Paralisia infantil é uma ameaça para o Brasil com a queda da cobertura vacinal

Três em cada dez crianças brasileiras não receberam as vacinas necessárias para protegê-las, mostra levantamento da Unicef

Resumo da Notícia

  • A cobertura vacinal está em queda no Brasil, desde 2015. Dados da Unicef apontam que três em cada dez crianças brasileiras não receberam as vacinas necessárias para protegê-las
  • Esse cenário pode trazer de volta doenças que já foram extintas do país, como a poliomelite
  • Investir em comunicação em massa é uma das saídas para estimular a imunização no Brasil

Vacina boa é vacina no braço! Essa frase ficou famosa na pandemia da covid-19 para combater as fake news e até mesmo os “sommeliers de vacina” – pessoas que escolhem a marca do laboratório do imunizante a ser aplicado. Mas, pode ser no bumbum, pode ser em gotinha, o que precisamos mesmo é de crianças com a caderneta de vacinação em dia!

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A queda nos índices de cobertura vacinal no Brasil está a cada dia mais preocupante! Segundo dados do Ministério da Saúde, os números têm despencado nos últimos dez anos. O índice de imunização recomendado acima de 90%, fechou o ano passado em 60,7%, conforme levantamento do DATASUS do Ministério da Saúde. Cadê o Zé Gotinha?

A cobertura vacinal está “descendo ladeira abaixo” desde 2015, mas a pandemia da covid-19 agravou ainda mais os resultados. O isolamento social junto a interrupção de serviços essenciais de saúde dificultou ainda mais o acesso à imunização de rotina contra outras doenças.

Desde 2018, o Brasil voltou a ter epidemias de sarampo, só em em 2019 foram confirmados 20.901 casos (Foto: Getty Images)

As consequências podem ser variadas, mas todas negativas. Uma delas é a volta de doenças já controladas no país, como o sarampo e a poliomielite, uma ameaça à saúde das crianças. De acordo com informações do Ministério da Saúde, a procura pela vacina contra poliomielite, caiu de 96,5% em 2012 para 67,6% em 2021. O último caso registrado no Brasil foi em 1989, mas esses números preocupam.

Dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), coletados em março deste ano, apontam que três em cada dez crianças brasileiras não receberam as vacinas necessárias para protegê-las. Nos últimos três anos, a cobertura de vacinação contra sarampo, caxumba e rubéola (Tríplice Viral D1), no Brasil, caiu de 93,1%, em 2019, para 71,49%, em 2021. A vacinação contra poliomielite também ficou negativa, passou de 84,2%, em 2019, para 67,7%, em 2021. É assustador! “Na primeira infância, crianças recebem imunização contra, pelo menos, 17 doenças. O declínio nas taxas de vacinação coloca milhões de crianças e adolescentes em risco de doenças perigosas, e evitáveis”, explica Stephanie Amaral, oficial de Saúde do UNICEF no Brasil.

Segundo o infectologista, Presidente do Departamento de Infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, Marco Aurélio Sáfadi, pai de Pedro e Marília, isso significa que temos milhares de pessoas vulneráveis aos vírus. “Há registros de casos de paralisia infantil, que é a doença que a vacina da poliomielite previne, em países da Ásia e mais recente na África, isso significa que se o vírus chegar ao Brasil tem a possibilidade de espalhar com facilidade.”, explica Sáfadi.

Exemplo do mundo

O Brasil é conhecido como o país do samba, do carnaval e da vacina e o Programa Nacional de Imunização (PNI), criado em 1973, é uma referência mundial de imunização em massa e gratuita para a população. O PNI oferece todas as vacinas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) no Calendário Nacional, são aproximadamente 300 milhões de doses de vacinas ao ano, para combater mais de 19 doenças, em diversas faixas etárias. “Infelizmente as pessoas não levam mais à sério a vacina. O PNI é um patrimônio nosso, mas precisa ser fortalecido, pois perdeu a credibilidade”, reforça a Marlene Oliveira, mãe da Elis e presidente do Instituto Lado a Lado.

O índice de imunização recomendado acima de 90%, fechou o ano passado em 60,7%, conforme levantamento do DATASUS (Foto: Shutterstock)

Ainda segundo a Marlene, as vacinas são responsáveis pelo aumento da expectativa de vida do país, que hoje está em torno dos 80 anos, graças ao controle de diversas doenças. Dr. Sáfadi complementa que o investimento em imunização, além de diminuir o número de casos e mortes evita custos com sequelas, absenteísmo, tratamentos de saúde , entre outros prejuízos para o SUS e para a economia.

Cadê o Zé Gotinha?

Em 1980 um personagem símbolo da vacinação, querido por todos, fez sucesso e alavancou a vacinação no Brasil.  O famoso Zé Gotinha foi criado pelo artista plástico mineiro Darlan Rosa, então funcionário de um setor de publicidade do Ministério da Saúde, para comemorar os vinte anos do Programa Nacional de Imunizações (PNI), e virou marca das campanhas de multivacinação. Ele conseguiu de um jeito alegre e carinhoso para orientar as famílias e atrair inclusive as crianças.

A informação pode salvar vidas! Em alguns casos as famílias desconhecem o risco de cada doença e minimizam a importância de imunizar seus filhos. Um erro comum é achar que não precisa vacinar a criança contra um vírus que não estão em circulação. “Isso é um grande equívoco, o que as pessoas precisam saber é que essas doenças matam crianças e adultos e deixam sequelas, como no caso da paralisia infantil. Toda vacina precisa ser aplicada. Quanto mais crianças não tiverem acesso a imunização, mais fácil se torna a propagação de doenças. ”, ressalta Marlene.

As fake news pelas mídias sociais é outro fator, agregado também aos problemas logísticos de distribuição dos imunizantes pelo país que podem dificultar as adesões. Ou seja, o problema é multifatorial, mas uma boa comunicação pode ajudar! A epidemiologista, coordenadora do Programa Nacional de Imunização (PNI), Carla Domingues, mãe de Raissa e Gabriela, diz que as campanhas em massa são fundamentais para mudar essa situação e aumentar, de fato, a vacinação. “Por falta de informação as pessoas desconhecem os riscos de complicações e morte das doenças e acabam sendo influenciadas pela desinformação, até acreditarem que as vacinas são desnecessárias”.

Informar, informa e informar, essa é a solução. Marlene ressalta que os grupos antivacinas vão sempre existir, mas o que precisamos é falar mais alto, divulgar informação de qualidade, orientar, educar e empoderar a população. “O investimento na comunicação em massa é o principal ponto apontado pelos especialistas no assunto. É necessário um esforço de todos os setores envolvidos e o de educação é um deles”, finaliza.

Assista o primeiro episódio do POD&tudo, o podcast da Pais&Filhos, com a Ana Fontes, fundadora da Rede Mulher Empreendedora. Clique aqui.