Mãe dá à luz com 27 semanas de gestação e desabafa sobre UTI neonatal: “Beira o céu e o inferno”

Adriana Veronez, de 36 anos, engravidou de gêmeos após fazer uma fertilização in vitro. A gravidez, porém, foi considerada de alto risco pelos médicos devido a condição de placenta prévia e insuficiência istmocervical da jornalista

Resumo da Notícia

  • Adriana e Leonardo Veronez são pais de Sabrina e Davi
  • A gestação da jornalista durou 27 semanas e os bebês precisaram ficar na UTIneonatal
  • A mãe sofria com placenta prévia e insuficiência istmocervical (IIC)
  • Sabrina recebeu alta após 104 dias de internação; Davi não sobreviveu

Um dia a mais na barriga é equivalente a menos três dentro da incubadora, conta Adriana Veronez. No caso da filha, Sabrina, foram 104 dias de internação. A jornalista e o marido, Leonardo, esperavam por gêmeos quando receberam o diagnóstico de que a mãe sofria com placenta prévia e insuficiência istmocervical (IIC), ambas condições que fizeram a gravidez ser considerada de alto risco. O parto de 48 horas acabou acontecendo com apenas 27 semanas de gestação.

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Sabrina nasceu após 27 semanas de gestação (Foto: Arquivo Pessoal)

O sonho da maternidade para Adriana era antigo, mas demorou para acontecer. Depois de anos de tentativas fracassadas, ela e Leonardo buscaram especialistas em reprodução. “Fizemos muitos exames para investigar o porquê a gravidez não acontecia e sempre nos diziam que estava tudo bem, que nos encaixávamos nas estatísticas dos 10% dos casais que não conseguiam por alguma razão desconhecida”, diz ela.

A decisão de realizar uma fertilização in vitro também não veio fácil. Adriana levou em consideração a religião, consultou mãe e até um padre antes de tomar alguma decisão, afinal, não era a concepção “natural” que ela havia imaginado. “Após a primeira consulta com o Dr. Edward Carrilho, em setembro de 2018, ele me disse algo que fez muito sentido e me ajudou a tomar a decisão. ‘Adriana, ainda que a ciência esteja evoluída e, sim, geramos vida todos os dias, se Deus não colocar a mão, o milagre não acontece’”, conta. E aconteceu!

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Adriana e Leonardo são pais de Sabrina (Foto: Karim Scharf /Arquivo Pessoal)

A notícia da gravidez veio em um dia mais que especial: o aniversário de 35 anos de Adriana. “Resolvemos fazer uma festinha para poucas pessoas no salão do meu prédio. O resultado do exame já estava liberado, mas eu não queria. Eu enrolava os brigadeiros, e combinei com meu marido que não queria saber até cantar o “parabéns”, não queria me aborrecer e ficar triste bem naquele dia. Estava muito feliz. Às 19h30, já em casa, meu marido me disse que eu estava grávida! Não lembro o que senti na hora, parece que fiquei anestesiada, foram muitos anos de espera!”, diz. O presente também era em dose dupla: ela estava esperando por gêmeos, a Sabrina e o Davi.

Mas os desafios estavam apenas começando. A luta da concepção foi a primeira e a mais simples das que esperavam a jornalista e o marido. Na sexta semana de gestação veio o primeiro sangramento e, com ele, o diagnóstico de placenta prévia. A complicação é causada quando a placenta se posiciona na parte inferior do útero, cobrindo o colo. A deformação afeta apenas 3 a cada 1000 grávidas – mas Adriana não escapou das estatísticas mínimas. Pouco tempo depois, veio a segunda notícia: ela também sofria de insuficiência istmocervical, uma falha no sistema uterino que torna o órgão incapaz de suportar o peso do bebê, o que costuma causar abortos tardios e partos prematuros.

