PaisDemia: levantamento exclusivo busca entender o impacto da pandemia na relação dos pais com filhos

Quem são e serão os pais dos filhos da pandemia? O que este período roubou de você? Entender essa questão é o objetivo do projeto de quatro pesquisadores, Dado Schneider, Valesca Karsten, Marisa Eizirik e Bia Borja

Resumo da Notícia

  • O projeto PaisDemia está no ar
  • Esse levantamento exclusivo busca entender o impacto da pandemia nas relações e comportamentos entre pais e filhos
  • Por 10 anos, você poderá acompanhar a evolução do projeto aqui na Pais&Filhos

O que a pandemia roubou de você? Uma pergunta que, à primeira vista, pode parecer simples, mas é muito profunda e pode trazer uma infinidade de respostas. Este período de isolamento social foi sentido de forma diferente para cada pessoa – algumas ficaram extremamente ansiosas, outras apreensivas, tiveram aqueles que aproveitaram para aprender algo novo ou colocar em prática um sonho antigo. Porém, independentemente dos sentimentos que este período trouxe, uma coisa é praticamente certa entre todos: ele nos obrigou a olhar para si, para dentro e nos questionar sobre os hábitos de vida que estávamos adotando nas mais diferentes áreas. Talvez, aquilo que para você parecia fundamental e que era impossível conseguir viver sem, se tornou banal. Em compensação, algum detalhe que passava despercebido na rotina ganhou um significado imensurável.

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Conheça o PaisDemia, um levantamento exclusivo que quer compreender o impacto da pandemia na relação entre pais e filhos
Conheça o PaisDemia, um levantamento exclusivo que quer compreender o impacto da pandemia na relação entre pais e filhos (Foto: Getty Images)

Sim, muita coisa mudou no mundo. Basta dar uma olhada para fora das janelas. As máscaras no rosto das pessoas não nos deixam mentir. Ou aquele álcool gel em cada esquina, sem falar dos que estão dentro da bolsa. Mas é possível que a mudança mais profunda tenha ocorrido dentro de nós. A partir daquelas reflexões, que citamos aqui em cima, de entender o que é essencial para nós, de fato. Esse momento de instabilidade e incertezas, paradoxalmente, nos trouxe a chance de recomeçar. Por isso, quatro pesquisadores se reuniram com o objetivo de entender a dor, a angústia, a perda e o dano causados pela pandemia. Assim, surgiu o projeto PaisDemia, que tem a intenção de descortinar aquilo que, apesar de invisível, está gerando enorme impacto afetivo e comportamental nos pais.

Ao longo de dez anos (e quem sabe mais), eles irão promover pesquisas contínuas para abordar diversos aspectos ligados ao tema. E a Pais&Filhos se juntou nesta missão e irá produzir conteúdos para ajudar a responder perguntas, observar as mudanças de comportamento, as transformações e debater futuros possíveis.

De cabeça no assunto

Dado Schneider, Doutor em Comunicação e palestrante, que já viajou o Brasil e o mundo para falar sobre mudança e geração Z, pai de Eric e Theo; Valesca Karsten, Educadora Infantil e empreendedora, mãe de Thiago e Roberta; Marisa Eizirik, Doutora em Educação, com ênfase em Psicologia Social, autora de livros e filósofa por escolha, mãe de Eduardo e Mariana, avó de Sofia, Manuela, Clara e Victoria; e Bia Borja, jornalista de dados com olhar na economia comportamental e a cabeça na construção de futuros, mãe de Gabriel e Giovana, têm como proposta observar as mudanças de comportamento, as transformações e debater futuros possíveis. O estudo (inédito) abordará o conjunto de sentimentos, sonhos e projetos que tiveram que ser adaptados à imprevisibilidade dos fatos.

