Família

“Minha filha me prova que não existe jeito certo ou errado de ser mãe”, relata Kareemi

Kareemi conta os desafios e a superação de ser mãe e cuidar de Gaia, após a perda do braço direito

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

(Foto: arquivo pessoal)

(Foto: arquivo pessoal)

No projeto “Lá em Casa é Assim”, parceria da revista Pais&Filhos com a Natura Mamãe e Bebê, estamos conhecendo famílias de todo o Brasil. A Kareemi nos enviou sua linda história contando os desafios da maternidade.

Ela é especialista em Desenvolvimento Humano e trabalha orientando mulheres a praticar a autoconfiança, amor próprio e autoestima. Tudo isso após perder o braço em um acidente de ônibus em 2012, e ver sua vida mudar – para melhor – como gosta de destacar. Seu processo de aceitação foi fácil e rápido, comparado ao desafio que encontrou ao ser mãe de Gaia, dois anos após o acidente.

No papel de mulher e mãe, Kareemi procura mostrar que as mulheres são capazes de enfrentar desafios maiores e atravessar momentos de vulnerabilidade, assim como ela. Vem conhecer essa história de superação:

“Pensar em ser mãe e ter uma família sempre passou bem longe dos meus planos. Até um fato muito transformador – mas aparentemente bem trágico – acontecer comigo e voltar totalmente a minha atenção para o meu corpo, para o fato de eu ser uma mulher e, assim, estar nos mais diversos sentidos conectada com coisas muito mágicas e uma natureza cíclica indescritível.

Há seis anos, eu era uma jornalista já bem cansada de tudo, pedindo uma mudança para a minha vida, que chegou através de um acidente no réveillon de 2012, onde quase perdi a vida e com muito custo sobrevivi. Mas sobrevivi sem meu braço direito. O processo de aceitação e readaptação foram rápidos, e alguns meses depois eu já trabalhava com desenvolvimento humano dando palestras motivacionais por todo o Brasil.

Foi numa dessas palestras, em 2014, que Emílio veio me cumprimentar e me chamou a atenção além do normal. Eu estava num processo de reconexão com o meu feminino, entendendo sobre meus ciclos, a influência da lua sobre eles e o poder de ser mulher. Estava me amando, amando meu corpo amputado. Logo viramos um casal superconectado com planos de voar pelo mundo juntos. A vontade de ser mãe chegou com força total, ele era louco para ser pai, e sete meses depois a nossa pequena Gaia já apontava no meu útero.

Durante a gestação nunca parei para pensar se poderia ter dificuldades para cuidar dela sem um dos braços. Emílio mudou completamente o trabalho dele e virou empreendedor digital para que pudéssemos cuidar da Gaia juntos, em casa. Então o medo de não conseguir cuidar dela em algum momento estava bem longe… Até ela chegar.

(Foto: arquivo pessoal)

(Foto: arquivo pessoal)

Vivemos um parto humanizado lindo! Eu estava maravilhada com todo o processo e ele numa gratidão sem fim. Mas meu primeiro medo chegou quando eu não encontrava posição para amamentá-la, e então eu pensava, “poxa, com o braço direito junto seria melhor”. Resolvida esta questão, veio outra: “Carregar minha filha com um braço só pode ser incômodo para ela”. Mas eu tinha que carregar, tinha que cuidar.

Minha mente trazia sempre um medo e uma dúvida sobre minhas capacidades, mas eu não tinha muito tempo para dar atenção a esses sentimentos. Gaia estava ali, saudável, eu tinha ajuda 24 horas do pai e de um jeito ou de outro, exausta e sem dormir (praxes da maternidade), eu estava dando conta.

O maior desafio foi começar a trocar as fraldas e vesti-la sozinha. Optamos pelas fraldas de pano – que pediam maior destreza manual inclusive – e durante os três primeiros meses da Gaia, somente o Emílio fazia essa parte. Eu achava que meu jeito “mono-canhoto” poderia ser brusco, desajeitado e machucá-la. Então ele saia de casa e voltava sempre em até três horas por conta da troca de fraldas. Até que um dia ele levou mais tempo e a Gaia fez cocô… Naquele momento eu pensei, “ou fico nessa crença limitante minha e deixo ela suja, ou viro essa chave e cuido da minha filha como devo!”. A partir de então, mais nada passou a ser obstáculo.

E lá em casa é assim: Faço como posso, do meu jeito, e tanto Emílio me apoia, como Gaia me prova que não existe jeito certo, ou errado. Existe amor de qualquer jeito. Nestes dois anos e  quatro meses minha superação é constante e nunca vai terminar, porque a maternidade me prova a todo momento que ela é um desafio que me coloca em contato com minhas sombras, dores e medos. Mas sempre permeada pelo amor; amor da família que nunca imaginei ter. Com braço ou sem braço, o que nos limita é a nossa mente. E o que nos conduz a superar, é  caminhar na única direção que vale a pena: a do amor.”

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