Mãe de criança trans e autista conta sobre transição da filha em relato

Fernanda Ramos Dorneles é mãe de três crianças portadoras do TEA e de uma menina transgênero: Maia, de 8 anos. Ela contou à Pais&Filhos a história emocionante do processo

Resumo da Notícia

  • Fernanda Ramos Dorneles é mãe de três crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de uma menina transgênero: Maia, de 8 anos.
  • Ela contou à Pais&Filhos a história emocionante da transição da filha
  • “Foi um momento tão mágico, tão lindo… aconteceu de um jeito muito natural”, ela disse sobre o processo

A maternidade é um eterno dançar conforme a música – poucas são as vezes em que se está no controle da situação e a melhor saída para imprevistos – ruins e bons – é ter jogo de cintura e aprender uma lição com aquele momento. Lição que, muito provavelmente, será o filho que vai ensinar para os pais.

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Fernanda Ramos Dorneles, de 39 anos, é uma das mulheres que todos os dias aprende com os filhos. Estudante de direito, ela é mãe de três crianças portadoras do Transtorno do Espectro Autista (TEA) e de uma menina transgênero: Maia, de 8 anos, que é irmã de Sofia (9) e Matias (5).

Fernanda é mãe de Sofia, Maia e Matias (Foto: Reprodução Arquivo Pessoal)

Diferente de muitas histórias que ouvimos por aí quando o assunto é um filho se assumir trans para a família, a transição de Maia aconteceu de uma maneira leve, natural e cheia de respeito. “Maia sempre teve preferência por coisas ‘femininas’, mas não tínhamos muito entendimento e por vezes pensamos que seria gay”, contou Fernanda, em entrevista exclusiva para a Pais&Filhos. A história da menina começa a ganhar um novo rumo em dezembro de 2019, quando os pedidos por usar esmaltes, batom e acessórios no cabelo se intensificaram. Foi assim que a filha do meio de Fernanda se mostrou transgênero: “Ela nos disse: ‘Sou menina e meu nome é Maia’”.

De frente para a realidade

A maneira como os pais decidem lidar com situações não esperadas faz toda a diferença. Preocupada em entender a filha, Fernanda foi atrás de profissionais para conhecer mais sobre o assunto e saber como ajudar Maia da melhor forma, “sem estimular nada, mas também sem reprimir”. Um caminho livre para que a menina pudesse fazer suas próprias escolhas com base no que acreditava ser a decisão que a tornaria mais feliz.

Foi durante a quarentena em 2020 que a criança começou a sentir mais confiança e se soltar mais. Um dia chamou Fernanda para conversar. Papo sério, vulnerável e cheio de maturidade para uma criança de 8 anos. Disse para a mãe que gostava de tudo que era ‘para meninas’, mas pedia coisas ‘de menino’ porque ela tem ‘pintinho’ e, então, deveria pedir coisas de menino. “Respondi que ela deveria esquecer essa coisa de menino e de menina, tudo foi feito para todos”, contou. “Ela deveria seguir o coração dela, a única coisa que eu e o pai sempre vamos querer é a felicidade dela. Se ela estivesse feliz, também estaríamos”.

Identificação

Para mostrar que entendia o processo pelo qual a filha estava passando e que ela não era a única no mundo, Fernanda mostrou para Maia fotos de Thammy Miranda, homem trans. “Disse que ele nasceu menina, mas é, na verdade, um menino. Maia olhou, sorriu disse que ela era como ele, mas ao contrário”.

Fernanda conta que a filha foi dormir com brilho nos olhos: entendida, respeitada e acolhida. No dia seguinte, depois do café da manhã, pediu ajuda da mãe para se transformar em menina. “Foi um momento tão mágico, tão lindo… aconteceu de um jeito muito natural”. Fernanda, junto de Maia, mostrou algumas roupas de Sofia que não serviam mais na primogênita e contou que elas iriam para doação. “Pode doar para mim?”.

(Foto: Getty Images)

Transformação

Dona das roupas que agora vestiam sua identidade, Maia e Fernanda organizaram um desfile de moda para brincar e comemorar a passagem para a nova fase. “Desde aquele dia, a Maia é quem está entre nós”, disse. Hoje, ela já tem CPF e RG com o nome social, já foi ao dentista como Maia e faz acompanhamento com profissional no Ambulatório Identidade de Gênero (AmIG), em Porto Alegre. A luta da família agora é com a justiça, para trocar o gênero que consta na certidão de nascimento de Maia.