“O nosso objetivo é ajudar as pessoas, unir nossos conhecimentos e experiências de vida e poder contribuir para que essas crianças e suas famílias tenham subsídios para entender e ajudar seus filhos daqui um tempo, quando entrarem no mercado de trabalho e acolher com a nossa escuta o que estão sentindo e vivenciando nesse momento”, explica Valesca Karsten. O projeto surgiu de conversas entre ela e Dado Schneider, em que ele questionava como a educadora e dona de escola estava se virando, assim como os professores, coordenadores e, principalmente, pais das crianças. “Um dia ele me disse: ‘Valesca, precisamos pensar nessas crianças e em nós, pais. Vamos fazer uma pesquisa? Ela se chamará PaisDemia’. Eu achei genial a ideia e topei na hora”, lembra. Foi então que convidaram a Marisa e a Bia, e ambas também toparam.

Valesca diz que estes últimos tempos a fizeram perceber que pode viver com menos e valorizando coisas menores do cotidiano, como as refeições em família e mexer nas plantas, e se sente privilegiada em poder conversar com pessoas de diferentes lugares do Brasil para enriquecer e trazer um recorte rico em termos de pesquisa e experiência de vida. Como educadora, Valesca destaca: “Uma coisa boa da pandemia é que a escola ficou mais valorizada, os professores, principalmente. Sabe-se que para criar uma criança, precisa-se de uma rede de apoio e a escola faz parte dessa rede. Sou uma educadora que defende o espaço da criança em ser criança, ter liberdade, contato com a natureza, vínculo, afeto e, principalmente, ter tempo para brincar. E, na retomada, vejo as crianças brincando, estando com os colegas, se descobrindo e construindo através da brincadeira”.

Estes são os pesquisadores que estão buscando entender o que a pandemia roubou dos pais
Estes são os pesquisadores que estão buscando entender o que a pandemia roubou dos pais: Dado Schneider, Valesca Karsten, Marisa Eizirik e Bia Borja (Foto: Divulgação)

Para Marisa Eizirik, a Covid-19 promoveu mudanças de hábitos e de condutas inimagináveis, tais como uma reavaliação do que era importante e o que era supérfluo, e a valorização do ambiente íntimo (casa, objetos, pessoas, plantas…), assim, conta: “Queremos compreender o impacto da pandemia (dor, angústia, ansiedade, tristeza, medo) nos pais e nos filhos, no funcionamento das famílias, nas relações com a escola e a educação dos filhos”. Afinal, quais são os efeitos colaterais? Ela não se arrisca em responder, mas garante: “Muitos pais não serão os mesmos depois da pandemia. Ninguém passou por ela impunemente”. Bia Borja complementa: “O nosso objetivo de ‘dedo no pulso’, que tanto falamos entre nós, significa sentir os batimentos. São neles que estão as emoções e queremos nos aprofundar nisso. Entender quais são essas novas e antigas emoções juntas e misturadas na construção dos novos comportamentos a longo prazo”.

A jornalista, que retomou o trabalho presencial há poucas semanas, enfatiza como se surpreendeu com o fato de a família ter se acostumado rapidamente a esse novo ritmo: “Pensei que a minha filha mais nova sentiria a minha ausência e nada disso aconteceu. Estou adorando o contato, o movimento da empresa, e a minha produtividade está maior”. Por ter contraído Covid-19, ela ficou 10 dias internada no hospital: “Fui para a UTI e vi e senti o que é a incerteza e a total falta de controle que você tem sobre a situação. A experiência foi muito forte em mim e para toda a minha família. Por isso, estou vivendo essa retomada com alegria e muita vontade de viver”. Cada família e cada ser humano passou por desafios distintos neste período. E são justamente os efeitos destes sentimentos que serão analisados ao longo dos próximos 10 anos. Para não perder nenhum detalhe das descobertas e avanços das pesquisas, acompanhe as atualizações aqui. Além disso, você pode compartilhar a sua própria história e experiência. Basta rolar a página até o final e contar o que precisou mudar ou adaptar, sendo mãe ou pai, durante a pandemia.

Tudo novo, de novo

Recomeçar é importante. Dar essa chance para você e, consequentemente, ser exemplo para o seu filho, significa nascer de novo em alguns aspectos. Mudar é necessário. Você com certeza já sabe disso. Tente lembrar quem você era há 10 anos… Difícil que ainda seja igual. Mesmo sem perceber, a vida e nossas escolhas nos transformam. Mas, claro, em uma situação tão atípica e grandiosa como a pandemia, essa transformação se explicita e é praticamente imposta. Mudar exige coragem e resiliência, não é simples, já que representa sair da zona de conforto, pausar o botão automático. Mas faz (muito) bem. Por isso, neste retorno à vida cotidiana, não dá para simplesmente continuar com os mesmos hábitos e esperar resultados diferentes.

