Fagofobia: saiba mais sobre o transtorno que faz com que as crianças tenham medo de engolir 

Se seu filho abandonar a comida no prato e demonstrar que não gosta mais de comer, é preciso estar atento

Resumo da Notícia

  • Depois da introdução dos alimentos, com o passar do tempo, seu filho pode começar a abandonar toda a comida no prato
  • Se isso acontecer, é preciso estar atento - afinal, essa atitude caracteriza a fagofobia
  • O transtorno é uma condição associada à ansiedade em que a pessoa desenvolve o medo de engolir alimentos

A introdução alimentar é um momento que exige muito cuidado e paciência dos pais. As crianças estão começando a se relacionar com a comida, e nesse momento, toda ajuda é bem-vinda para construir um paladar saudável, e que evite alergias para a criança. No entanto, depois da introdução dos alimentos, com o passar do tempo, seu filho pode começar a abandonar toda a comida no prato e demonstrar que não gosta mais de comer. Se isso acontecer, é preciso estar atento – afinal, essa atitude caracteriza um transtorno chamado fagofobia.

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Uma tal de fagofobia

O transtorno, chamado de fagofobia, é uma condição psiquiátrica associada à ansiedade em que a pessoa desenvolve o medo de engolir alimentos sólidos, líquidos e até comprimidos. Ela está ligada a um estado de ansiedade ou trauma, que leva à recusa alimentar, com prejuízos muito graves para a saúde, como a perda de peso, emagrecimento não-saudável e problemas gástricos principalmente.  Pouco se sabe sobre a prevalência desta doença, mas o diagnóstico é frequentemente tardio, o que aumenta o risco de complicações.

Saiba mais do transtorno que faz com que as crianças tenham medo de engolir
Saiba mais do transtorno que faz com que as crianças tenham medo de engolir (Foto: Getty Images)

Edivana Poltronieri, empresária, mãe de Valentina, de 11 anos, contou que o excesso de informações sobre o coronavírus, somado ao medo da morte, fez a filha desenvolver a doença. “Em novembro de 2020, comecei a perceber que Valentina estava reduzindo a velocidade para engolir e logo pensei que ela estava enrolando para comer. Depois de um tempo, deduzi que o problema poderia ser a comida. Daí, comecei a ver que ela disfarçava para sair da mesa só para cuspir a comida no guardanapo ou no lixo”, relata a mãe.

A empresária contou que teve dificuldades para identificar a fagofobia, porque a filha não apresentou nenhum problema comportamental, como tristeza ou agressividade. “Não houve mudança em seu comportamento a não ser o alimentar. Valentina continuava brincando, fazendo as tarefas da escola, como se nada estivesse acontecendo”, continua.

A mãe diz que por muito tempo chegou a pressionar a filha para comer, até que a menina passou a engasgar e ter sensações de sufocamento em algumas refeições. “Tentamos fazê-la enxergar a comida de forma normal, mas quando chegava o momento das refeições, ela tremia, ficava em pânico, chorava, suava frio e respirava ofegante. Eu nunca tinha visto a minha filha naquele estado e quando eu pedia explicações, ela só chorava muito”, conta.

Após o diagnóstico junto ao psiquiatra e adaptação de toda a rotina da família, Valentina vem superando a doença “Para controlar a ansiedade, ela passou a tomar calmantes naturais, fazer exercícios respiratórios e yoga. A gente também evita falar muito de doenças em casa e, em paralelo, fazemos refeições líquidas e fáceis de mastigar, como sopas, verduras, sucos, vitaminas”, completa a empresária.

Birra, transtorno alimentar ou fagofobia?

Cada caso é um caso. Danielle Admoni, mãe de Maya, David, Naomi e Shay, psiquiatra da infância e adolescência na Escola Paulista de Medicina UNIFESP e especialista pela Associação Brasileira de Psiquiatria, o importante é saber diferenciar essa fobia de um transtorno alimentar. “Não é fagofobia, quando a pessoa está realmente muito magra e não se vê assim. Ela alimenta a ideia de que precisa perder peso, e vai evitando a alimentação”, explica.

O transtorno, chamado de fagobia, é uma condição psiquiátrica associada à ansiedade
O transtorno, chamado de fagofobia, é uma condição psiquiátrica associada à ansiedade (Foto: Getty Images)

De acordo com ela, é preciso observar se aquilo também não é uma situação passageira. “Às vezes, a criança tem vontade de comer alguns alimentos e outros não, e por isso, acaba fazendo birra para evitar ou ter mais daquela comida. No entanto, isso normalmente passa. Mas se é algo que persiste, aí é preciso pensar em fagofobia”, explica.

Monica Machado, mãe de Luiza e Raphael, é psicóloga pela USP, fundadora da Clínica Ame.C, pós-graduada em Psicanálise e Saúde Mental, explica a diferença entre birra e fagofobia. “Na birra, a criança tem uma certa tendência a manipular os pais ou os cuidadores, fazendo da refeição como uma troca para obter algo que foi negado a ela”, diz. “A criança com ansiedade, ao medo da ingestão de um alimento, notoriamente apresenta um aspecto emocional de esquiva, desespero e fisiológico, ao apresentar vômito”, completa.

Como é feito o tratamento?

O diagnóstico é apresentado com sintomas fisiológicos,  no entanto, o medo de engolir e ou vomitar estão diretamente relacionados à ansiedade, e de acordo com as especialistas, isso não deve ser descartado no tratamento clínico e medicamentoso.

“Na rotina de uma criança com este transtorno, é importante incluir o acompanhamento da família e ter lugares tranquilos disponíveis para a criança fazer todas as suas refeições. Assim, é possível levar o alimento como fonte de prazer, e não como qualquer responsabilidade ou cobrança”, diz Monica.

Danielle explica que, por se tratar de um transtorno psíquico, o tratamento é feito de forma multidisciplinar, ou seja, tanto pelo médico psiquiatra quanto pelo psicólogo. Dependendo da gravidade, também  pode ser necessário o acompanhamento de um endocrinologista e um gastroenterologista. “Vale ressaltar que o papel dos pais nesse processo é fundamental”, explica a médica.

Juntos somos mais fortes

A família é vital para o êxito do tratamento. De acordo com a psicóloga, a conta é simples: “O medicamento só será efetivo com a psicoterapia, que por sua vez, só funcionará com devolutivas e orientações aos pais. É neste efeito cascata que o tratamento se desenvolverá”, avalia.  Vale ressaltar, que todo comportamento apresentado pela criança na psicoterapia é aprendido ou condicionado pelo ambiente vivenciado, então é preciso muito cuidado e carinho para proporcionar lares acolhedores e de convivência saudável.

O transtorno, chamado de fagobia, é uma condição psiquiátrica associada à ansiedade
O transtorno, chamado de fagofobia, é uma condição psiquiátrica associada à ansiedade (Foto: Getty Images)

Valentina, filha de Edivana ainda conclui: “O meu conselho para quem tem alguém próximo que sofre com isso é manter a calma e procurar ajuda. Pode ser difícil no começo, mas a descoberta é um alívio para a criança e a família”.