Pressão X diversão: como incentivar seu filho no esporte sem cobranças e com foco na saúde mental

As Olimpíadas de Tóquio despertaram maior interesse do público infantil na prática do esporte. Mas até que ponto a prática é 100% saudável e como os pais devem ficar atentos para encontrar um equilíbrio mental entre a pressão e a diversão da criança?

Resumo da Notícia

  • Nas Olimpíadas de Tóquio 2020, o espírito olímpico que move os atletas também mexeu com a cabeça das crianças e serviu de inspiração
  • O esporte é importante desde a infância e pode ser enxergado como um futuro de vida
  • Mas até que ponto a prática é 100% saudável e como os pais devem ficar atentos para encontrar um equilíbrio mental entre a pressão e a diversão da criança?
  • Em entrevista exclusiva à Pais&Filhos, a psicóloga de Rayssa Leal, Juliane Fechio deu dicas de como orientar meninos e meninas que estão entrando no ambiente esportivo

Cientista, astronauta, jogador de futebol, artista, professor ou princesa. As crianças sonham com as mais diversas coisas que desejam ser quando ficarem mais velhas. E elas costumam se espelhar em alguém ou algo que as inspire. Nas Olimpíadas de Tóquio 2020, o espírito olímpico que move os atletas também mexeu com a cabeça das crianças. O desempenho deles pode servir como inspiração e estímulo para que seu filho comece um esporte ou até mesmo enxergue uma modalidade como futuro de vida.

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Sempre com um sorriso no rosto e muita diversão, Rayssa Leal, de 13 anos, a fadinha do skate que conquistou a medalha de prata para o Brasil no Skate Street nos Jogos Olímpicos foi responsável por despertar o interesse de milhares de meninas Brasil e mundo afora a praticarem o esporte. O Google registrou um aumento repentino nas buscas relacionadas ao tema entre os dias 25 a 31 de julho deste ano, período em que aconteceu a disputa na modalidade Skate Street em Tóquio.

Simone Biles levantou um debate importantíssimo sobre a saúde mental dos atletas nas Olimpíadas (Foto: Reprodução/ Instagram/ @sfglugano)

Do outro lado, a ginasta Simone Biles, de 24 anos, levantou um debate importantíssimo sobre a saúde mental dos atletas nas Olimpíadas ao deixar de participar de três finais da modalidade para cuidar do seu bem-estar emocional e psicológico. “Definitivamente trazendo uma luz para a conversa sobre saúde mental, é algo que as pessoas passam por muitas coisas e é meio que empurrado para debaixo do tapete. Eu sinto que não somos apenas entretenimento, somos humanos também e temos sentimentos”, disse ela, quando foi questionada se sua sétima medalha Olímpica ou a conversa que ela desencadeou em Tóquio foi mais importante.

Esses dois pontos extremos levantam um sinal de alerta sobre o esporte na infância: até que ponto a prática é 100% saudável e como os pais devem ficar atentos para encontrar um equilíbrio mental entre a pressão e a diversão da criança?

Como encontrar um equilíbrio mental entre a pressão e a diversão da criança no esporte? (Foto: Getty Images)

Esporte para a vida

“O interesse das crianças pelo esporte é algo muito positivo. Então elas devem ser inseridas em escolinhas de esporte e devem ter a oportunidade de vivenciar várias modalidades esportivas, e posteriormente seguir com a modalidade que ela escolher ou o que ela demonstrar mais talento”, explica a psicóloga esportiva Juliane Fechio, mãe de Thayla, de 12 anos, que atua na Confederação Brasileira de Skate (CBSK) e é psicóloga de Rayssa Leal.

Ela também defende a importância da presença do esporte desde a infância: “Os estudos mostram que crianças que são fisicamente ativas têm maior chance de se tornar adolescentes e adultos fisicamente ativos também, e isso é muito importante. Então muitas crianças vão querer um skate, por exemplo, por terem visto as crianças nas Olimpíadas”.

A atividade física bem dirigida proporciona inúmeros benefícios desde os primeiros anos de vida. Lilian Helena Dias, filha de Alceu e Helena e ortopedista pediátrica explica que para favorecer o crescimento, porém, o esporte precisa respeitar a idade e as fases do desenvolvimento da criança. Já a opção por um treinamento intenso deve ocorrer, em geral, bem mais tarde.

O grande problema é quando a competitividade ultrapassa o limite saudável, podendo despertar constantes sentimentos de rivalidade, além de frustrações (Foto: iStock)

Competir ou não competir, eis a questão

A introdução das crianças no mundo do esporte as ensina desde pequenas sobre o espírito de competição. Especialistas defendem que do ponto de vista psíquico e físico, é saudável que as crianças participem de situações competitivas, sempre com equilíbrio. “Nestes momentos, as emoções reprimidas de amor e ódio encontram uma expressão mais plena, em direção mais equilibrada e aceita socialmente. Em certo grau é um traço de caráter normal e útil”, explica a psicóloga Bruna Puga de Souza, filha de Marilene e Wagner.

O grande problema é quando a competitividade ultrapassa o limite saudável, podendo despertar constantes sentimentos de rivalidade, além de frustrações, tendo em vista que não se pode ganhar sempre todas as competições. As crianças precisam aprender a enxergar o esporte não apenas como uma atividade competitiva, mas como algo que pode trazer benefícios.

“A maioria não será campeão olímpico. Grande parte das crianças não conseguirá ser um atleta de elite, é realmente uma minoria que consegue chegar lá, e está tudo bem. O esporte contribui também para a criança ser campeã na vida e isso vai ser sempre muito importante. Ele vai ajudar a criança a compreender e lidar com as regras, ensina a ganhar e perder, a cooperar, a ter disciplina. Então o esporte vai ajudar na construção do cidadão, por isso é tão importante que as crianças se envolvam com isso”, pontua Juliane.