Karina Weinmann, neuropediatra, filha de Jacira e Hugo, pontua: “É importante refletir hábitos para sair da zona de conforto e se reinventar diante das dificuldades. As crises existem para isso, exercitar a capacidade de adaptabilidade ao mundo, essa é a verdadeira definição de inteligência! Reavaliar a nossa rotina no sentido de rever valores, o verdadeiro sentido da vida”. Para ela, não adianta recomeçar no mesmo ritmo que paramos, é necessário paciência e reflexão para entender o que pode funcionalizar cada vez mais para a nossa vida e das crianças. Nesse caminho, é possível construir a sua felicidade, que é sempre bom lembrar, não se trata de uma utopia alcançada em que se vive 24 horas por dia feliz, mas, sim, um exercício de buscar aproveitar cada segundo da forma que é possível, nos permitindo sentir todos as sensações que estamos vivendo.

A pandemia mudou muita coisa dentro de nós e este projeto busca entender como isso se reflete na parentalidade
A pandemia mudou muita coisa dentro de nós e este projeto busca entender como isso se reflete na parentalidade (Foto: iStock)

“O novo possibilita esse autoconhecimento. Ao se expor a ele, você se reinventa e cria possibilidades e saídas dos problemas. Os caminhos vão se abrindo, trazendo realização pessoal e felicidade”, acrescenta a neuropediatra. Para Bianca Solléro, psicóloga, arte-educadora e arteterapeuta, autora do livro “Pare de perguntar o que seu filho vai ser”, mãe de Elisa e Filipe, esse “sacolejo” da pandemia pede respostas novas e fora do padrão, que consequentemente, nos fazem reavaliar como estávamos traçando nossas rotas para encontrá-las. “Temos a oportunidade de configurar, mentalmente, que novo é este que eu desejo pra mim. Redesenhar, reimaginar o caminho que se quer seguir. Além disso, todo renascimento acontece a partir de uma morte. Neste sentido, os recomeços nos oportunizam enlutar aquilo que não nos serve mais e, dessa forma, nos aliviar, ficarmos mais leves”, opina.

É claro que após tudo o que enfrentamos, as perdas, as dores, estamos sensíveis. Por isso, é fundamental que esse recomeço aconteça respeitando os seus limites, estando atenta para reconhecer quando é possível ir um pouco mais além, com objetivo de não estagnarmos e nem forçarmos a barra. Comece aos poucos, entenda o seu ritmo e da sua família. O mais importante de tudo é, realmente, começar. “Precisamos avaliar os aprendizados. O que eu aprendi neste tempo que não quero voltar a fazer como antes e com o que eu posso me despreocupar? Atividades socioemocionais que desenvolvem a criatividade e a confiança são imprescindíveis nesse momento. Você pode recorrer a grupos terapêuticos (ouvir a história de outras pessoas ajuda a redesenhar a sua), exercícios meditativos e práticas criativas (aula de teatro, dança, pintura)”, sugere Bianca, e completa: “Para uma criança confiar no novo e se ressocializar, ela precisará não só ver, como, principalmente, sentir isso de seus pais”.

Um outro lado

Vanessa Abdo, doutora em psicologia e CEO do Mamis na Madrugada, mãe de Laura e Rafael, provoca: “No início da pandemia, a gente percebeu um otimismo nas pessoas, que a humanidade passaria por isso para refletir como podia se tornar melhor. Mas, historicamente, o que a gente vê é que os momentos de crises não foram marcados por uma evolução espiritual para uma melhora e generosidade, mas ao contrário, acordam os nossos piores lados, despertam as nossas sombras. Então o que a gente tem que prestar atenção com essa questão da pandemia é como cada um individualmente pode fazer para tornar o entorno melhor”. Para ela, a grande questão é como transformar todos os aprendizados deste período em mudanças práticas e efetivas para todos.