Sabrina ficou 104 dias internada (Foto: Arquivo Pessoal)

Por fim, uma infecção urinária acabou tornando o parto normal inevitável e a cesária de emergência aconteceu no dia 29 de abril de 2019, na 27º semana da gestação. Foram 48 horas de contrações e espera até que os dois bebês nascessem. Ela nasceu primeiro, às 7h30, com 800 gramas. Ele, às 7h32, com 730 gramas. Os irmãos foram levados rapidamente para a encubadora, mas tiveram destinos diferentes. Com uma complicação no coração e uma restrição de crescimento já prevista em exames, Davi não resistiu e se foi às 15h45 do mesmo dia.

“O Davi foi uma criança muito querida e aguardada por nós, assim como a Sabrina. Ele estava na bolsa de cima, e ela, na de baixo. Eu conversava muito com ele, pois achava que ele me ouvia melhor por estar mais próximo de mim. Eu cantava pra ele no chuveiro, brincava na hora do banho, perguntava se ele estava bem (…). Ele adorava sorvete de milho, eu sentia isso. Ele estava mais próximo dos batimentos do meu coração”, conta Adriana.

Os pais se mudaram para a frente do hospital (Foto: Arquivo Pessoal)

Entre o céu e o inferno

Com Sabrina, vieram os dias na UTIneonatal, a rotina no banco de leite, a série de exames diários e a apreensão da família. Os pais se mudaram para a frente do hospital para ficarem mais próximos da filha nos mais de 100 dias de internação. Durante esse período, a pequena sofreu com várias complicações típicas dos prematuros extremos, como leucomálacia periventricular – uma forma de lesão cerebral -, hipertrofia ventricular no coração, sepretinopatia da prematuridade, que ocorre com o crescimento desordenado dos vasos sanguíneos da retina, e septicemia ou infecção generalizada, que ela contraiu com quase um mês de vida.

A pequena já completou 1 ano (Foto: Arquivo Pessoal)

A amamentação acontecia de três em três horas, das 7h30 até as 23h. Nessa rotina hospitalar, Adriana buscou apoio de outras mães que estavam ali passando pela mesma situação e elas acabaram criando um grupo no WhatsApp que ajuda mulheres até hoje: o “Mães de Pequenos”. “É um verdadeiro calvário a passagem por uma UTIneo, só sabe quem passa. É uma experiência que beira o céu e o inferno. Meu marido me apoiou muito nessa fase, e depois no pós-alta, e isso foi fundamental. Era só ele e eu ali”, conta.

Novos dias

Levar a filha para casa depois de tantas dificuldades deu aquela sensação de “dever comprido” para a família. Adriana conta que foi ali que ela passou a sentir que era dona da filha, onde realmente nasceu uma mãe. “É nesse momento que a mãe realmente nasce, porque até então, você não se sente de verdade. Você se sente coadjuvante e não a atriz principal do elenco que é a maternidade”, conta. Agora, os dias ao lado da Sabrina tem sido “a melhor sensação do mundo” para os pais. “A alta é a chancela de pertencimento. É a confirmação de que você teve um filho de verdade mesmo. É seu!”, afirma.

E nasce uma mãe! (Foto: Karim Scharf / Arquivo Pessoal)

A gestação que começou meses antes da concepção e só acabou após a alta da UTI fez Adriana e Sabrina se conectarem ainda mais. Hoje, os desejos da mãe para a filha só podem ser os melhores: “Quero ela se orgulhe de tudo que passou, que olhe para a história dela não com autopiedade, mas que perceba o quanto foi forte e o quanto transformou os pais dela. Que com doçura ajude outras crianças na escola que, porventura, possam ter ficado com sequelas e dificuldades motoras, e que seja portadora da misericórdia para outras pessoas, assim como foi amparada e cuidada por tantas pessoas no hospital, por anjos de branco. Quando fazemos o bem e estendemos a mão sem olhar a quem, o mundo se abre e Deus reflete em nós. Que ela tenha orgulho do avô que teve, que não o conheceu, que carregava grãos de milho no bolso para dar aos pombos que não podiam voar. É dessa misericórdia que estou falando”, finaliza.

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