Mulher relata desespero ao perder família por coronavírus: “Em dois dias, perdi meu marido e meu pai”

Morando em Brasília, enfermeira recebeu visita de pais que viviam no Paraná, em momento que não havia ainda orientações sobre isolamento; três semanas depois, ela perdia o pai e o marido, que estava prestes a se aposentar após 30 anos de trabalho como PM

Resumo da Notícia

  • Uma visita, feita em 12 de março, pelos pais,  deu início da fase mais difícil da vida da enfermeira
  • O plano inicial era que eles passassem algumas semanas na casa da filha na capital federal
  •  No início de abril, Márcia perdeu o marido e o pai
Márcia não conseguiu se despedir ou acompanhar o breve enterro deles, pois também foi diagnosticada com a covid-19 (Foto: Getty Images)

Uma visita, feita em 12 de março, pelos pais, deu início a fase mais difícil da vida da enfermeira Márcia Cristina dos Santos, de 50 anos. Os aposentados Adalgiza Gonçalves, de 80 anos, e Benedito dos Santos,  de 84 anos, deixaram o pequeno município de Uraí (PR), onde moravam, e seguiram a Brasília para visitar a filha e o genro.

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A viagem havia sido marcada meses atrás. O plano inicial era que eles passassem algumas semanas na casa da filha na capital federal. A filha, acompanhava sem muita preocupação as notícias sobre o novo coronavírus. Na data em que os pais dela chegaram, em todo o Brasil havia 77 casos confirmados pelo Ministério da Saúde, sendo apenas dois deles no Distrito Federal.

Na época, não havia orientações de autoridades sobre isolamento social ou para que as pessoas evitassem viagens com destinos nacionais, e também ainda não nenhum registro de morte no país. “Até então, o vírus parecia uma situação distante. Pensava que fosse algo que logo passaria”, disse Márciaem entrevista para a BBC News Brasil.

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Após os primeiros registros, o Brasil enfrentou um crescimento rápido de casos do novo coronavírus. “Não acreditava que fosse chegar ao nível em que as coisas chegaram. Não estava acompanhando muito as notícias no começo, por isso não tinha a dimensão do problema”, diz Márcia, que há um ano deixou a profissão de enfermeira para abrir um ateliê de costura.

O sargento da Polícia Militar, José Romildo Pereira, e marido da enfermeira, era mais preocupado com o novo coronavírus. Por trabalhar nas ruas, ele temia levar o vírus para casa. Desde os primeiros registros no país, ele passou a adotar medidas como a higienização constante das mãos e não tinha contato com a esposa antes de tomar banho, após retornar do serviço.

Márcia e José, que estavam juntos havia 10 anos. Em abril, o policial entraria de férias. Até junho, ele deveria se aposentar, após 30 anos de trabalho na Polícia Militar. A família tinha diversos planos para os próximos meses, porém, foram cancelados pelo novo coronavírus.

No início de abril, Márcia perdeu o marido e o pai. Ela não conseguiu se despedir ou acompanhar o breve enterro deles, pois também foi diagnosticada com a covid-19. “Está sendo muito difícil. Ainda estou anestesiada, porque não parece verdade. A minha ficha ainda não caiu. Tudo isso aconteceu tão de repente”, desabafou a mulher.

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