Família

O dia em que minha filha me levou ao parque

Imagem O dia em que minha filha me levou ao parque

Publicado em 19/06/2015, às 16h41 - Atualizado em 18/11/2021, às 07h31 por Redação Pais&Filhos


“Sempre pensei que minhas melhores memórias de diversão seriam aquelas dos momentos em que levei minha filha ao parque. E não é que a vida vem e surpreende de novo?! Acabo de chegar de uma das experiências mais marcantes que já tive: a visita a um parque inusitado, inesquecível, encantador.

Um parque que nasceu da inquietação de pais que sentiram na pele o que é ter um filho com necessidades especiais e acreditam que ele possa ser feliz se tiver as mesmas oportunidades que as outras crianças têm, mas se depararam com um mundo que nem sequer percebe que as diferenças existem.

Como toda inovação, o Morgan’s Wonderland, que fica em San Antonio – Texas, não inventou nada. Mesmo assim, criou algo novo, invertendo um conceito que parecia definitivamente estabelecido: o de adaptar um parque para que pessoas com necessidades especiais pudessem entrar e assistir seus familiares se divertindo.

É incrível como de fato parece simples depois de ser executado por alguém! O que os pais da menina Morgan, que nasceu com limitações físicas e cognitivas, fizeram foi inverter esse conceito. Venderam a empresa da família, na área de construção civil, para investir na criação de um parque inteiramente pensado e criado para pessoas com limitações físicas e necessidades especiais. Na sequência, adaptaram o parque para que acompanhantes, familiares, cuidadores e todas as crianças também pudessem se divertir.

O resultado é um lugar incrivelmente acolhedor. Uma visão do paraíso para alguém que, como eu, sempre sentiu o prazer de ir a um parque de diversões para ver a alegria de crianças e adultos sem dificuldade alguma de acessibilidade. Só agora percebi que nunca desejei ir a alguns brinquedos ou me frustrei por não ter experimentado a sensação de um carrossel, por exemplo. Simplesmente achava normal que aquele não era para mim.

E só agora percebi que o maior erro que cometemos não é o de criar um mundo para as pessoas que conseguem acessá-lo, mas o de não despertar em todos os seres humanos o desejo de curtir esse mundo em sua plenitude.

Mais que isso: o maior de todos os pecados que poderíamos cometer – preparar as pessoas para terem consciência de suas limitações, em vez de recursarmos totalmente a ilusão de que há limites, seja qual for a dificuldade a ser enfrentada para eliminar as barreiras.

Muito além do que os brinquedos, as pessoas que trabalhavam e se divertiam no parque no dia do meu passeio, foram a maior causa do meu encanto. Ninguém para e fica olhando o jeito diferente de caminhar, de se movimentar ou de se expressar dos outros. Todos ali estão se divertindo sem preocupação alguma em se adaptar ou parecer normal. Enfim, um lugar onde de fato todos são normais.

Para minha surpresa, não são as pessoas com necessidades especiais as que mais se divertem. Os mais felizes são aqueles que podem ter a certeza de que estão compartilhando momentos de prazer em família, com segurança e sem a preocupação se a cadeira de roda vai passar no espaço, se há pedras no chão para tropeçar, se há perigo de um susto inesperado.

Borboletas estão representadas de diversas formas. Elas são o símbolo da capacidade de mudança. A mensagem é clara: você também pode sair do seu casulo e voar. E todos voam, seja enquanto usam o balanço ou no giro do carrossel. E que viagem inesquecível.

O balanço é o que mais gera lágrimas de emoção por parte dos pais e dos cadeirantes que jamais imaginavam que um dia poderiam sentir seus cabelos voando ao vento ou o rosto sendo acariciado pela brisa no vai e vem de sua cadeira.

Ao entrar no parque as pessoas já são tratadas como super-heróis. Aquilo que no mundo dos chamados “normais” denomina-se “deficiência”, no Morgan’s Wonderland chama-se Super Poder!

Os quatro super heróis que ilustram e alegram o parque possuem diferentes super poderes: o Rocket tem uma cadeira de rodas, a Jette um par de muletas, o Raio-X óculos escuros e a Morgan possui as asas de borboleta.

Talvez isso não toque você como tocou a mim. Fique tranquila. Acredite, porém, no poder avassalador de imaginar que o fator muitas vezes gerador de pena nos outros é de fato o que torna uma pessoa com necessidade especial tão mais forte, otimista, positiva do que todos os outros seres humanos. Se você puder entender o que isso causou em mim, basta.

Morgan, a filha do casal que construiu o parque, tem hoje 21 anos de idade cronológica. Sua idade mental é de aproximadamente 9 anos. Quando passeia e brinca pelo parque é geralmente reconhecida e as pessoas querem tirar foto com ela. Um prêmio se você adivinhar qual a reação dela ao assédio…

Pronto? Ok, já adianto que você errou! Ela não quer tirar fotos. Ela não entende porque as pessoas querem tirar fotos ao invés de brincar. Não faz o mínimo sentido para ela ter que deixar de se divertir em um lugar tão delicioso para tirar fotos com pessoas estranhas.

Que tal esse tapa com luvas de pelica? Será que você consegue aplicar esse profundo ensinamento em seu dia a dia? Faz algum sentido deixar de se divertir para enfrentar uma fila para tirar foto com uma pessoa que não faz parte de sua vida? Pense nisso na próxima vez que encontrar alguém famoso.

Há poucas opções para alimentação dentro do parque, mas muitas opções de espaço para lanche em família. De novo, como nunca pensei nisso?! Como as restrições alimentares são diversas para cada pessoa com necessidade especial, o parque está estruturado para que a família leve seus alimentos e possa desfrutar de um dia maravilhoso com os seus amigos e familiares. Simples assim!

Um público especial, assíduo – inclusive com um dia da semana especialmente preparado para ele é o idoso. Fiquei tocada com os casais de velhinhos, bem velhinhos, curtindo o passeio de Jipe, pelos trilhos que margeiam uma área do parque. O marido “dirigindo” pelo trilho e a esposa curtindo a companhia e o passeio. Um dos momentos mais inesperados e impressionantes do dia!

Uma simples inversão de conceito. Um parque construído para quem tem necessidades especiais e adaptado para quem não tem. Lindo! Encantador! Tocante! Que tal aplicar na sua vida alguns dos conceitos espalhados por esse parque? Obrigada, minha filha, pelo dia em que me levou ao parque.

Roberta Bento e Taís Bento, do Socorro, meu filho não estuda!, são nossas embaixadoras e conheceram o Morgan’s Wonderland em junho.

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