‘Homeschooling’: Câmara aprova urgência sobre o requerimento do projeto educacional

A proposta tem como objetivo implementar o estudo em casa. O assunto vem gerando debates entre pais que concordam e que não concordam com o projeto

Resumo da Notícia

  • A Câmara aprovou o requerimento do homeschooling, ou educação em casa
  • A proposta tem como objetivo implementar o estudo em casa, onde as atividades são aplicadas pelos responsáveis
  • Foram 290 votos a favor da mudança, 144 contra e uma abstenção
  • O assunto tem gerado debates entre os pais sobre o ensino à distância das instituições

Câmara aprova nesta quarta-feira, 18 de maio, o requerimento do projeto de lei que regulamenta o homeschooling (ou educação em casa) com emergência. Ao todo foram 290 votos a favor, 144 votos contra e uma abstenção. A decisão divide opiniões, pois alguns pais vem criticando o ensino nas escolas e mostrando aprovação no sistema de educação domiciliar, enquanto outros, acreditam que o ensino nas instituições seja o melhor.

-Publicidade-

A proposta do homeschooling determina que as atividades educacionais sejam aplicadas por responsáveis das crianças. Os estudantes que optarem pela educação em casa, serão matriculados em escolas credenciadas, que irão acompanhar o desempenho e a frequência dos alunos nas atividades propostas, e também, o Ministério da Educação fará uma avaliação anualmente sobre os conteúdos da Base Nacional Comum Curricular.

'Homeschooling': projeto para legalizar a educação domiciliar pode ser votado ainda hoje na Câmara
Foram 290 votos a favor (Foto: Getty Images)

Vale ressaltar que a modalidade ainda não está permitida no Brasil.A ideia da votação foi para agilizar o processo para tornar essa modalidade de educação legal no país. Com a aprovação, o texto será votado em plenário sem passar pela análise de uma comissão especial da Câmara.

O ensino domiciliar atualmente não é permitido no Brasil, conforme uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que em setembro de 2018 entendeu não haver uma lei que regulamente o ensino domiciliar no país. A prática não é necessariamente proibida, mas também não é legal e nem amparada pela lei.

Mudanças no texto

A discussão sobre aprovação ou não do ‘homeschooling’ já acontece há um tempo no Brasil. O projeto já existe há cerca de 10 anos, mas sofreu algumas alterações nos últimos meses, propostas pela deputada federal Luísa Canziani.

Entre as exigências adicionada no projeto de lei está o pedido de que pelo menos um dos pais do aluno que será educado em casa tenha um diploma em educação profissional tecnológica. A criança ou adolescente também precisaria se manter matriculado em uma escola, onde passará por avaliações periódicas para acompanhar o desempenho.

Durante essas provas, se o estudante vier a repetir de ano duas ou três vezes, o novo projeto também prevê que ele tenha que voltar para o ensino tradicional, em uma escola.

O homeschooling traz mais benefícios ou dificuldades na educação?

De acordo com Roberta e Taís Bento, caso o homeschooling seja colocado em prática, existe uma tendência de que o processo causa grandes desafios na educação do país. “Temos muito a fazer para melhorar nosso sistema educacional. As desigualdades e injustiças que já eram enormes só fizeram aumentar ao longo desse período de pandemia. Precisamos desesperadamente de foco em minimizar os prejuízos a tantos alunos que estão sem aulas há mais de um ano. O homeschooling não acontece simplesmente quanto as famílias passam a ter autorização para ensinar seus filhos em casa. Há uma grande estrutura necessária até que os benefícios possam chegar às poucas famílias que de fato têm condições de colocar em prática esse modelo de ensino”.

Já Alexandre explica que: “​O homeschooling não deverá causar aumento de dificuldades para municípios, estados e a União, mas também não deverá trazer benefícios para o sistema público de educação. Será uma tendência que apenas poucas famílias com maior nível de instrução e recursos financeiros venham a ser capazes de se estruturar para educarem os seus filhos”.

Caso os responsáveis optem por ensinar os filhos no homeschooling, os conhecimentos são suficientes?

Roberta e Taís Bento acreditam que ainda assim é muito importante que as crianças tenham professores que conheçam o processo de aprendizagem, como: desafios, estratégias e necessidades específicas de cada aluno. “Há decisões altamente complexas a serem tomadas no momento em que uma criança está vivenciando o processo de aprendizagem. Além disso, as novas gerações enfrentam desafios que não faziam parte da nossa vida quando éramos os alunos. Esses desafios requerem a participação conjunta entre escola e família. Ao sobrepor esses dois papéis, o desafio da família se torna exponencialmente maior. E o da criança também, que passa a sobrepor o papel de filho e aluno no mesmo ambiente, ao mesmo tempo que perde as oportunidades de conexão com os colegas de sala, socialização com todos os funcionários e alunos da escola e oportunidades de aprender a partir das dúvidas e interações dos colegas durante a aula. O conteúdo a ser ensinado é apenas uma pequena parte desse processo”.

'Homeschooling': projeto para legalizar a educação domiciliar pode ser votado ainda hoje na Câmara
A votação sobre o projeto aconteceu nesta quarta-feira (Foto: Getty Images)

A decisão do homeschooling cabe à família

Enquanto morou na Inglaterra, Alexandre contou que conheceu um casal em que os dois filhos eram educados integralmente na modalidade de homeschooling. “Conversamos muito sobre tal experiência, reconhecidamente bem sucedida, e todos relataram que tiveram de se superar para absorver os conhecimentos necessários. Obviamente que tal sistema exige muito compromisso, disciplina e esforço de todos da família. Mas se determinada família entender que esse é o melhor caminho para eles, entendo que deveríamos respeitar e apoiar”.

Mas, é preciso estratégia para esse acompanhamento familiar, segundo as fundadoras do SOS Educação: “Muito mais do que tomar a decisão com base na disponibilidade da família em substituir a escola, o homeschooling requer toda uma estrutura de acompanhamento e suporte a essas famílias. O material a ser utilizado, as avaliações para acompanhar o desenvolvimento desses alunos e um sistema que minimize o enorme risco de termos muitas crianças fora da escola e sem o processo de aprendizagem acontecendo em casa também, tudo isso precisa ser estruturado para que essa modalidade de fato traga benefícios e liberdade”, explicam.

“A PL não deixa claro como serão acompanhados os alunos e famílias para garantir que estejam recebendo educação adequada. Nem tampouco de onde viria o orçamento necessário para uma estrutura que não aumente ainda mais a desigualdade nos níveis de aprendizagem entre os alunos. Existe ainda o risco de crianças deixarem de frequentar a escola sem que estejam de fato recebendo em casa a educação”, completam Roberta e Taís Bento.