“Os primeiros e mais importantes educadores de uma criança são os pais, não os professores”

Diretor da Escola Americana no Rio de Janeiro, Nigel Winnard fala sobre as mudanças para as escolas brasileiras com as habilidades socioemocionais, da necessidade de valorização dos professores e da presença efetiva dos pais na educação dos filhos

O modelo atual de ensino no Brasil precisa passar por mudanças (Foto: Getty Images)

Uma pesquisa feita pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, mostra que estamos diante da geração mais insegura de todos os tempos. Um estudo do Fórum Econômico Mundial, publicado em 2016, estima que 65% dos jovens que estão hoje no ensino fundamental vão ter empregos que ainda nem existem. Por isso, especialistas reforçam que é preciso questionar o modo tradicional de ensino e valorizar ainda mais as habilidades socioemocionais para o presente e futuro do seu filho.

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O diretor da Escola Americana no Rio de Janeiro, com mais de 25 anos de experiência em educação internacional, conversou com a Pais&Filhos sobre a importância das habilidades socioemocionais, o cenário atual da educação brasileira e os desafios que os pais e escolas enfrentam para formam os adultos do futuro. Segundo o educador, para que as crianças desenvolvam mais autonomia e senso crítico, o modelo atual de ensino no Brasil precisa passar por mudanças. Mais do que nunca, o Brasil precisa que sua juventude desenvolva o senso crítico – e isso não recai apenas nas escolas. A sociedade não pode e não deve colocar tudo nos ombros de seus professores. Precisamos lembrar que os primeiros e mais importantes professores de uma criança são, na verdade, os pais”, defende o educador Nigel Winnard, mestre em administração educacional pela Universidade de Michigan, doutor em educação pela University of South California e diretor da Escola Americana no Rio de Janeiro.

Confira a entrevista completa:

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As novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) definiram que até 2020 todas as escolas brasileiras deverão incluir em seus currículos as habilidades socioemocionais. Qual a importância de implementar a educação socioemocional com esta geração atual de crianças?

Deveríamos começar dizendo que, embora as habilidades socioemocionais possam ser uma novidade para a BNCC, é algo que faz parte do trabalho da escola com crianças há décadas em muitos países. Talvez valha a pena nos perguntar por que somente agora é tão importante aqui no Brasil que o MEC sinta que algo precisa ser feito na área de educação socioemocional nas escolas do país. O que mudou? Por que a súbita percepção de que o desenvolvimento do caráter e do bem-estar dos alunos precisa ser abordado no currículo?

Para que as crianças tenham mais autonomia e senso crítico, o modelo atual de ensino no Brasil precisa passar por mudanças? Se sim, quais?

É evidente que o MEC pensa assim, caso contrário, por que o novo foco nas habilidades socioemocionais? No entanto, me pergunto o quanto a sociedade realmente quer que seus jovens sejam pensadores autônomos e críticos. Na minha opinião, se a sociedade quer ou não, isso é muito menos importante do que a verdade gritante de que a sociedade precisa. Precisamos que nossos jovens sejam capazes de diferenciar fato e opinião. Precisamos que eles sejam consumidores críticos do turbilhão de conteúdo que a internet cria todos os dias. Precisamos que eles sejam capazes de equilibrar pontos de vista e opiniões e que possam verificar genuinamente o que é a verdade, em vez de aceitar a fofoca apenas porque alguém grita mais alto ou a repete com mais frequência.

Mais do que nunca, o Brasil precisa que sua juventude desenvolva o senso crítico – e isso não recai apenas nas escolas. A sociedade não pode e não deve colocar tudo nos ombros de seus professores. Precisamos lembrar que os primeiros e mais importantes professores de uma criança são, na verdade, os pais. O modelo de ensino no Brasil precisa mudar para acomodar a parte socioemocional? Provavelmente, mas não vamos cair na antiga armadilha de querer mais de professores por menos. Se o Brasil leva a sério o enriquecimento do programa educacional, os professores precisam de tempo, dinheiro, recursos e, acima de tudo, precisam se sentir valorizados, pois a contribuição fundamental que eles dão será ainda mais percebida através das habilidades socioemocionais.

