Luca: diretor da animação da Disney Pixar resgata momentos da própria infância para criar filme

Com estreia para 18 de junho no Disney+, próxima sexta-feira, a nova animação da Pixar conta a história de Luca, um monstro marinho que decide se aventurar na superfície e descobre o verdadeiro valor da amizade com Alberto. A trama, inspirada na infância de Enrico Casarosa, diretor de animação, tem tudo para conquistar os corações das famílias

Resumo da Notícia

  • A nova animação da Disney Pixar, Luca, estreia no Disney+ nesta sexta-feira, 18 de junho
  • Luca conta a história de dois monstros marinhos que decidem sair do mar da Riviera Italiana para se aventurar na superfície de Portorosso
  • Lá, eles passam por vários desafios e descobrem o verdadeiro valor da amizade
  • Enrico Casarosa, diretor de animação do filme, contou durante uma masterclass que a Pais&Filhos participou que sua infância foi inspiração para o longa-metragem
  • Veja mais detalhes da animação que tem tudo para conquistar os corações das famílias

Logo no início de Luca, nova produção da Disney Pixar, somos transportados para a Riviera Italiana – e, mais especificamente, para o fundo do mar. A animação apresenta um mundo fantástico em que monstros marinhos existem secretamente, em paralelo à superfície, onde vivem os humanos. O longa estreia em 18 de junho, sexta-feira, no Disney+ e a gente te conta todos os motivos para assistir e se emocionar em família com o filme do momento.

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Luca é o personagem principal da trama, uma criança-monstro marinho que vive com a família em uma gruta. Seu olhar infantil faz com que o mundo fora d’água desperte curiosidade e o desejo de conhecer a superfície – uma vontade completamente vetada pelos pais, Daniela e Lorenzo, que temem as pessoas e o que pode acontecer com o filho caso sua identidade seja descoberta.

Mas, assim como na vida real, o que é proibido acaba se tornando mais tentador. Para realizar o sonho de conhecer a terra, Luca conta com a ajuda (ou melhor, a insistência) de Alberto, um monstro marinho que tem o costume de passar horas a fio do dia na superfície. Apesar de os primeiros momentos serem assustadores, o novo amigo faz com que Luca se sinta mais confiante fora d’água: ele aprende a andar, fazer os mesmos gestos que as pessoas e se debruça na criação de uma Vespa improvisada.

Luca, Alberto e a Vespa, grande paixão dos amigos (Foto: Divulgação Disney Pixar)

A aventura começa para valer quando o personagem principal é enfrentado pela mãe após descobrir que o filho tem passado boa parte do tempo brincando na terra. É nesse momento que Luca foge com a ajuda de Alberto e os dois se infiltram em Portorosso, uma cidadezinha litorânea cuja principal lenda (e tradição) é a caça aos monstros marinhos.

Os dois amigos passam por uma série de desafios e ganham uma mão de Giulia, uma menina de coração bom e sede por aventuras que todos os anos tenta a sorte em um campeonato “Triathlon” na cidade. Com a ajuda dela e de seu pai, Luca e Alberto descobrem o valor da amizade e saem completamente da zona de conforto – tudo isso em um cenário fantástico inspirado no litoral da Itália dos anos 1950 a 1960, cheio de referências e detalhes que te transportam verdadeiramente para o local do filme – não se assuste caso você termine a animação com o desejo de fazer as malas e viajar, ok?

Memórias da infância

Não à toa, o universo cinematográfico de Luca é muito mágico: Enrico Casarosa, pai de uma menina de 13 anos e diretor de animação do filme, construiu o universo do longa baseado principalmente em suas memórias de infância. O cineasta nasceu e cresceu em Gênova, na Itália, na década de 1970 e passou grande parte de sua vida como criança aproveitando os verões com os amigos nas praias de Ligúria. “É um lugar único. Parece estar parado no tempo”, relembra Enrico durante uma masterclass da qual a Pais&Filhos participou. Para ele, a produção do filme foi uma verdadeira volta ao tempo embalada pelo mar azul, pelas Vespas e, é claro, pela macarronada italiana.

