“Entrei na maternidade para ter 2 bebês e saí de colo vazio”, mãe que perdeu gêmeos fala sobre superação

A dor da perda de um filho é imensurável – e ainda mais pesada quando são dois bebês que perdem a luta pela vida. Foi essa história que Renata Fernandes, mãe de Antônio, Eduardo e Guilherme, contou com exclusividade para a Pais&Filhos

Resumo da Notícia

  • Renata Fernandes é casada com Bernardo e mãe de três filhos: Antonio, Eduardo e Guilherme
  • Renata passou por momentos emocionantes de dor e luto ao perder os gêmeos Antonio e Eduardo ainda na maternidade
  • Mesmo assim, a mãe se reergueu - e contou com exclusividade para a Pais&Filhos a própria história. Confira na íntegra!

Não existe nenhum ser humano no mundo que seja capaz de descrever, com precisão, a dor de perder um filho – imagine dois. Mesmo assim, nessa realidade, uma mãe decidiu abrir o coração e contar com exclusividade a própria história para a Pais&Filhos.

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Renata Fernandes é casada com Bernardo e mãe de três filhos: Antônio, Eduardo e Guilherme. Tendo sempre sonhado em ser mãe, ela jamais imaginava que viveria momentos tão delicados até que esse sonho finalmente se concretizasse. Isso porque foram anos até que ela finalmente conseguisse engravidar – e, então, vivesse ainda mais desafios.

“Sempre fui aquela menina que cuidava das bonecas, dava banho, trocava as roupa delas… e a minha vida toda eu sonhava se ia ser mãe de menino, de menina, quantos seriam… até que a vida me apresentou um grande desafio: a dificuldade de engravidar. Como assim? Logo eu que tenho esse desejo tão intenso?”, relembra Renata. “Anos depois de tratamentos descubro a tão esperada notícia : mãe de gêmeos. Dois meninos, aquilo era muito pra mim. Muito feliz e muito desafiador. Desde a primeira ultrassonografia tivemos obstáculos, um hematoma bem grande que sangrava e me impedia de me movimentar. Repouso! Os meses foram passando e com 18 semanas a bolsa de um dos bebês rompeu. Como isso era possível?”.

Renata e toda a família se surpreenderam com a situação e, por causa disso, correram para o hospital. Por lá, os médicos logo internaram a mãe de primeira viagem, e fizeram questão de ressaltar que confiavam na força de Renata e no futuro dessa gravidez.

“Ficamos nós 4 internados, eu, meu marido e meus filhos, Antônio e Eduardo até as 24 semanas, quando fui surpreendida por uma dor avassaladora e o tão temido início de trabalho de parto. Não teve medicamento que interrompesse.  As dores do parto não eram desejadas naquele momento, mas eles tinham que nascer. Foi uma mistura de medos. Medo de morrer , medo deles morrerem, medo do que eu ia viver”, desabafa Renata.

As marcas que a maternidade traz
Renata falou sobre a dor da perda dos dois filhos (Foto: Getty Images)

A surpresa foi ainda maior quando, após uma cesárea de emergência, Antônio e Eduardo foram diretamente encaminhados para a UTI. Horas depois, Renata recebeu a notícia de que um dos bebês, Eduardo, não havia resistido – pois seu pulmão não havia se formado. Logo no dia seguinte, e após apenas um encontro rápido, a mais temida notícia: Antônio também havia falecido.

“Entrei na maternidade para ter dois bebês e saí de colo vazio. Estava dilacerada”, contou Renata. “Meus filhos nasceram e morreram com poucas horas de vida. Nenhuma mãe poderia passar por isso, é devastador. Foi uma dor de alma, profunda, como se tivessem arrancado uma parte de mim”.

Como seguir em frente?

A dor de uma perda é ainda maior quando é uma mãe que não consegue viver junto dos filhos. Parece um desafio, mas Renata garante – foi com o apoio incondicional da família que os primeiros passos para uma jornada de esperança foram dados.

“Tive um suporte muito grande de todos os lados”, diz Renata. “Fui acompanhada bem de perto pela minha psicóloga e psiquiatra, fui acolhida e medicada. Recebi muito carinho e amor da minha família e dos meus amigos. Também na espiritualidade descobri formas de amenizar minha dor. Participei de grupos de ajuda com pais que perderam seus filhos e esses encontros foram providenciais. Sem sombra de dúvida toda ajuda que recebi me ajudou a ficar em pé. Aprendi muito com meu luto. Os meus filhos me transformaram numa pessoa melhor”.

