Ninguém nasce preconceituoso: como criar crianças livres de racismo desde cedo

No dia da Consciência Negra, psicólogas explicam o que você pode e deve fazer dentro de casa

Resumo da Notícia

  • No dia da Consciência Negra, a Pais&Filhos entrevista duas especialistas que vivenciaram o preconceito na pele para te ajudar a refletir sobre as suas atitudes;
  • A ideia é colaborar para que seu filho cresça respeitando as diferenças.
  • Também é importante saber conversar com seu filho sobre racismo

“Para criar crianças livres de racismo teríamos que ter adultos livres de racismo”. É com essa reflexão que a psicóloga Ellen Moraes Senra, mãe de Rafael, embasa todo o seu discurso. No dia da Consciência Negra, a Pais&Filhos entrevista duas especialistas que vivenciaram o preconceito na pele para te ajudar a refletir sobre as suas atitudes e colaborar para que seu filho cresça respeitando as diferenças. 

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As crianças vêm ao mundo como um livro em branco e têm os pais como principais exemplos. Por isso, é fundamental que você ensine essa questão. Nesse sentido, não basta falar, é preciso fazer. “A partir do momento em que a criança vê você fazendo diferença (de cor ou qualquer outro aspecto) entre as pessoas, ela irá reproduzir isso, mesmo que seu discurso seja contrário”, afirma a professora Daniela Generoso. Coerência, mãe de Pedro e Daniel, é tudo na educação das crianças. 

A educação é o caminho para a transformação social (Foto: Getty Images)

Resumindo: se você tiver práticas racistas, o seu filho também irá adotar, mas se você for respeitoso em relação às diferenças, o seu filho também será mais tolerante. Não tem segredo, para criar um cidadão consciente do seu lugar e privilégios, você precisa descobrir os seus. O racismo está tão enraizado que aparece das formas mais banais no dia a dia e a especialista dá alguns exemplos: alisamento do cabelo, dizendo que uma roupa não cai tão bem com o tom de pele, reproduzindo o discurso: “Coisa de preto”. 

As crianças são o que vivem e a representação social é fundamental para mudar a nossa realidade. Se ela não aparece o suficiente nas novelas e séries, vale buscar na leitura, como por exemplo, falar sobre escravidão e como isso não deve se repetir. Nesse sentido, a identificação é fundamental. As profissionais sugerem presentes representativos, como bonecas negras. “A geração antiga cresceu com a Barbie, modelo branca, magra e rica. Então a criança começa a desenvolver que esse é o padrão, isso que é felicidade. Nós precisamos promover o maior bioconjunto de diversidade”, completa Daniela. 

É papel dos pais empoderar as crianças (Foto: Getty Images)

As duas enfatizam a importância de autoaceitação para poder aceitar o outro. “As crianças vivem em um mundo em que ser diferente é normal e nenhuma das diferenças tornam as pessoas menos importantes ou capazes do que elas”, opina Ellen. E é papel dos pais repassar isso. Mostrar que a cor de pele não é nada mais do que isso, diferença de tom. Caso o filho veja uma manifestação racista fora de casa, vale orientar e mostrar que aquilo é errado. 

A psicóloga diz isso com todas as letras, em qualquer forma de preconceito, compartilhando uma situação pessoal: “Meu filho viu uma colega dizer que um homem era feio por ser gordo e respondeu: ‘De jeito nenhum. O homem não é feio só porque comeu muito. Ele é muito bonito, olha o cabelo dele’. Me orgulhei muito”. A escola também pode ajudar no processo, incentivando a comunicação e integração de crianças de todos os gêneros, tons de pele e qualquer outra situação, “porque é justamente ali onde começa a haver a segregação”. 

O ambiente escolar também tem um grande efeito na criança (Foto: Getty Images)

Essa parceria pode, sim, mudar o futuro, através da educação. É fundamental dar voz às crianças e deixá-las se expressar. “A partir do momento em que a crianças que sofreu racismo for empoderada de si, ela sabe o seu papel dentro da sociedade e fica mais fácil de coibir esse tipo de atitude”, finaliza Daniela. O primeiro passo para acabar com o racismo é partindo do princípio que somos preconceituosos. A partir dessa certeza, podemos nos atentar, ir quebrando nossas barreiras aos poucos e criando uma geração mais respeitosa. 

Como você deve conversar com seus filhos sobre o que está acontecendo agora?

O que nossos filhos precisam entender é que estamos fazendo de tudo para protegê-los. Depende da idade da criança. Se eles ouvirem algo, você pode oferecer garantias realistas.  As crianças em idade escolar são expostas a notícias, ou falam sobre isso na escola ou entre si. Você pode explicar que temos uma longa história de ter um pequeno grupo de pessoas que não acreditam que todos somos criados iguais, mas que não concordamos com eles e não é disso que se trata a nossa democracia. Você adicionará mais informações à medida que seu filho se aproxima da adolescência. Então você pode ter conversas reais sobre isso.

Por que é importante conversar com as crianças sobre racismo e preconceito?

O preconceito entre crianças pode começar em tenra idade. Aos 4 ou 5 anos, a maioria das crianças consegue identificar a raça ou etnia das pessoas. Entre os 7 e os 10 anos, as crianças começam a desenvolver entendimentos sofisticados das semelhanças e diferenças entre os grupos. Mesmo que não possamos ver ou ouvir sobre conflitos raciais e xingamentos, isso não significa que as crianças não sejam expostas ou participem de tais atos, o que é prejudicial para todos os envolvidos.

Onde as crianças escolhem termos ou ideias racistas?

A mídia, pais, professores, amigos e irmãos podem influenciar as atitudes das crianças. Além disso, lembre-se de que as crianças percebem rapidamente discrepâncias entre o que dizemos e o que fazemos. Certifique-se de que suas ações correspondam aos seus ensinamentos tolerantes; caso contrário, as crianças seguirão suas ações, não suas palavras.

A afetividade, a empatia, a tolerância as diferenças, são ingredientes fundamentais na forma como os pais criam os filhos; isso faz toda diferença na construção de uma nova sociedade.