Jovem que viveu em lar de adoção desde os 6 anos é aprovado em universidades renomadas dos EUA

Yuri Costa se apoiou nos estudos para superar barreiras e fazer a diferença na sociedade. Em entrevista à Pais&Filhos, ele contou sobre como a experiência de vida fez a diferença para a aprovação e deixou uma recado para crianças que estão passando pelo mesmo que ele durante a infância

Resumo da Notícia

  • Yuri Costa foi aceito com bolsa de estudos integral em duas universidades renomadas dos Estados Unidos
  • O jovem cresceu em um lar de adoção desde os 6 anos, tendo em vista que a mãe dele era dependente química e não conseguia cuidar dele
  • O universitário se apoiou nos estudos para superar barreiras e fazer a diferença na sociedade - com dois projetos sociais

Filho de dependentes químicos e acolhido para adoção, o estudante Yuri Costa se apoiou nos estudos para superar barreiras e fazer a diferença na sociedade. Estudante de escola pública, ele foi aceito com bolsa de estudos integral em duas das universidades mais renomadas dos Estados Unidos, e vai começar a cursar Políticas Públicas e Engenharia a partir de agosto na Duke University. Com ajuda da consultoria educacional internacional Crimson Education, ele conquistou sua vaga entre 44.481 candidatos e vai continuar ajudando – e inspirando – jovens brasileiros em projetos sociais.

-Publicidade-

O menino nasceu em um bairro periférico de Juiz de Fora e foi colocado no sistema de adoção aos seis anos. Acolhido pela ONG Aldeia Aldeias Infantis SOS Brasil, ele foi adotado pela primeira vez aos 11 anos, mas a adaptação à família não deu certo ele passou a viver em um lar temporário até completar a maioridade. “Hoje eu vejo que ter morado lá [Aldeia] foi um divisor de águas na minha vida, por que lá eu tive acesso a muitas oportunidades que eu não teria se tivesse ficado com a minha família. Eu tive oportunidade de estudar, fazer tratamento psicológico, fazer esportes”, diz Yuri em entrevista à Pais&Filhos.

Crescido em lar de adoção, jovem é aprovado com bolsa em universidades renomadas dos EUA (Foto: Divulgação)

O incentivo aos estudos foi estimulado por parte da mãe social, a assistente social que o acompanhou desde a chegada à casa de adoção. “Ela tinha o sonho que eu entrasse no Instituto Federal, mas faleceu antes disso, quando eu estava no 8º ano do Ensino Fundamental. Como forma de homenageá-la, passei na prova de admissão e entrei no ano seguinte” conta. “Ela me estimulou e me mostrou o caminho para que eu pudesse alcançar meus objetivos. Ela nunca deixou que eu ficasse parado. Se eu me formei no ensino médio ela é uma das grandes responsáveis”, adiciona.

Segundo Yuri, a infância e a trajetória dele até hoje o fizeram ser uma pessoa adaptável às mudanças, que foi fundamental para a construção de um traço muito importante da própria personalidade – a empatia. “O que eu mais aprendi vivendo em orfanato foi saber lidar com as adversidades. Sempre ter cautela nas minhas decisões e ao mesmo tempo arriscar nos momentos de necessidade. Não ficar na minha zona de conforto”, disse.

Projetos sociais

Vivendo uma vida cheia de incertezas, que o fizeram ser uma pessoa muito adaptável a mudanças, Yuri percebeu que podia ir longe com os estudos e mudar sua realidade. “Conheci o United World Colleges (UWC), programa global que dá bolsas de estudo do Ensino Médio em diferentes países. Não fui aprovado, mas enxerguei a oportunidade de estudar fora como uma forma de construir um futuro diferente”, conta. A vontade de vencer fez com que se destacasse como um dos melhores alunos da classe e o encorajou a até desenvolver projetos para ajudar outros jovens.

Um deles é o Projeto CID, que tem como objetivo reduzir a evasão escolar através de palestras, parcerias e tutoria acadêmica. “Eu sou o único da minha família que conseguiu se formar no Ensino Médio e isso tem uma importância muito grande para mim. Muitas pessoas com condições ou vivências semelhantes às minhas não conseguem, então quero apoiá-las, mostrar que elas também conseguem”, explica.

Yuri percebeu que podia ir longe com os estudos e mudar sua realidade – criando dois projetos sociais no caminho (Foto: Divulgação)

A iniciativa o ajudou a ser um dos 6% de candidatos aprovados no programa global Watson Semester Accelerator, do Instituto Watson, que busca formar uma nova geração de jovens empreendedores. Em agosto de 2019, ele teve, então, a oportunidade de passar cinco semanas em Boulder, no Colorado (Estados Unidos), com todos os gastos cobertos. Com o inglês que aprendeu estudando sozinho, ele pode desenvolver habilidades com aulas como estruturação de projetos, angariação de fundos, definição de proposta de negócios, manutenção de projetos saudáveis, evasão escolar e saúde mental.

Na volta ao Brasil, a Secretaria de Desenvolvimento Social da Prefeitura de Juiz de Fora viu o potencial de Yuri e passou a convidá-lo a visitar abrigos e colégios para promover palestras e inspirar outros adolescentes. Nascia, assim, o Projeto Segunda Chance, com o qual presta mentoria e realiza círculos de discussão e workshops. “Eu só conquistei tudo isso porque tive ajuda de muitas pessoas que acreditaram em mim, então é uma forma de retribuir, a oportunidade de ser um espelho para pessoas como eu”, diz.

Universidade no Estados Unidos

Paralelamente, Yuri buscava realizar o sonho de estudar fora e se inscreveu para universidades americanas que dão subsídio, mas não teve sucesso, no entanto, não desistiu por aí, recebendo ajuda da Crimson. “No ano passado eu fui agraciado com uma bolsa de mérito que eles oferecem para alunos que estão no último ano do ensino médio ou em ‘gap year’ (ano tirado para viajar ou trabalhar depois da escola e antes da faculdade). E eu tive todo o suporte para aplicar para as universidades americanas. Me preparar para as provas foi um pouquinho mais difícil do que o habitual, porque estudei em escola pública e não tinha uma preparação para provas padronizadas como SAT, SAT Subjects e TOEFL”, conta.

Depois que descobriu que tinha passado e iria estudar no exterior, Yuri conta que receber a aprovação veio junto de um sentimento muito bom. “Eu tenho pra mim que minha vida teve duas grandes viradas: quando fui para o abrigo, para a Aldeia – onde, como eu disse anteriormente, eu tive muitas oportunidades – e agora, quando recebi aquele e-mail falando sobre a minha aprovação. Foi um dos melhores dias da minha vida!”, conclui.

Depois que descobriu que tinha passado e iria estudar no exterior, Yuri conta que receber a aprovação veio junto de um sentimento muito bom (Foto: Divulgação)

Yuri garante que no futuro vai continuar querendo trabalhar com os dois projetos que desenvolveu e deixa recado para outras crianças que estão passando pelo mesmo que ele passou na infância: “Acreditem em si mesmas e nos sonhos que vocês têm. Por mais que apareçam pessoas dizendo que vocês não são capazes, o que importa é o que vocês querem – a opinião dos outros não importa. Continuem correndo atrás dos seus sonhos e sempre sonhem, porque o sonho é um combustível que nos move, nos deixa vivos. Através dos sonhos nós vamos colocando e metas e através das metas a gente vai alcançando os nossos objetivos”.