Emicida abre coração sobre carreira após paternidade: “Mudei meu cantar”

O cantor falou sobre a importância das referências e representatividade para as crianças e contou um pouco do livro que lançou

Resumo da Notícia

  • Em entrevista exclusiva para a Pais&Filhos, Emicida falou sobre a importância da representatividade
  • O cantor que lançou seu segundo livro infantil, também falou sobre as motivações do trabalho
  • Confira o nosso papo completo a seguir

Pai de Estela e Teresa e autor do livro “E foi assim que eu e a escuridão ficamos amigas”, Emicida abriu o coração e toda a trajetória para reforçar a necessidade do diálogo com as crianças e de tornar essa troca um hábito (em que todos os lados têm muito para ensinar e aprender).

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Ele abriu o jogo sobre a criação das filhas (Foto: arquivo pessoal)

Você sempre teve vontade de ser pai?

Não. Eu nem imaginava que seria pai. Eu fui surpreendido nas duas paternidades. Quando a Estela nasceu, deu um grande reset na minha vida. Eu era uma pessoa bem pessimista, mas é incrível como uma criança renova suas perspectivas. Ela me fez olhar pro mundo de novo e ver que dá tempo de mudar. Minha esperança inteira se renovou. E minha mais nova gerou a mesma provocação em mim quando chegou. Isso me fez voltar para a rua com o coração aceso de novo pronto para lutar contra o mal como se fosse um super-herói. Ser pai me melhorou demais.

Como a paternidade mudou a sua vida e maneira de ver as coisas?

O jeito que eu canto mudou depois que me tornei pai. Não apenas pelas coisas que falo, mas pela maturidade. Eu mudei no jeito de cantar, porque sempre morei em casas pequenas e compunha de madrugada, mas é o horário em que as crianças vão dormir, então comecei a sussurrar e essa forma sussurrada ganhou mais espaço. O primeiro Emicida é mais escandaloso. Agora a tônica é mais um diálogo. Eu fico muito orgulhoso das minhas filhas poderem frequentar qualquer lugar que minha música esteja.

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O que seus pais te ensinaram que você passa para suas filhas?

O meu pai faleceu muito cedo, eu tinha 6 anos. Então eu não tenho essa memória presente. Eu lembro de poucos episódios, principalmente quando comparado com o quanto queria ter. Por muito tempo, eu coloquei meu pai no lugar de culpado, mas depois parei para pensar quais eram as referências e influências que ele teve para ser melhor do que era. Eu consegui pacificar nosso encontro, não é mais um lugar de trauma. E é com essas questões positivas que quero dar o melhor que tenho para as minhas filhas. A paternidade é uma experiência que você desfruta no presente. Da minha mãe peguei a perseverança. Ela é curiosa e teimosa e eu sou igualzinho (rs).

No seu trabalho, você trata bastante das questões sociais. Qual a importância da cultura para as crianças?

As crianças são os únicos seres vivos que olham para o mundo e conseguem perceber ele. Os adultos estão mais preocupados com outras coisas. É importante conversar com as crianças sobre assuntos mais densos para perceberem que todos os assuntos são delas. Verem que eu posso ver de uma maneira, elas de outra e não tem alguém certo ou errado. É muito importante que minhas filhas saibam que nem todas as crianças em um momento como esse têm a possibilidade de estar em casa fazendo aula online, por exemplo. Elas crescem com um pouco mais de sensibilidade com as variações que a vida irá apresentar.

O que te motivou a escrever para o público infantil?

Quando comecei minha carreira, a pessoa que se identificava com o Emicida era aquela que estava entre a adolescência e início da vida adulta. Em um momento, parei para fazer uma reflexão e percebi que poderia chegar antes na vida dela, tratar sobre esses assuntos mais cedo, antes de se transformarem em trauma. Para mim, conversar com as crianças é uma maneira bacana de introduzir esses assuntos essenciais nas casas. Mas a arte não tem essa barreira de idade. O que eu produzo é muito cuidadoso, até antes de ter minhas filhas, então o que fiz também pode ser curtido com as crianças.

Alguma situação que passou com as suas filhas te inspirou para escrever o livro?

Sim! Tanto com a minha filha mais velha quanto com a mais nova. No momento em que você vai colocar elas para dormir, fica vagando de madrugada. São horas e horas chacoalhando o bebê. Eu fui uma criança que até muito tarde tive medo do escuro e viver esse período com minhas filhas me fez lembrar desse sentimento e ir pacificando essa relação. Subi alguns degraus e percebi que poderia colocar o medo no lugar dele. De primeira, estava pensando em escrever uma música sobre o assunto, mas percebi que poderia contar primeiro e de forma mais densa para as crianças através de um livro.

