Força e inspiração: a história de Juliana Azevedo, que foi de estagiária a primeira presidente da P&G Brasil

Há quase 25 anos na empresa, ela fala sobre sua jornada e carreira, maternidade, a importância da equidade de gênero no mercado de trabalho e como não esquecer que antes de ser mãe, ela também é mulher

Resumo da Notícia

  • Juliana Azevedo é mãe de Rafael e presidente da Procter & Gamble Brasil
  • Em entrevista exclusiva para a Pais&Filhos, ela conta sobre sua experiência entre maternidade versus carreira
  • Além de grandes ações de empoderamento feminino dentro da empresa, Juliana fala sobre a importância da valorização feminina no mercado de trabalho para a sociedade como um todo

“Eu sempre quis ser mãe e mais alguma coisa”. Aos 45 anos, Juliana Azevedo é mãe de Rafael, mulher e muito mais. Entre os diferentes papéis que assumiu em sua vida, ela se tornou presidente da Procter & Gamble Brasil, empresa onde começou sua trajetória como estagiária, até alçar voo e atingir o posto de primeira mulher no país a ser presidente da P&G. Em entrevista à Pais&Filhos, ela fala sobre sua jornada e carreira, maternidade, a importância da diversidade e equidade de gênero nas empresas e como não esquecer que antes de ser mãe, você também é mulher:

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Você sempre sonhou em ser mãe?

Eu venho de uma família de mulheres muito fortes, que foram mães exemplares. Minha referência são de mães maravilhosas, avós maravilhosas, bisavós fantásticas que conseguiram materializar sonhos além da maternidade. Então, sim, eu sempre quis ser mãe e mais alguma coisa.

Quando engravidou, você teve algum medo de escolher entre a maternidade e a carreira?

Não, de jeito nenhum. Eu comecei como estagiária na Procter & Gamble, sempre tive o sonho de ser líder de uma grande empresa. Vou completar 25 anos por lá. Tive uma afinidade com os princípios e valores da empresa. Eu engravidei ainda como Diretora de Marketing e trabalhei até a 40ª semana, meu filho nasceu de 42 semanas. A P&G é um ambiente muito inclusivo.

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Como foi o retorno?

Eu estava em um ambiente seguro quando engravidei e quando voltei ainda não era perfeito. Por exemplo, não tinha uma área para amamentação. A gente montou uma sala pequena de amamentação com uma geladeira onde a gente podia conservar o leite. Me sinto muito privilegiada e tenho consciência que essa não é uma realidade de todas as empresas. Fui criada de uma maneira empoderada, vamos chamar assim, e acho que ajuda muito. Nós todos temos uma relação social e familiar antes da profissional.

Você chegou a enfrentar preconceitos por ser mulher e mãe pelas pessoas da equipe?

Alguns dos maiores desafios que já enfrentei foi quando eu tinha 3 anos na empresa e assumi uma posição regional, uma presidência da América Latina, e nessa posição eu fui morar no Panamá. Mas minha família, marido e filho ficaram no Brasil, então eu ficava no Brasil uma semana por mês e o restante, passava viajando. Recebi muitas críticas nesse período, do tipo: “Como eu estava abandonando meu filho? Como eu estava abandonando meu marido?”. Mas essas críticas vieram menos de dentro da empresa e muito mais até de amigos.

Você acredita que nasce a mãe, nasce a culpa, mas ao mesmo tempo já nasce um dedo apontado na sua cara?

Eu não tive culpa nesse período. Falei: “O dia que eu sentir que esse esquema está prejudicando meu filho ou meu relacionamento, eu levanto a mão”. Tanto que 6 meses antes de mudar de posição, eu levantei a mão pra empresa e falei: “Olha, eu estou ficando muito cansada e gostaria que a gente planejasse uma mudança”.

Em algum momento você se cobrou pensando que não estava sendo uma boa mãe?

Esse é um dilema constante, eu tenho muito claro quais são as coisas que considero que sou a melhor pessoa para fazer. Mas também construí uma rede de apoio para que meu filho tivesse a melhor criação, para que ele pudesse ser feliz. Minha mãe faleceu no ano passado, mas tive o privilégio de ela ter sido superpresente. Tenho funcionários que trabalharam comigo que foram fundamentais, mas tem outras coisas que só dependem de mim.

Você já vivenciou casos em que precisou encorajar mulheres?

Com certeza. Eu me sinto muito privilegiada, apesar de ser uma empresa que fala que tem políticas, a gente acabou de estender a licença-parental para 8 semanas dos pais. Porque a gente precisa do homem mais presente para que a mulher tenha um equilíbrio. Cuidar dos filhos é responsabilidade dos dois.

Mesmo não estando fisicamente presente, o vínculo da mãe com esses momentos de qualidade são muito importantes, certo?

Olha, eu conheço tantas mulheres que são presentes 24h, que são mentalmente e emocionalmente ausentes. Defino a maternidade como presente. Precisa cuidar. E aí, tem que definir o que é uma boa criação para a sua criança, para o seu companheiro, para a sua definição cultural, do seu núcleo — e não porque o resto está falando para você.

Juliana Azevedo é mãe de Rafael e presidente da Procter & Gamble Brasil (Foto: Divulgação)

Você percebeu uma mudança sua no lado profissional depois que se tornou mãe?

Eu sempre digo que você se torna uma líder melhor, um ser-humano melhor. Você vê o mundo diferente. Não quer dizer que aquelas mulheres e homens que não escolhem ter filhos não têm muito a agregar. É só diferente e a diversidade é um privilégio da humanidade.

Falamos muito que na criação dos filhos precisamos pedir ajuda. Você também acredita nisso?

Com certeza. A ajuda pode ser tanto de incentivar no trabalho, por exemplo, porque você está vendo que a sua colega não está com coragem de pedir um aumento do salário, trocar experiências, garantir espaço na mesa. Tem grandes e pequenas ajudas. Toda vez que o mundo sofre uma queda no número de mulheres no mercado de trabalho e na liderança, a sociedade sofre. Então estamos comprometidas aqui na P&G em tentar fazer o nosso melhor para que isso não aconteça.

O que as outras empresas têm que mudar para acolher as mulheres, principalmente depois do parto?

Diversidade e inclusão devem ser uma estratégia fundamental. A empresa tem que acreditar que isso vai fazer ela vender mais, aumentar mais. Mas aquelas que não se adequarem, em questão de tempo, vão ser expelidas e não as mulheres. Nós trabalhamos com pilares como cidadania, inclusão e sustentabilidade. Essas são algumas das vertentes. Precisamos dessas políticas bem trabalhadas. Não é porque está bom hoje, que amanhã vai estar. Não quer dizer que as nossas mulheres hoje, as nossas maiorias minorizadas, pessoas com distintas orientações sexuais, de diferentes idades, religiões, não vão precisar de algo diferente amanhã. Marcas conseguem forjar uma sociedade.

Quais iniciativas da P&G você poderia destacar?

Em 2019, fizemos um esforço junto com uma ONG chamada We Connect (conecta mulheres à oportunidades). Nós preparamos e demos acesso às mesas de compra da P&G para 25 empresas, que eram de propriedade e gerenciadas por mulheres. Porque apenas 1% da verba de grandes multinacionais é dedicada para negócios cuja propriedade é de mulheres.

Pode deixar uma mensagem para as mulheres olharem pra frente, subirem e não perderem a motivação de jeito nenhum?

Acreditem em vocês, não desistam e vamos nos ajudar, umas às outras.

Família é tudo para você?

Sem dúvida. É tudo.