Mãe cria carreta para andar de bicicleta com o filho cadeirante: “Mudou minha visão de mundo”

Carolina Vieira Liberatti é designer de produtos e, quando o filho nasceu, decidiu projetar para ele uma bicicleta que o proporcionasse um passeio ao ar livre

Resumo da Notícia

  • Carolina Vieira Liberatti tem 33 anos e é mãe de Gabriel, que possui paralisia cerebral, epilepsia de difícil controle e é cadeirante
  • A mãe, que também é designer de produtos, decidiu projetar para o menino uma carreta que facilitasse o passeio de bicicleta dos dois ao ar livre
  • A iniciativa contou com o apoio de grandes empresas e não teve custo nenhum para Carolina

Carolina Vieira Liberatti têm 33 anos, é designer de projetos e mãe do pequeno Gabriel – que possui paralisia cerebral, epilepsia de difícil controle e é cadeirante. Dessa maneira, contou em depoimento à Uol que usou de seu conhecimento na área de produtos para desenhar para o filho uma carreta que pudesse auxiliar os passeios ao ar livre da família – e o projeto ganhou tanto apoio que Carolina não custeou em nada a sua produção.

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Inicialmente, a mãe conta que a inspiração veio da própria infância: “Sempre gostei de andar de bicicleta com meu pai aos finais de semana. Quando fiquei noiva do Rogério, hoje meu marido, me mudei para Santos e, juntos, aproveitávamos para passear pela extensa ciclofaixa da orla. Nosso filho Gabriel nasceu e, por ser cadeirante, eu precisava encontrar alguma solução para que ele tivesse essa vivência ao ar livre. Foi então que eu projetei uma carretinha”.

A partir disso, começou a pesquisar alternativas para tirar o projeto do papel, e o resultado das buscas começou a surpreender, “Minha maior motivação era o desejo de poder proporcionar ao nosso filho essa experiência ao ar livre. Entretanto, descobri que quase não há produtos desenvolvidos para inserir esse público em atividades cotidianas à venda no mercado”. Contudo, Carolina não desistiu, “Pesquisando no Pinterest, cheguei ao blog da Ann Peart, um mãe norte-americana que adaptou um triciclo para fixar a cadeira de rodas do filho a bicicleta dela. Inspirada pelo que vi, fiz um projeto preliminar em 3D para explicar minha ideia, planejando encontrar alguém que pudesse construir uma carretinha que suportasse a cadeira de rodas do Gabriel, com segurança”.

Carolina encontrou uma história similar através do Pinterest para criar o projeto do filho (Getty Images)

A partir daí, a ideia deslanchou e começou a se concretizar: “Tirei as medidas da cadeira de rodas e da minha bicicleta. No software 3D, desenhei as primeiras ideias e fui pedir ajuda nas bicicletarias da cidade, mas me diziam que nunca tinham visto algo assim para ser usado com cadeira de rodas e que eu deveria procurar serralheiros e torneiros mecânicos”.

A procura seguia constante e sem sucesso, até que o marido de Carolina, Rogério, decidiu que era a hora de mudar de estratégia – ideia que foi definitiva na hora de ajudar o pequeno Gabriel: “Ele sugeriu procurar quem trabalhava com carretas para carro e moto. Foi nessa pesquisa que encontrei o Shopping das Carretas, em São Paulo. O Leandro, do Shopping das Carretas, não conseguia nos ajudar, mas compartilhou meu projeto em um grupo de WhatsApp de fabricantes de carretas do Brasil inteiro, no início de dezembro passado. Aí entrou na história a SCX, uma empresa de Ananindeua, no Pará.”.

A empresa SCX foi responsável por financiar todo o projeto junto de outras empresas – incluindo os custos com material, frete e montagem – e a carreta foi nada menos do que o presente de Natal do Gabriel! Carolina conta que o carinho fornecido por uma empresa tão distante de Santos, cidade onde a família mora, foi incrível: “Nossa família não pôde conter a emoção em saber que um grupo de pessoas que não nos conhecia dedicou atenção, tempo e recursos para realizar nosso sonho”. Você pode conferir o resultado final do projeto clicando aqui!

A vida de Gabriel

Em 2018, um ano após o casamento de Carolina e Rogério, Gabriel veio ao mundo. A mãe conta que a gravidez seguia tranquila, até a notícia de que tinha muito líquido na bolsa – o que exigiu a atencipação do nascimento do menino: “ Eu estava na Universidade Anhembi Morumbi quando entrei em trabalho de parto. Fui de ambulância para o Hospital São Luiz. Chegando lá, meu bebê veio ao mundo em 10 minutos, de parto normal”. Porém, a facilidade do parto não denunciava as futuras complicações do bebê, “Com o passar dos dias, ele enfrentou diversos desafios, como um sangramento cerebral. Foi um período muito difícil. Como dizem, UTI neonatal é uma montanha-russa: tem dias que você recebe boas notícias, em outros dias, nem tanto. Ficamos, no total, três meses e meio no hospital”, relata.

Atualmente, o casal adaptou a vida para o bem-estar do filho – e a carreta é uma das principais ferramentas para assegurar isso. Por causa da pandemia, Carolina não tem tido a oportunidade de se aventurar com o filho, mas conta que o transporta funciona muito bem!

Ainda acho que tem muitas questões de projeto a serem melhoradas, mas já é um começo”, contou. E ainda desabafa, “Infelizmente, a maioria dos produtos destinados aos deficientes são caros, feios ou ainda nem foram desenvolvidos. Por isso, quero desenvolver muitas coisas para ajudar nosso dia a dia”.

Carolina conta que o filho foi essencial na vida dela, principalmente pela mudança de visão de mundo que proporcionou. Agora, pretende seguir ajudando pessoas – alimentando uma grande corrente do bem – e já começou os trabalhos: a mãe, para além da rotina, também fornece ajuda voluntária em design 3D ao projeto de inclusão social Santos às Cegas, do professor Renato Frosch.