Mãe acusa colégio de expulsar filho que tinha bolsa por ser gay e pobre: “Estou desesperada”

Uma mãe está acusando o Colégio Batista Brasileiro de expulsar o filho por discriminação, mas a escola nega que tenha havido preconceito

Resumo da Notícia

  • A mãe de um adolescente está acusando o colégio em que ele estudava de discriminação
  • Ela diz que o filho foi expulso porque ele é gay e pobre
  • A escola nega as acusações e conta outra versão da história

A mãe de um adolescente de 14 anos está acusando o Colégio Batista Brasileiro, uma das escolas mais tradicionais de Perdizes, na zona oeste de São Paulo. A mulher alega que o filho foi expulso porque ele é gay, de origem pobre, tinha bolsa integral e não pagava mensalidade.

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O colégio nega que houve preconceito e afirma que o menino praticava bullying com outros alunos e que ele era indisciplinado. Hoje em dia, a expulsão só é permitida em casos excepcionais, e segundo a mãe, ela foi coagida pela direção da escola a assinar um documento que confirmava o pedido de transferência do filho.

Mãe acusa colégio de expulsar filho que tinha bolsa por ser gay e pobre: "Estou desesperada"
Mãe acusa colégio de expulsar filho que tinha bolsa por ser gay e pobre: “Estou desesperada” (Foto: Istock)

O menino entrou no Colégio Batista aos 8 anos por meio de uma bolsa concedida a famílias pobres que frequentavam a igreja evangélica ligada à escola. A mãe trabalha como empregada doméstica e cria o adolescente sozinho. Segundo a escola, o garoto era um ótimo aluno e tirava boas notas, mas vinha se envolvendo em discussões. Após uma briga com uma menina na porta do colégio, a direção pediu a transferência compulsória do estudante.

O Ministério Público Estadual recebeu a denúncia na última segunda-feira, dia 9 de maio e já iniciou a apuração do caso. Segundo o promotor João Paulo Faustinoni, secretário do Grupo de Atuação Especial em Educação (GEDUC), é necessário investigar se a mãe teve alguma alternativa ou se foi constrangida a aceitar a transferência.

O adolescente tentou se suicidar e está sem estudar no momento. A mãe diz que está “desesperada” porque não tem como pagar uma escola particular e o filho se recusa a ser transferido para uma pública. “É uma bagunça. E estão muito atrasados por causa da pandemia. Foi uma injustiça o que fizeram comigo, não sei mais o que fazer”, diz o menino.

A diretora pedagógica do Colégio Batista, Selma Guedes, declarou: “Ele já tinha sido suspenso, fizemos um termo de compromisso na presença da mãe, mas não mudava de atitude, continuava muito agressivo.” Ela ainda disse que o menino “enfrentava professores, trazia discussões para a sala, debochava e fazia pouco caso da professora de Artes e ainda ameaçou fisicamente uma aluna.”

A mãe e o filho negam e dizem que a colega se recusava a estar na mesma sala que ele e o provocava. A direção também chamou a atenção do aluno quando ele enviou uma menagem em que estava escrito “fora Bolsonaro” em um grupo de WhatsApp não relacionado a escola.

“Em uma reunião perguntaram se ele ainda estava de cabelo pintado, se continuava com a ideia de ser gay. O tempo todo diziam para ele na escola que era para se comportar porque senão perderia a bolsa”, afirmou a mãe. A diretora disse que não houve preconceito e que o menino nunca contou abertamente que era homossexual.

O Colégio Batista Brasileiro explica os princípios da instituição no site: “Por crermos que o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus, posicionamo-nos contra qualquer tipo de discriminação baseda em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de cor, de etnia ou outras caractarísticas indidivuais e sociais.”

Após uma suspensão no início do ano por ter desrespeitado um professor, a escola decidiu que o menino iria assistir as aulas de casa, online. Segundo a diretora Selma, eles acharam que isso causaria uma mudança de comportamento.  O aluno contou que foi impedido até de abrir o microfone nas aulas, o que a diretora afirma que não é verdade. Em abril, ele voltou a ir na escola presencialmente para fazer provas e então, aconteceu a discussão que fez o aluno ser transferido.

A mãe foi chamada na escola e comunicada. “Me disseram que meu filho não poderia participar de nenhum concurso público nem prestar Enem (o Exame Nacional do Ensino Médio, que dá acesso a universidade), entrar para o Exército porque a mãe da menina nos processaria”, disse ela. Selma negou que houve coação e diz que na época, a mãe concordou que era melhor para o filho sair da escola. No documento está escrito que o aluno “requereu a sua transferência para estabelecimento congênere”.

O Estadão conversou com mães e pais da escola, cujos filhos são amigos do menino expulso, e outros que já tiraram os filhos do Batista. “Minha filha conta que ele era perseguido pela menina, brigaram e só ele foi punido. A escola vê o homossexual como anormal”, disse uma mãe. Outra contou ao jornal que tirou os filhos da escola por considerar a direção “preconceituosa”.

Depois que o Estadão procurou o Batista para eles darem a versão deles sobre o caso, a escola divulgou um comunicado aos pais dizendo que “foi obrigado a tomar medidas de caráter disciplinar em relação a um de seus alunos diante de seu continuado mau comportamento” e que ele cometeu “inaceitáveis atitudes”. O texto é concluído: “após longo tempo de tentativas pedagógicas e disciplinares sem nenhum resultado, o Conselho Educacional do Colégio (…) decidiu por promover transferência por medida cautelar do referido aluno”.