“Se esperamos que os professores desenvolvam habilidades sociais e emocionais nos alunos, eles precisam receber os recursos necessários de tempo, apoio e treinamento” (Foto: Divulgação)

Como a educação socioemocional pode ajudar as crianças e jovens a lidar com erros e frustrações?

Acho que o presente mais importante que a educação socioemocional pode dar a qualquer criança é a crença de que ela pode administrar sua própria situação. Feita de forma eficaz, a educação socioemocional leva os jovens a serem confiantes o suficiente para lidar com contratempos. Eles procuram soluções para erros em vez de buscar desculpas ou culpas. Acima de tudo – e isso é algo que tem proporções quase epidêmicas aqui no Brasil – eles não terceirizam. Por qualquer motivo, é comum os pais brasileiros procurarem o terapeuta ao menor sinal de um problema. Os pais involuntariamente expressam seu amor pelo filho cercando-os de estruturas de apoio e mecanismos que enviam uma mensagem que pode minar a resiliência e a autoconfiança de seu filho: alguém consertará isso para você. Precisamos conversar sobre isso seriamente.

Os professores brasileiros estão preparados para formar adultos com mais autonomia, empatia, senso crítico e bem resolvidos emocionalmente?

Se você fosse perguntar a um cirurgião-dentista, que passou a vida inteira aprendendo e praticando como extrair e reparar os dentes, se agora ele poderia começar a tratar também a ansiedade em seus pacientes, o que você acha que ele diria? Ele poderia apenas fazer isso? Claro que não. Ele precisaria de tempo, treinamento e apoio. Ele precisaria receber um tempo em sua agenda para acomodar as novas expectativas: menos operações para criar tempo para mais aconselhamento. Portanto, se esperamos que os professores desenvolvam habilidades sociais e emocionais nos alunos, eles precisam receber os recursos necessários de tempo, apoio e treinamento. Eu tenho a sorte de trabalhar em uma escola com bons recursos. Infelizmente, o mesmo não pode ser dito de todos os meus colegas que trabalham em escolas públicas, onde os recursos não são tão disponíveis, mas onde os padrões profissionais que os professores definem para si não são menos elevados. Se a sociedade realmente acredita na importância desse trabalho, o governo precisa garantir que os educadores do Brasil recebam as ferramentas necessárias para ter sucesso nessa missão.

Qual o papel dos pais na educação escolar dos filhos?

Estar presente. Ser o exemplo. E pare de mandar seu filho para um psicólogo, terapeuta, tutor, nutricionista por qualquer motivo. Passe um tempo com seu filho fazendo nada de mais. Leiam juntos. Façam refeições juntos. E acima de tudo, por tudo que você ama: coloque o seu telefone longe. Você tem momentos tão preciosos com seu filho, não os desperdice nem se distraia. Então, qual é o seu papel como pai? Pense nisso: seu trabalho é ajudar seus filhos a se tornarem ótimos pais para seus netos. Então, seja o melhor tipo de pai que você pode ser para mostrar-lhes o que realmente importa.

Como funciona a educação socioemocional na Escola Americana no Rio de Janeiro?

Um aspecto fundamental do que é ser uma escola americana é assumir uma responsabilidade holística pela educação de toda a criança. Nós não ensinamos disciplinas: ensinamos jovens. Ser professor, na tradição dos EUA, é ser in loco parentis. É por isso que temos orientadores para apoiar o bem-estar social e emocional dos estudantes. Também temos conselheiros universitários para ajudar nossos alunos a encontrarem seus próprios caminhos. E é por isso que investimos em programas como Character Counts (sobre a formação do caráter), Child Protection (sobre proteção infantil) e um poderoso programa de consultoria que garante que toda e cada criança tenha o poder de ser um tomador de decisões hábil e experiente, capaz de aceitar as conseqüências de suas ações com a resiliência, além de se esforçar para lidar com o retrocesso e o fracasso enquanto eles enfrentam os desafios da vida.

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