O principal desejo de Casarosa era conseguir transmitir para o cenário da animação a mesma fantasia e espectro mágico que o diretor enxergava na região durante a infância. “É o ponto de vista de uma criança. A maneira como elas enxergam o mundo é muito diferente de como os adultos veem. Isso transforma tudo e faz com que as coisas sejam mais expressivas, dá mais energia para a animação”, conta.

Alberto (esq) e Luca (dir) viram melhores amigos e vivem grandes aventuras (Foto: Divulgação Disney Pixar)

Para conseguir colocar seu sonho no papel, foi preciso muita pesquisa de campo – mas não pense que isso foi um desafio! “Foi muito difícil (risos). Levamos o time para a Itália, provamos todos os sorvetes, comemos muita massa, assistimos todos os filmes clássicos”, brinca. Tudo isso para trazer um espírito italiano para a animação: até os tão famosos gestos foram estudados para serem reproduzidos no filme. Spoiler: deu tão certo que a nova produção da Pixar foi totalmente aprovada pelos italianos!

Baseado em fatos (quase totalmente) reais

“Eu não queria deixar a produção do filme somente para as minhas memórias”, explica a decisão de fazer uma pesquisa tão aprofundada. Além da pesquisa de campo, o diretor teve a ajuda especial do melhor amigo e de suas lembranças: Alberto, o personagem destemido e que tira Luca de sua zona de conforto, existe na vida real. Enrico baseou a relação dos dois em sua própria, o que traz para o filme uma mágica ainda maior.

A ideia de produzir um filme cujos personagens principais são monstros marinhos também veio da própria infância. As lendas locais são memórias muito presentes na vida do diretor e na Riviera Italiana. A representação dessas criaturas em desenhos, mapas e casas, juntamente com o medo do desconhecido (tão aterrorizante quanto instigante) ajudaram Casarosa a ter o insight: “E se houvesse uma comunidade de monstros marinhos? Se não soubéssemos de sua existência porque, quando saem da água, eles se transformam em seres humanos para se disfarçarem? Foi aí que surgiu a ideia e conceito do filme”, explica. “Eu cresci no mar e sempre me senti meio peixe. Acho que é por isso a história do peixe fora d’água”, brinca.

O diretor do filme se inspirou em sua própria infância para construir o universo de Luca (Foto: Divulgação Disney Pixar)

O valor da amizade

Foi a ausência de diálogo com os pais – falar sobre a terra não só é perigoso como terminantemente proibido – que impulsiona Luca a fugir de casa junto de Alberto, uma criança-monstro destemida e, aos olhos do personagem principal, muito “cool” para a idade. Todo mundo já sentiu isso em relação a algum amigo, não dá para negar.

O ponto entre a amizade de Luca e Alberto, para Enrico Casarosa, é muito mais do que o incentivo às aventuras: o diretor de animação quis mostrar, com o entrelace das histórias dos dois, o poder transformador da amizade – tudo isso baseado em sua relação na vida real com o Alberto-humano da infância do cineasta. “Eu era uma criança muito tímida, e ele, um ‘troublemaker’. Me tirou da zona de conforto, me empurrou literal e figurativamente de penhascos”, relembra. É sobre isso que o filme fala: amizades que nos fazem crescer e nos encontrar com nós mesmos, que nos mudam de dentro para fora.

Para construir a imagem e relação perfeitas de Luca e Alberto, o time cinematográfico de Casarosa teve outra missão além de provar sorvetes deliciosos: cada um deles contou sobre suas amizades na infância, as pessoas especiais com as quais compartilharam os primeiros anos de vida. Adivinha? Todo mundo, em algum momento, era o Luca ou Alberto da relação. E todos foram transformados por essas pessoas, exatamente da maneira como Enrico.

Alberto e Luca em Portorosso, onde há uma grande crença em monstros marinhos (Foto: Divulgação Disney Pixar)

Hora de colocar a mão na massa – de casa

Grande parte do trabalho de Enrico e sua equipe foi feito em casa. O cineasta considera isso como uma via de mão dupla: da mesma maneira que o trabalho remoto não foi fácil, ele trouxe também grandes oportunidades. “O isolamento social nos permitiu encontrar colaboradores por meio da internet, então trabalhamos com artistas italianos pelo Zoom”, conta.