A transformação não foi só externa. Desde que Maia veio ao mundo, a criança está muito mais feliz. De aniversário, pediu para mãe bonecas da LOL, um brinquedo que ela sempre quis mas sempre acreditou que não poderia ter. “Nunca vimos ela tão feliz ganhando algo. Antes, ela só colecionava as pistas de Hot Wheels, nunca brincava. Agora ela brinca direto! Fez uma festa de aniversário com o tema LadyBug, vestida como a personagem e disse que foi a melhor festa da vida dela – isso que fomos somente nós aqui em casa, alguns convidados participando vitualmente”.

Lutando contra o preconceito

Fernanda concluiu que a melhor maneira de começar a lutar contra o preconceito que pode aparecer em algum momento é com a informação. O primeiro passo foi ligar para a escola em outubro de 2020 e marcar uma reunião para explicar toda a situação. Maia tem aula uma vez por semana com uma professora do AEE (Atendimento Educacional Especializado), uma chamada de vídeo que dura em torno de 30 minutos, e aula com a turma da escola de segunda à sexta-feira.

A professora do AEE, assim que soube de Maia, passou a chamá-la pelo pronome feminino e usar seu nome social. Entretanto, a professora da escola insistiu em usar masculino quando precisava se referir à menina. Outro episódio de preconceito aconteceu quando a mesma profissional deixou uma lembrancinha de final de ano para cada aluno – presentes diferentes para meninas e meninos – e deu à Maia um presente para meninos. Questionada sobre a atitude dela, a professora não soube responder. “Ela já havia sido avisada. As mães de outras crianças trans que conheço me disseram que isso é transfobia”, contou.

Fernanda teve uma conversa sobre a situação com a diretora do colégio, que disse que tomaria os devidos cuidados. “O único lugar que tenho medo é a escola. Uma professora empática traz pais e amigos para o nosso lado. Se ela não tiver empatia, joga todos contra. Rezo para ter alguém iluminada à frente da classe dela”, desabafou.

(Foto: Getty Images)

Respeitando as diferenças

Sofia, Maia e Matias estão dentro do espectro autista. Apesar de ser um grau leve e todos terem um ótimo desenvolvimento cognitivo, Fernanda conta que as crianças sempre passaram algum tipo de maldade e preconceito. Por causa disso, o respeito pela diversidade é a lição mais importante que os filhos aprendem em casa. “Ensino que ninguém é melhor que ninguém, todos devem respeitar a todos. Quando a gente respeita, é possível cobrar respeito”. Ela incentiva a comunicação entre as crianças e sempre lembra os filhos que, se alguém fizer ou falar algo que os chateie, eles têm caminho aberto para conversar com a mãe sobre isso.

Outro aliado para o respeito acontecer são as redes sociais. Em 2013, quando ainda tinha o diagnóstico apenas de Sofia, Fernanda usou o Facebook para criar um grupo para mães com filhos autistas e, logo depois, uma página chamada ‘Minha Anjinha Azul’. “Ainda existe muito tabu nesse meio. Muitas pessoas pensam que todo autista é severo, mas não é assim. Existem níveis e muitas crianças – como as minhas – têm dificuldade com a parte social, mas o cognitivo é maravilhoso. As pessoas ainda têm resistência e dificuldade para entender, sem rotular e generalizar”, explicou.

Fernanda explica que o TEA faz com que a família tenha alguns cuidados mais específicos, como com a alimentação e programação para ir a algum lugar. “Sei o que afeta cada um: som alto, tipos de cheiros, luz muito forte… não é trabalhoso lidar com isso porque todos nós sempre tomamos esses cuidados, faz parte da rotina. Pensamos sempre no bem-estar das crianças”.

(Foto: Getty Images)

Família é tudo

Maia foi bem recebida por todos em casa e a adaptação aconteceu de maneira muito natural. Sofia, por um período rápido, sentiu um pouco de ciúmes da irmã porque até então era a única menina da família, enquanto Matias ainda usou o pronome masculino para falar com Maia por alguns dias. “Mas ela dizia que não tinha problema, que o irmão podia fazer isso. Depois disso, as coisas fluíram e começaram a chamá-la de Maia, falar ‘irmã’ e por aí vai. Eles são muito carinhosos entre eles e se amam muito”, Fernanda contou.

“Família é tudo para mim. Amo além do infinito, tudo o que eu faço é pensado no bem-estar e na felicidade deles”, disse. Fernanda fez um curso de ABA (Applied Behavior Analysis, ou Análise do Comportamento Aplicada) e está sempre estudando para entender ainda mais os filhos e ajudá-los da melhor maneira possível.