“Meu pai deu meus três irmãos de presente para o governo da Coreia do Norte”

Yonghi Yang, uma cineasta coreana, contou a própria história nos seus filmes

Resumo da Notícia

  • Yonghi Yang, uma cineasta coreana, contou a própria história nos seus filmes
  • Os irmãos dela foram enviados pelos pais à Coreia do Norte
  • Hoje, ela diz que não entende os motivos muito bem, mas já desculpou os pais

Yonghi Yang, uma cineasta coreana, viveu boa parte da infância e adolescência no Japão. Ela e a família eram partes da  grande comunidade de emigrantes da Coreia do Norte que se estabeleceu a cidade de Osaka. A vida por lá, no entanto, não era tão fácil quanto imaginavam que seria. Foi então que a mistura do cansaço com a xenofobia que sofriam com questões políticas fez com que os pais dela tomassem a decisão de mandar os três filhos adolescentes para a Coreia do Norte no início dos anos 1970 como uma espécie de “presente de aniversário” ao então líder do país, Kim Il-Sung.

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Relato: "Meus irmãos foram enviados a Coreia do Norte como um presente para o líder do país"
Relato: “Meus irmãos foram enviados a Coreia do Norte como um presente para o líder do país” (Foto: Getty Images)

Quando os irmãos foram para lá, no entanto, Yonghi ficou com os pais no Japão. Hoje, a cineasta mostra um pouco dessa realidade que viveu nos filmes que produz. Em entrevista à BBC, ela contou um pouco da própria história e relembrou a decisão dos pais.

Yonghi começou dizendo que, no começo, achou que os irmãos estavam partindo para uma mera viagem. “No dia em que dois dos meus irmãos foram enviados para a Coreia do Norte como um presente para o líder do país, a princípio pensei que fosse uma viagem em família durante a qual todos íamos nos divertir. Nos vestimos com o traje tradicional. Morávamos em Osaka e naquele dia nossos pais nos disseram que íamos à praia. Quando chegamos ao porto, percebemos que havia muitas pessoas. Muitas. Nos passou pela cabeça que o píer ia desmoronar com o peso”, começou ela, relembrando.

“Lembro-me claramente de que um dos amigos dos meus irmãos me agarrou e me colocou nos ombros, para que pudesse apreciar tudo à minha volta. Milhares de pedaços de papel colorido caíram do céu. Era 1971 e eu tinha seis anos. Naquele dia, meus dois irmãos seriam enviados para a Coreia do Norte”, seguiu ela, descrevendo. “Então, percebi que eles estavam indo em uma viagem. O que não podia prever naquele dia é que não os veria de novo por muito tempo”.

A cineasta contou que os irmãos ainda eram adolescentes, um com 14 anos e outro com 16. “Lembro que houve uma festa de despedida na qual estavam meus irmãos, seus amigos, os vizinhos. Todos desejaram sorte e bom trabalho na Coreia do Norte. Fiquei triste, muito triste, mas não pude dizer nada porque os adultos se envolveram na música e na emoção da despedida”, seguiu, contando.

Relato: "Meus irmãos foram enviados a Coreia do Norte como um presente para o líder do país"
A cineasta falou sobre o assunto em entrevista à BBC (Foto: reprodução BBC)

Um ano depois, o outro irmão, então com 18 anos, também foi para o país. No relato, ela contou um pouco mais sobre a crença do pai na política coreana e como isso influenciou a vida dela. Hoje, ela já conseguiu conversar com os irmãos novamente, mas ainda não entende os motivos pelos pais terem os mandado para lá.

“Com meu pai, vivi outra história. No mesmo documentário, ele admitiu, muito discretamente, que não tinha ideia do que estava acontecendo na Coreia do Norte quando enviou seus filhos de presente. Que ele era muito jovem”, disse ela, sobre uma confissão que ouviu do pai enquanto fazia um documentário sobre a história.

“Mas apesar de tudo, minha mãe nunca me disse para parar o que estava fazendo. Ela sempre foi fã do meu trabalho. Na frente dos outros, continuou a ser a mesma. Mas, entre quatro paredes, me dizia para não importar se estivesse na Coreia do Sul ou na Coreia do Norte, o importante é que eu viva livremente. Ela morreu recentemente. E sinto que finalmente consegui perdoar tudo o que aconteceu em nossa família. Para isso tive que passar por muitos processos, mas finalmente descobri que tudo se resume a uma coisa muito simples: me perguntei o que teria feito no lugar dos meus pais, naquele momento. E com a informação que havia, que não é o que existe agora na era dos celulares e da internet. O que se sabia era muito pouco”, refletiu, passando a entender a decisão dos pais.

“Fiquei muito zangada por muito tempo. Me perguntando muitas coisas, “por que eles fizeram isso? Por que eles os mandaram para aquele lugar?”. Não tenho todas as respostas, mas finalmente consegui ficar em paz comigo mesma”, finalizou ela.