A doutora em psicologia entende que a síndrome da gaiola, ou seja, o receio e ansiedade com a retomada da vida social, tem atingido públicos muito diferentes, sendo bastante democrática. “Durante quase dois anos, o contato com pessoas era muito perigoso, era letal, por isso a gente criou uma situação de aversão a seres humanos. Então quando a gente vê uma pequena aglomeração, um número maior de pessoas ou a vida voltando ao normal, fica com medo, com aflição. Mas isso não é mais irresponsabilidade. A gente precisa estar atento que essa volta é necessária e ela é saudável do ponto de vista emocional e segura do ponto de vista da infectologia”, alerta.

Nos acostumamos, neste período, a viver entre quatro paredes. Sem contato com ninguém além daqueles que moram na sua casa, mas podemos e devemos nos reacostumar a viver em sociedade. “Os humanos são seres relacionais. É muito importante para nós ficar perto de outras pessoas. E conforme os pais forem ressocializando, as crianças rapidamente se adaptam. A gente não precisa de muita coisa para ser feliz, mas a gente precisa lembrar que a vida precisa seguir e precisa seguir de uma forma sustentável e divertida”, coloca Vanessa. Mas e o futuro? Como fica? Quais os impactos da pandemia nos pais desta geração? E quem serão os pais dos filhos da pandemia? São perguntas ainda sem resposta.

O que está por vir?

A jornalista e apresentadora Geovanna Tominaga, colunista da Pais&Filhos e celebrante de casamentos, mãe de Gabriel, já deu um gostinho sobre a própria experiência. “Estes últimos tempos me fizeram refletir sobre todos os hábitos. Foram muitas horas comigo mesma, encarando os meus defeitos e dificuldades. De certa forma, percebemos como o tempo é valioso, como a vida é efêmera. Isso resulta naquela vontade de afastar tudo o que não faz sentido e focar nas coisas importantes de verdade”. Para ela, todos nós estamos recomeçando mais unidos: “A convivência intensa nos fez ter de aprender a dialogar para o bem-estar e saúde mental de todos. Eu vejo isso como um dos maiores presentes que recebi dessa situação toda”, e conclui: “Acho que quanto mais conscientes estamos do que realmente vale a pena nesta vida, melhores pais seremos no sentido de mostrar o atalho para os nossos filhos e valorizar aquilo que importa, que é a nossa família”.

De que forma a pandemia influenciou a parentalidade? Responder essa pergunta é o objetivo do projeto PaisDemia
De que forma a pandemia influenciou a parentalidade? Responder essa pergunta é o objetivo do projeto PaisDemia (Foto: Getty Images)

Já Fefa Alfano, influenciadora do @promovidaamae, mãe de Rafael e Felipe, acredita que a maternidade, naturalmente, traz um desejo profundo de ser uma pessoa melhor. “Eu acho que a gente voltou totalmente diferente de antes. Somos mais pés no chão. Não tem aquilo de programar as coisas com muita antecedência, a sede de viver hoje ficou muito maior. Uma coisa que esse recomeço trouxe é a intensidade em querer viver bem, em estar olhando para o próximo, olhando pro mundo”, diz. Ela enxerga a família mais fortalecida e unida também. “A gente não sabe o dia de amanhã. A vida é agora. Eu sou intensa, eu quero viver todo dia como se fosse o último, e não quero que seja o último. A vida para mim é muito colorida, mesmo nos dias cinzentos, eu tento botar alguma cor”, comenta.

Bia Borja finaliza: “Aproveitar a vida é criar, viver, produzir algo (de fato). A pandemia deixou claro isso. É na dor e no sofrimento que a gente pode criar soluções para parar de sofrer. É como uma montanha-russa, vem o sofrimento, você sente, reflete, inventa a solução, goza da alegria momentânea, sente aquela satisfação, e se prepara para o próximo desafio”. E com tudo isso em mente, retomamos a pergunta inicial do texto. Afinal, o que a pandemia roubou de você? Fique de olho no site, Instagram, Facebook e YouTube da Pais&Filhos para acompanhar todas as atualizações e descobertas da pesquisa. Que venham os próximos anos!