Estudante é proibida pela Justiça de cursar faculdade por fazer ‘homeschooling’

Na educação domiciliar, que não é permitida no Brasil, os pais ou tutores assumem o processo de aprendizagem das crianças, ensinando os conteúdos ou contratando professores particulares

Resumo da Notícia

  • Uma estudante de Sorocaba, interior de São Paulo, foi impedida pela Justiça de cursar uma faculdade;
  • Elisa de Oliveira Flemer, de 17 anos, foi aprovada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP);
  • E estuda em casa desde 2018, e a decisão se deu justamente pelo fato de a jovem fazer "homeschooling".

Uma estudante de Sorocaba, interior de São Paulo, foi impedida pela Justiça de cursar uma faculdade. Elisa de Oliveira Flemer, de 17 anos, foi aprovada na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e estuda em casa desde 2018, e a decisão se deu justamente pelo fato de a jovem fazer “homeschooling“.

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Na educação domiciliar, os pais ou tutores assumem o processo de aprendizagem das crianças, ensinando os conteúdos ou contratando professores particulares. Até então, não existiam regras para a modalidade de ensino, que gera polêmica entre especialistas e a população.

Em agosto de 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu vetar o ensino domiciliar. A maioria dos ministros entendeu que permitir o ensino domiciliar fere, de certa forma, a Constituição e que era preciso uma lei para tornar a prática possível.

Estudante é proibida pela Justiça de cursar faculdade por fazer ‘homeschooling’ (Foto: Reprodução/TV TEM)

Elisa já passou em faculdade particular, tirou quase mil na redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e, recentemente, conquistou o 5º lugar no curso de engenharia civil da Escola Politécnica da USP, por meio do Sistema de Seleção Unificada (Sisu). Mas sem o certificado do ensino médio completo, ela não pôde entrar na faculdade.

Após a história da jovem viralizar nas redes sociais, a menina recebeu muitas propostas de emprego. E a “fama” levou outros estudantes a prestarem depoimento. “São muitas famílias que adotaram o ‘homeschooling’, mas elas têm que ficar escondidas por causa da lei. Falei com a minha mãe que começou a surgir ‘homeschooling’ de todos os lugares (risos)”, explica a jovem ao G1.

A estudante pretende gravar vídeos na internet e falar sobre a conscientização do método “homeschooling”, e debater as falhas na educação. “Tudo o que eu quero é tratar da educação, das falhas, de recompensar o mérito. Acho que isso acaba transformando a sociedade em algo menos aristocrático”, conclui.

Homeschooling: bom ou ruim?

Segundo Andrea Ramal, educadora e doutora em Educação pela PUC-Rio, filha de Alícia e Antônio Pedro, em entrevista à Pais&Filhos, o homeschooling surgiu em outros países para atender a demanda de pais que não estavam satisfeitos com o ensino aplicado nas escolas públicas e privadas. Estados Unidos, Espanha, Chile e Finlândia são alguns dos países adeptos à prática, mas a maioria têm exames para controlar o avanço acadêmico dos alunos.

E apesar do sucesso acadêmico de Elisa, a educadora também destacou possíveis problemas de estrutura que não tornam viável o homeschooling no Brasil. “Há um risco que dentro de casa a criança não desenvolva o ritmo necessário para estudo. Imagina que hoje seu filho fica na escola por no mínimo 6 horas e meia desenvolvendo trabalhos acadêmicos, como os pais conseguiriam aplicar isso em casa? Nos preocupamos também com os pais displicentes que vão deixar a educação escolar dos filhos em segundo plano”, questiona.

Os professores tem um papel fundamental na vida do seu filho (Foto: Thinkstock)

Contudo, apesar da necessidade do desenvolvimento do pensamento crítico entre as crianças, especialistas ressaltam que essa não é uma responsabilidade apenas da escola e dos professores. “Mais do que nunca, o Brasil precisa que sua juventude desenvolva o senso crítico – e isso não recai apenas nas escolas. A sociedade não pode e não deve colocar tudo nos ombros de seus professores. Precisamos lembrar que os primeiros e mais importantes professores de uma criança são, na verdade, os pais”, defende o educador Nigel Winnard, mestre em administração educacional pela Universidade de Michigan, doutor em educação pela University of South California e diretor da Escola Americana no Rio de Janeiro.