Além disso, uma rede de apoio de pais e mães que compartilhassem relatos sobre as próprias perdas dentro da família foi essencial para que Renata entendesse que, enfim, existe vida após o luto. Sobre a partilha de outras mulheres, ela ainda ressalta:

“Eu me senti compreendida, acompanhada e acolhida. Não estava ali sozinha sentindo a pior dor do mundo. Recebi muito amor e muita escuta de mulheres com suas histórias de perdas. Elas deram voz à  minha dor. Foi grandioso, milagroso. O luto é um tabu , a gente não fala sobre isso. As pessoas só gostam de falar de nascimento, de alegria, de vida! Precisamos mudar essa cultura. O motivo pra eu estar aqui falando da minha história é esse, dar conforto para outras mulheres que passam por isso. Para que elas se sintam acolhidas, acompanhadas, entendidas. Que se sintam parte”.

A família aumentou

O que parecia um fim se tornou um recomeço para Renata e Bernardo. Isso porque o casal, após vivenciar a experiência de um luto extremamente doloroso, recebeu a mais esperada notícia: a terceira gravidez, dessa vez de Guilherme.

Mesmo recheada de medos e receios, foi na força da maternidade que Renata pôde entender que precisava ser morada para o terceiro filho – e daria, mais uma vez, tudo de si para que o trouxesse ao mundo com saúde, paz e (muita) alegria.

Renata e Bernardo comemoraram a chegada de Guilherme!
Renata e Bernardo comemoraram a chegada de Guilherme! (Foto: Arquivo Pessoal)

“Foram vários sentimentos misturados, uma montanha russa. Eu fazia consulta e ultrassonografia semanalmente, por 9 meses. Tive um acompanhamento médico bem de perto. E ainda tinha um aparelho em casa e ouvia os batimentos cardíacos dele, todos os dias de manhã e de noite”, relembra Renata. “Mas o Guilherme  “dizia” pra mim a cada exame: sim, eu vim para ficar, confia! E mesmo com medo, encarei e consegui enxergar que era outra história”.

E foi: como o caçula de três irmãos, Guilherme veio ao mundo cheio de saúde. Para a sorte dele, veio ao mundo em uma família que reconhece a importância da união, especialmente nos momentos difíceis.

Família é pra onde eu vou nos momentos mais difíceis. Mas é também com ela que compartilho minhas conquistas. A minha família foi o meu suporte por toda minha vida. Nenhuma família é perfeita , mas é ali que a gente se resgata, se conforta, se recupera pra seguir. Tive muita ajuda deles. Em especial do meu marido , que não soltou a minha mão nem um minuto, que consegue ser meu lar, meu aconchego, com quem me sinto segura. Enfrentamos juntos a pior dor que os pais podem viver, e não perdemos o que mais acho importante num casal : a cumplicidade , o carinho e o respeito”, relembra Renata.

E ainda completa, “Hoje vivemos a maior alegria, o Guilherme é um bebê que enche nossa casa e nosso coração de amor e de festa! É mágico quando estamos brincando com ele e de repente nos entreolhamos. Sabemos ali naquele olhar tudo o que passamos e que isso sim é o que importa. Não é exatamente o que a gente passa que define nossa vida, é o que a gente tira desses momentos, o que a gente absorve e no que a gente se transforma com eles“.

Existe luz no fim do túnel

São, infelizmente, muitos pais que perdem os filhos e vivem para sempre com a dor da perda. Mesmo assim, Renata garante que é possível seguir em frente se você se perdoar e deixar que o sentimento da dor, da perda e do luto sejam sentidos – e não evitados.

Renata e o marido, Bernardo, enquanto aguardavam a chegada de Guilherme
Renata e o marido, Bernardo, enquanto aguardavam a chegada de Guilherme (Foto: Arquivo Pessoal)

Por causa disso, Renata mandou o recado: “Foi na dor que eu encontrei a maior transformação da minha vida. Aceitem ajuda, conversem sobre isso, honrem os seus filhos a todo momento. Falem deles, pronunciem seus nomes. Eu sou mãe de três, Antônio , Eduardo e Guilherme. Falar sobre a perda, sobre os sentimentos , sobre os medos e angústias ajuda na nossa recuperação. Escolham as pessoas certas e empáticas para dividir essas questões.