Perder o filho no parto: precisamos falar sobre o luto, a dor e solidão da maternidade interrompida

Nada prepara uma mãe para enterrar o próprio filho. A incoerência dessa perda bate de frente com a inerência da morte no dia a dia. Cuidar de uma mulher passando por esse processo de luto é fundamental para que ela consiga atravessar esse caminho e restaurar a fé

Resumo da Notícia

  • Ainda que a morte faça parte da ordem natural das coisas, ninguém está preparado para lidar com a perda de alguém muito querido
  • O luto causado pela morte de um filho é extremamente doloroso e um tabu, mas precisamos falar sobre o assunto
  • A psicóloga e suicidologista Karina Okajima Fukumitsu explica o que acontece durante o processo do luto e como cuidar de uma mãe que perdeu o filho

Chico Buarque descreve a saudade como a mortalha do amor em sua música “Pedaço de mim” – dor que chega a ser física, como a fisgada no membro amputado, e se compara com o ato de uma mãe arrumar o quarto do filho que já morreu. O luto é um sentimento universal, ainda que também seja único e incomparável para cada pessoa que o vivencia.

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Nascer e morrer é a ordem natural das coisas. A vida, que é o que acontece entre esses dois pontos cruciais da existência de alguém, no entanto, segue regras morais do que acreditamos ser aceitável ou não. Por mais que doa, enterrar os pais faz parte do que ditamos ser o normal. Quando nos deparamos com a morte de um filho, perdemos a sensação do chão sob os pés. Enterrar um filho é uma incoerência.

Ainda que tudo seja impermanente, nada prepara uma mãe para a morte do próprio filho. “É um contrassenso. A incoerência acontece pelo sofrimento advindo de um projeto interrompido”, conta Karina Okajima Fukumitsu, psicóloga, suicidologista, palestrante e autora do livro ‘Revés de um parto: luto materno’. Perder um filho é, segundo a especialista, a constatação da própria impotência. A mulher fica diante da obrigação de viver essa mudança abrupta, violenta e repentina.

Ainda que a morte faça parte da ordem natural das coisas, nada prepara uma mãe para enterrar o próprio filho
Ainda que a morte faça parte da ordem natural das coisas, nada prepara uma mãe para enterrar o próprio filho (Foto: iStock)

“A mãe enlutada é obrigada, mesmo sem querer, a ter de redirecionar seu amor e dedicação materna de forma concreta e a partir de dor lancinante, pois quando morre um filho, as entranhas viram do avesso. É o nunca mais que se inicia, um caminho atordoante de querer ir juntamente com o filho que morreu e de descobrir como honrar a existência daquele que teve o privilégio de chamar de meu filho”.

Pedaço arrancado de mim

Morte e luto são processos inevitáveis da vida. Eles caminham juntos por entre a rotina, dão as mãos aos medos e inseguranças que carregamos conosco. E, ainda que estejamos preparados e cientes das perdas que teremos ao longo da vida, o sofrimento materno diante de um filho morto é algo impossível de dimensionar. Bem como o que permanece com a mulher depois disso.

“A morte de um filho arranca de vez, sem aviso prévio, nosso coração de mãe que se preparou para doar, dividir e compartilhar seu tempo e disponibilidade de amor juntamente com ele. O que fica depois de uma mãe perder um filho é a saudade sem fim de um projeto interrompido, o amor correspondido e a promessa de cumplicidade e de intimidade que foi frustrada quando a morte veio”.

Dolorosos da mesma forma, Fukumitsu explica que o luto de uma mãe que perde o bebê ainda na gestação é diferente da que deu à luz e viu o filho morrer após o nascimento. “O luto gestacional tem sua especificidade, pois não permite que a mãe tenha registros e lembranças concretas do bebê. A memória pertence ao que se viveu com o filho no seu ventre, território fértil de expectativas que se frustram a partir da descontinuidade da gestação e da dor de projeto interrompido. É um luto dual, é compartilhamento da relação mãe e bebê”.

“Quando um bebê nasce, a relação dual é concretamente cortada, mas não encerrada. O corte do cordão umbilical é concretização e anúncio de que os horizontes do filho se ampliam. Aquilo que pertencia à relação íntima entre dois seres expande para outras relações: com o pai, familiares e mundo. Nesse sentido, quando um filho nasce, ele se torna do mundo e as vivências e memórias serão tecidas a partir das experiências do próprio filho e não mais da relação dual entre mãe e feto”.

O luto de uma mãe que perdeu o filho no parto é diferente porque o nascimento é a concretização da existência dele - e, consequentemente, da ausência ainda mais forte
O luto de uma mãe que perdeu o filho no parto é diferente porque o nascimento é a concretização da existência dele – e, consequentemente, da ausência ainda mais forte (Foto: Getty Images)

A família como rede de apoio (mais necessária do que nunca)

Se o luto é inerente à existência, então o amor também é. Karina, em suas explicações, cita o psiquiatra britânico Colin Murray Parkes. Autor de diversos livros sobre o sentimento que fica quando perdemos alguém, Parkes diz que o luto é o preço pago pelo amor. Tudo é predestinado ao fim: a vida, os relacionamentos, os ciclos humanos e da natureza. O fim é a consequência mais natural do ato de viver. Mas, para quem passa pela experiência de perder um filho, o vazio crescente é um desafio.

Acima de tudo, viver o luto é fundamental – principalmente quando falamos de mães que perderam seus filhos. “Nesse caso, o vínculo entre eles tem seu início antes mesmo do nascimento de um filho, ou seja, a partir do planejamento de se ter um filho, durante a gestação, expectativa da chegada do bebê, a escolha do nome e todo esse projeto”, explica a Dra. Karina. “Expectativas se tornam frustração e decepção quando ele é interrompido e, todo este ciclo pode se tornar complicado”.

A perda de um filho vira de cabeça para baixo o entendimento do que é certo e errado, justo e injusto. “A fé vai embora juntamente com o filho que partiu”. O grande trabalho que essa mãe e a rede de apoio dela terão, a partir disso, é resgatar a fé para conseguir seguir adiante. “Como escrito em meu livro ‘A vida não é do jeito que a gente quer’, ‘ter fé é descobrir como honrar o sofrimento enquanto restauramos nossas vidas e nossa esperança de viver’”.

Cabe à família dessa mulher ajudar no processo de reconstrução de identidade após a perda de um filho. Contudo, é preciso tato para não passar por cima de limites. “A melhor maneira de ajudar uma mãe enlutada é não achar que sabemos mais sobre as necessidades dela do que ela mesma. Não podemos subestimar o poder de uma mãe e de uma mulher que sofre pela dor visceral de ter seu filho morto em seus braços. A melhor forma de cuidar é ajudá-la a realizar a travessia com ela, acompanhando-a nas tarefas mais simples para as mais complexas e que exigem maior esforço”.

Karina ressalta que a preocupação é bem-vinda, mas o excesso dela, tornando-se uma invasão, precisa ser evitada. “É natural que a mãe tenha vontade de ir embora juntamente com o filho morto”. Sim, existem momentos em que será necessário realizar uma intervenção. “Devemos ficar atentos e não subestimar o poder materno de extrair flor de pedra. O profissional da saúde será sempre bem-vindo quando se perceber necessidade de a mãe de não estar sozinha nesta travessia do luto. O impacto da morte de um filho sempre é devastador e por isso, quando a mãe sinalizar que precisa de apoio externo de profissionais, é a hora de buscá-los”.