Trabalhar de casa é isso: lidar com as demandas dos filhos em tempo real (e integral), animais de estimação pedindo por atenção e todas as coisas que acontecem simultaneamente na casa. “O home office desde março de 2020 é uma loucura. Durante as gravações, conhecemos muitos membros das famílias da equipe, gatos. Não sabíamos se conseguiríamos fazer isso, produzir um filme de animação de casa. Mas conseguimos encontrar soluções para os problemas. Foi um trabalho muito duro, mas nós tivemos um resultado incrível”, celebra Casarosa.

Outra situação complicada – e que ganhou soluções criativas! – foi gravar com os atores. Jacob Tremblay é Luca, Jack Dylan Grazer deu vida a Alberto e Emma Berman interpreta Giulia na animação. A necessidade de gravar as vozes dos personagens fez com que cada um encontrasse um cômodo do lar para trabalhar. Para Dylan, esse lugar foi o closet de sua mãe, enquanto Emma fez todo o trabalho dentro do banheiro.

Sabe a frase mais falada desde o início da pandemia, “seu microfone está fechado”? Pois é, ela também foi dita – e muito! – durante a montagem de Luca. Falando em gravações à distância, até a música do longa-metragem foi produzida separadamente. Os instrumentos foram gravados separadamente uns dos outros, para então serem unidos com a equipe de edição.

Giulia, Luca e Alberto se unem e vivem momentos inesquecíveis juntos (Foto: Divulgação Disney Pixar)

Silenzio, Bruno!

É claro que ela também apareceu em alguns momentos: a Síndrome do Impostor (achou que ela era exclusividade de não-cineastas?).  Aquela voz que parece vir do fundo da sua consciência para te alertar sobre perigos nem tão próximos assim e nos fazer desistir de tomar atitudes fora do habitual foi chamada de Bruno. Para lidar com o intruso, Alberto tem uma técnica um pouco diferente, duvidosa e não tão funcional assim, mas vamos lá: quem consegue lidar com o próprio Bruno de maneira madura 100% do tempo? Um grito do fundo da alma dizendo “silenzio, Bruno!”.

Casarosa explica a brincadeira: “O Bruno não vai embora, nós precisamos lidar com ele”. A ideia não é fugir da voz da consciência, mas aprender a conviver com ela de maneira saudável. Como? Com a amizade, que mais uma vez se mostra poderosa e transformadora: “Precisamos nos rodear de pessoas positivas e que falam que podemos fazer qualquer coisa juntos”.

“A Síndrome do Impostor é muito familiar para mim”, conta Enrico. “Ela aparece quando você sente medo de executar uma coisa difícil, é uma voz que diz ‘o que é que você está fazendo?!’”. Apesar de ser uma realidade, duvidar de si mesmo não pode ser algo que te faça desistir dos seus sonhos. “Se nós não arriscamos, erramos, caímos e levantamos para tentar de novo, não aprendemos. Não temos a chance de crescer”.

A lição que Casarosa quer passar é: se der medo, vai com medo mesmo! “Fui sortudo por ter um time que acreditou no projeto e finalizou o filme mesmo passando pelas dificuldades impostas pela pandemia”, comemora. “Não tem um momento mais feliz para um diretor de animação do que quando você vê seu personagem ganhando vida”.

Jornada de aceitação

A jornada de Luca e Alberto na superfície mostra a importância da amizade, da família e, acima de tudo, do respeito. “Toda a trajetória deles diz sobre abraçar suas ‘imperfeições’, as coisas que faziam ele sentir vergonha de si mesmo. É como se ele falasse ‘esse sou eu, é pegar ou largar’. Nem todas as pessoas vão te amar e te aceitar como você é, mas amigos são as pessoas que realmente te enxergam. Cerque-se de pessoas que te amam”, finaliza Casarosa.

Alberto e Luca em seu habitat (e aparência) natural (Foto: Divulgação Disney Pixar)