Ele também falou da carreira (Foto: arquivo pessoal)

O que você espera que as crianças sintam ao ler esse livro?

Às vezes, a minha filha acha que é a única pessoa do mundo que sente medo, o que deixa ela constrangida. Mas o medo é uma característica tão comum, todo mundo tem. Não é um problema ter medo, o problema é o medo ter você. A minha intenção foi contar isso para mais crianças. E não só elas, porque em 2020 o sentimento de insegurança bateu ainda mais forte. Não precisamos olhar para o medo como vilão, mas ele precisa ser colocado no lugar dele, e não é o de protagonista. O protagonista somos nós mesmos.

Você acredita que se tivesse lido esse livro na infância teria te ajudado de alguma forma?

Com certeza. Se tivesse lido um monte de coisas na infância seria muito melhor (rs). Essa é a importância de nós dividirmos, não só o livro, mas as histórias. É muito bacana fazer essa travessia com os filhos. O mais incrível que as histórias fazem é criar uma ponte em que eu e você nos encontramos no meio. Isso faltou na minha infância. Agora, eu me relaciono com essa falta de forma muito diferente. Antes tinha culpa e culpava minha mãe por não ter o tempo para me dar atenção, mas a maturidade fez com que eu entendesse com outro olhar e é com ele que olho para todas as coisas hoje.

Qual a importância de crianças negras se sentirem representadas em todas as esferas?

A representatividade, quando feita de maneira correta, concede a todo mundo uma espécie de superpoder. Quando você não se vê de forma positiva ou não se encontra no entretenimento, política, empresas, não só as crianças, mas qualquer um de nós, sente. Mas quando observa pessoas com as mesmas características em um lugar de prestígio, parece de fato um superpoder e a corrente se quebra.

O livro fala bastante sobre lidar com o medo. Qual o seu maior medo como pai?

Eu tenho muito medo dessa adultização das crianças. Eu tenho medo de que a infância das minhas filhas seja roubada delas e a pós-infância seja acelerada pela forma como vivemos. O nascimento da segunda filha mudou muita coisa em casa, o mais bacana foi ter gerado um sentimento na minha mais velha de querer se conectar com a infância novamente, com as brincadeiras. Ela estava trocando pelas redes sociais. A rede social não faz sentido para as crianças. O que faz sentido para a criança é brincar, imaginar… Meu medo é não conseguir criar uma atmosfera para que elas possam viver a infância plenamente.

Qual a importância de uma criação antirracista atualmente?

Falar sobre antirracismo desde muito cedo é tentar alinhar o ser humano com a vocação primeira que ele tem. É incrível que possamos ser atleta, astronauta, jornalista, mas a nossa primeira vocação é ser humano. Raça, como a gente concebe, é uma construção social e política, não faz sentido nenhum do ponto de vista da biologia. Toda essa desigualdade existe para cumprir um propósito e trabalhar essa educação antirracista é dissociar as crianças desse propósito.

Você acredita que juntos podemos lutar contra preconceitos e vencê-los?

Nós precisamos ter liberdade para falar e errar. Esse explícito de tensão que se espalhou pelas redes sociais pode ser muito perigoso. Eu não furto das pessoas o direito de errar. Nós estamos em um aprendizado constante, por isso a troca é tão importante. A construção é mútua e coletiva. Esse clima de tensão não me representa. Eu cresci num ambiente em que todo mundo falava, inclusive besteira, e entendi que aquele discurso era real e também fazia parte do mundo.

Você acredita que essa educação já é uma realidade?

No campo do discurso, a gente está muito avançado. Agora, é o momento de nos questionarmos profundamente e criarmos mecanismos para realmente transformar, para proteger as pessoas de males que alcançam as vidas delas quase de maneira cega e irracional. É a hora de subir um degrau e propor soluções. Os discursos bonitos nas redes sociais não bastam. O que nós precisamos agora é corroborar com projetos que desassociem essa cultura.

Para você, família é tudo?

Sim. A minha concepção é que família é algo que você constrói com base nas suas afinidades e crenças. É um lugar em que você se sente protegido. Resumindo, são as pessoas que você ama e também se nutrem do que você planta.

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