

“Eu sempre quis ser mãe, não me imaginava não sendo. Meus filhos tinham nomes desde pequena. Eu sempre sonhei com uma família numerosa, muitos filhos, mesa cheia, como na casa dos meus avós.

Os anos se passaram e eu conheci o Flávio, meu marido. Namoramos por 3 anos e meio e casamos em 2011. Compramos um grande apartamento, pensando nos muitos filhos que teríamos.

Apesar de não termos problemas de saúde, minha ansiedade era tão grande, que eu não conseguia engravidar. Até que em fevereiro de 2012, quase um ano depois de casada, engravidei pela primeira vez. O problema é que, o que deveria ser alegria, me tirou os pés do chão, pois descobri a gravidez, justamente quando estava abortando com 6 semanas.

Foi aí que tive contato com minha primeira perda gestacional e com a crueldade das pessoas que negligenciam este tipo de perda. “Ainda bem que tava no comecinho, pior é perder mais tarde”, ou então “Ele nem era nada ainda. Era só um embrião”.

Chorei. Sim, fiquei triste. Eu queria aquele filho. Então tentei superar e ir adiante.

Passados 4 meses desta perda, outra alegria: eu estava grávida novamente. Mas, minha alegria foi interrompida em agosto de 2012. Descobrimos no ultrassom que nosso bebê de 13 semanas havia parado de se desenvolver por uma má formação. Mais uma vez a tristeza do berço vazio e da crueldade humana. “Você ainda é jovem, pode ter quantos filhos quiser”.

Menosprezam nosso sentimento, desclassificam a nossa dor. Isso é o que me incomodava ainda mais.

Meu sonho parecia ficar cada vez mais distante. Em dezembro do mesmo ano, engravidei pela 3ª vez. Me lembro do Natal daquele ano. O quanto chorei de felicidade, durante a festa de Natal do trabalho ao som de “Anunciação” do Alceu Valença: “…tu vens chegando pra brincar no meu quintal”.

Era o que eu pensava o tempo todo: era o meu menino, o Samuel. O anjo de cabelinhos pretos mais lindo que conheci!

Mas Samuel não era deste mundo. Ele precisou partir e deixou em nós uma dor imensa. A maior do mundo. Ninguém, exceto quem já passou por isso, pode imaginar o tamanho desta dor.

Meu marido cuidou sozinho do sepultamento do nosso filho.

Muito se fala na dor das mães, mas pouco se fala na dor dos pais. Ela também existe e é tão grande quanto a nossa. Enterrar meu filho. Vê-lo num caixão escolher as flores…

Procuramos psicólogos, médicos, psiquiatras, padres. Fomos diversas vezes à igreja e pouca, mas muito pouca gente mesmo sabia o que dizer.

Se por um lado não sofri violência obstétrica, por outro sofri a violência emocional, verbal, familiar. Apesar da morte ser algo certo na vida de todas as pessoas, quase ninguém sabe lidar com ela. O que fazer e o que dizer. Apesar da morte ser algo certo na vida de todas as pessoas, quase ninguém sabe lidar com ela. O que fazer e o que dizer.

E assim se passou nosso primeiro ano sem ele. Nós dois sempre nos apoiamos e, quando um caía, o outro ajudava a erguer. E tem sido assim até hoje.

Um ano depois, eu me senti pronta para tentar outra vez. Não fiz planos e engravidei na primeira tentativa. Tão logo eu soube, o medo de perder este novo bebê tomou conta. Não curti a gravidez como gostaria. Não quis contratar fotógrafos, não tive chá de fraldas, nem nada que me fizesse criar grandes expectativas tamanho o medo de uma nova perda.

Enquanto isso, minha mãe, Alba, foi diagnosticada com uma doença incurável e degenerativa – A Esclerose Lateral Amiotrófica, que ficou conhecida como a doença do balde de gelo. Tudo isso não nos permitia curtir a gravidez.

Minha quarta gestação era de uma menina, a Sarah. Foi muito tensa também por todo o contexto envolvido. Aos 6 meses, sofri uma queda que me deixou em repouso até o final da gestação. Aos 7 meses, tive que me despedir da minha mãezinha. Mais uma triste despedida.

Até que aos 8 meses minha Sarah resolveu vir ao mundo, por uma cesariana de urgência, no dia 1 de abril de 2015. Minha menina trouxe a alegria que a minha casa precisava ter!

Sarah chegou em casa 4 dias depois, como diz a música Anunciação “…que tu virias numa manhã de domingo…” e trouxe brinquedos espalhados no chão, roupinhas miúdas no varal, novas músicas, serões de madrugada, e muito amor. Era domingo de Páscoa, quando entramos em casa com ela. Lembrei que Jesus renasceu na Páscoa e que eu renasci como mãe.

Nunca saberemos os motivos pelos quais Deus não nos permitiu criar nosso Samuel, mas temos uma certeza: seu amor se faz presente em cada detalhe do nosso dia-a-dia.

Hoje, a Sarah é o nosso arco íris, que traz luz e cor à nossa