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Conversamos com mães que abriram o coração para receber a criança que viesse

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

No Brasil, apenas 15% se dizem dispostos a adotar e a maioria quer meninas, brancas, sem irmãos e sem deficiências – perfil que corresponde à minoria das crianças que vivem nos abrigos. Conversamos com mães que abriram o coração para receber a criança que viesse. Vamos aprender com elas?

Três irmãos: Maura Lima, mãe de Mariana, 3, Marcela, 5, e Marcos, 7

Era madrugada, e Mariana estava chorando por mais de uma hora sem parar. Ela tinha apenas 2 meses e foi encontrada pelo conselho tutelar embaixo da mãe, sufocando. A mãe, uma menina de 18 anos que já tinha outros dois filhos – cada um de um pai diferente -, estava bêbada. Naquela noite, perdeu seus três filhos, que foram levados a um abrigo na esperança de encontrar pais melhores.

A futura mãe, que ainda não os conhecia, era Maura, uma mulher que teve 11 irmãos e cresceu sonhando em formar uma família grande. Seu marido, Omiro, também queria encher a casa de crianças. No entanto, os filhos não poderiam ser biológicos. O casal fez várias tentativas de engravidar, todas sem sucesso.

Como a idade já estava avançando, Maura desistiu da gravidez, mas não do sonho de ser mãe. Cadastrou-se no fórum e entrou na fila de espera para adoção. Em seu cadastro havia pouquíssimas restrições: ela só não queria uma criança com doença mental grave, pois achava que não teria condições de cuidar.

Quando foi ao abrigo, conheceu Mariana, um bebê de 10 meses. A diferença, que para muitos seria um porém, é que ela tinha dois irmãos mais velhos.

Mariana estava doente e tinha o tamanho de uma recém-nascida. Sua irmã, Marcela, com 2 anos, ainda nem falava. Marcos era o mais velho deles, já tinha 4 anos. Todos cheios de marcas dos maus tratos da mãe.

Maura aceitou adotar os três. Não queria separar a família. No entanto, passaram-se dois anos até que o processo fosse finalizado. Havia o medo constante de perder aquelas crianças. Em outubro do ano passado, Maura pôde registrá-los em seu nome, quando também acrescentou um segundo nome a cada um deles, escolhido pelas próprias crianças. O procedimento é um jeito bacana de conciliar o passado que a criança traz consigo e, ao mesmo tempo, marcar o início dessa nova história. 

O prazer de adotar foi tanto que Maura ingressou num grupo de apoio à adoção. Ela ajuda mães a encontrarem seus filhos, dando um empurrãozinho ao destino.

Recentemente, Maura descobriu que eles têm outro irmão, mas não se sabe onde está. Provavelmente mora com o pai em algum lugar do Brasil. Ela quer adotá-lo também e reunir a família toda novamente. No passado, tinha medo de receber crianças de outra família, mas isso desapareceu. -Eles são meus filhos.-

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Família especial: Carla Penteado, mãe de Marcela, 7, e Luana, 2

-Ela não sente-, foi o que disse a mulher do abrigo quando Carla se aproximou de Marcela. A menina tinha paralisia cerebral e morava no abrigo, pois sua mãe não tinha condições de cuidar: era esquizofrênica e estava num sanatório. Carla não deu atenção àquela sentença. Pegou a pequena no colo e começou a cantar para ela. No mesmo instante, Marcela começou a chorar – ela sentiu.

Todos no abrigo ficaram impressionados e disseram que Carla precisava adotá-la. No entanto, ela não tinha pretensão nenhuma de ter um filho naquele momento. Mas, quando chegou em casa, caiu em prantos. E disse ao marido que queria adotar aquela menina. Logo no dia seguinte, procurou o juiz para saber o que deveria fazer. O magistrado foi o primeiro de muitas pessoas a se surpreender com a escolha. -É maluca, só pode ser-. Era o que todos achavam. Na época, apenas se sabia que Marcela sofria de paralisia cerebral. Depois, descobriu-se que Marcela também era autista.

Demorou, mas Carla conseguiu adotar a menina. Logo depois, entrou na fila novamente para adotar outra criança. Já sabia que o processo era demorado. Ao decidir o perfil da criança que adotaria em seguida, Carla chegou à conclusão de que, se adotasse uma criança -normal-, Marcela seria deixada de lado. Optou por uma criança com deficiência.

Sua segunda filha seria Fabíola, de 9 meses, com síndrome de Down. Por problemas burocráticos, Carla não conseguiu conhecer a menina. Ela estava num abrigo do Rio de Janeiro e, no dia em que Carla iria encontrá-la, a menina fez uma cirurgia e morreu. -Foi uma filha que eu perdi-.

Depois de um período de luto, Carla voltou a procurar outras crianças para adoção, até que conheceu a Luana. Apaixonou-se. Ela tinha síndrome de Down e seu estado de saúde era muito ruim, pois não tinha os cuidados necessários no abrigo. Depois de um laudo médico, foi constatado que Luana precisava do -desabrigamento-. A princípio, não podia ser adotada, porque sua situação jurídica ainda estava indefinida. A mãe biológica era irresponsável e não quis nenhum dos filhos. Quem ajudou a resolver o problema de Luana e permitiu que ela fosse adotada foram os tios da menina.

Carla ainda quer adotar mais filhos com deficiência. Definitivamente, não pretende ter filhos biológicos. Já fez até laqueadura.

O pai, Marcelo, sempre concordou com tudo. A única exigência que fez a Carla foi que ela parasse de trabalhar, para se dedicar totalmente às meninas. E foi o que aconteceu. O único trabalho que faz é com um grupo de apoio à adoção, ajudando outros pais a adotarem essas crianças mais que especiais. A música que Marcela ouviu naquele dia no abrigo, aquela que a fez -sentir-, ela entoa até hoje para a mãe: “meu coração, não sei por que, bate feliz quando te vê”.

-Tem muita criança especial para ser adotada, mas elas são menos disponíveis que as outras, porque a Justiça pressupõe que ninguém vai querer adotá-las e tenta devolvê-las à família. Ficaram durante um ano procurando a mãe da Luana, mas ela não queria ser achada-, Carla.

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Antes tarde do que nunca: Silvana Scaramuzza Fernandes, mãe de Gabriel, 13, Felipe, 12, e Daniel, 3

Gabriel, de 11 anos, não tinha mãe; seu pai era alcoólatra; e o abrigo em que morava, como sempre, o mandaria a