Inteligência emocional para o esporte

Juliane também defende que participação e acompanhamento dos pais nas atividades dos filhos é de extrema importância. “As crianças pequenas associam muitas vezes o sucesso esportivo ao amor dos pais, e nós precisamos sempre estar atentos a isso. As crianças que se envolvem em competição precisam ser ensinadas desde pequenas a lidarem com a frustração e essa questão de que pouquíssimos conseguem vencer, e sempre nós temos que ensiná-las a ter um plano B”.

A criança também sente a necessidade de ser amada e isso tem que ser demonstrado com atitudes e palavras. Frustrações são normais e devem ser respeitadas e apontadas como algo que nos trás crescimento. Segundo Bruna, em casos de derrotas, é preciso mostrar às crianças que elas não serão menos amadas por isso e que não é possível ganhar e ser bom em todas as coisas.

Em casos de derrotas, é preciso mostrar às crianças que elas não serão menos amadas por isso (Foto: iStock)

Para David Esteves, pai de Bruno e Juliane, e cardiologista do Hospital Federal dos Servidores do Estado, é essencial que a atividade física tenha um caráter lúdico, associado ao desenvolvimento psicomotor da criança. “Quando está competindo, a criança busca extrapolar seus próprios limites. Com isso, a criança corre o risco de perder o parâmetro do bem-estar”.

Equilíbrio entre pressão X diversão

Por trás das incríveis participações em competições e performance dos atletas, existe muito treino e também muita cobrança. O ambiente esportivo é repleto de pressão e pode exigir comportamentos mais maduros das crianças. “As crianças atletas amadurecem mais cedo. Muitas vezes precisam morar em alojamento, viajam com certa frequência e precisam apresentar comportamento de adulto antes de atingir a puberdade, então acabam tendo certas responsabilidades que são típicas do ambiente esportivo, como ter horas de sono específicas, se alimentar adequadamente, entre outras coisas”, explica Juliane.

“As crianças, num primeiro momento, querem se divertir, fazer o que gostam, ficar com os amigos e competir. A competição em si sempre traz um pouco de ansiedade e de insegurança, mas isso é normal, só que normalmente a cobrança vem do entorno da criança, principalmente os pais, mas não somente. Os patrocinadores, os agentes, os empresários, os treinadores… muitos pais exercem uma cobrança exagerada, alguns depositam seus sonhos nas crianças, e muitas acabam perdendo o prazer de competir por não conseguir lidar com isso, porque sofrem”. Por conta disso, a psicóloga fez um alerta: “Os pais devem sempre servir de apoio e tomar muito cuidado com as cobranças exageradas”.

Marcela Lisbôa Leal, filha de Durval e Rachel, psicóloga do Núcleo Estadual do Ministério da Saúde no Rio de Janeiro, se preocupa com o amadurecimento precoce das crianças. A especialista disse que os responsáveis devem ficar atentos a sinais de insatisfação dos filhos com a prática esportiva: “Esses sinais vão variar. Os pais podem observar como as crianças se comportam momentos antes, durante e após a prática da atividade e se expressam algum tipo de descontentamento”.

Saúde mental em primeiro lugar

Juliane ressalta a importância da saúde mental para os atletas e como estes cuidados podem influenciar diretamente no desempenho deles, como foi o caso de Simone Biles: “Infelizmente, só percebemos a importância da saúde mental quando não estamos bem. Quando o atleta não está mentalmente bem, o rendimento dele será prejudicado, e só conseguem desenvolver habilidades psicológicas em sua plenitude, os atletas que estão mentalmente saudáveis”.

Simone desistiu de algumas competições por não estar bem mentalmente (Foto: Reprodução/ Instagram/ @femfoundryapp)

“Existem muitos atletas que acabam desistindo do esporte em função do esgotamento mental, e muitas vezes as pessoas nem ficam sabendo disso. Nós precisamos vencer certos tabus que envolvem a saúde mental. Qualquer pessoa pode adoecer mentalmente. Pode desenvolver, por exemplo, depressão, transtorno de ansiedade, transtorno alimentar, e procurar ajuda é absolutamente normal, inclusive é o que deve acontecer”, completa.

Juliane reforça em dizer que não há problema algum em admitir que não está bem psicologicamente e procurar ajuda profissional. “Qualquer atleta pode em algum momento sentir-se mentalmente esgotado e fazer tratamento é normal. Buscar inclusive o tratamento medicamentoso quando necessário tem que ser algo considerado normal. Nós temos que acabar com o estigma que envolve o tema. Assim como fazer preparação psicológica para o esporte não significa que o atleta tem qualquer problema, significa apenas que ele se preocupa com uma parte importante do processo de treinamento”.

Cuidando da cabeça do seu filho

Imersos em um meio de alta pressão e cobranças, as crianças precisam priorizar a saúde mental, e é aí que entra o acompanhamento psicológico. A Psicologia do Esporte contribui para que o atleta possa aproveitar as competições com menos estresse, menos ansiedade e melhor bem-estar. O psicólogo vai prepará-lo mentalmente buscando a excelência esportiva, mas sem deixar de olhar para as questões emocionais e humanas. O funcionamento conjunto das habilidades físicas e preparação psicológica, contribuem para a obtenção do desempenho de sucesso no esporte.

“O acompanhamento psicológico ajuda a minimizar os possíveis danos causados pela especialização esportiva precoce, ajuda na orientação dos pais e dos treinadores, de forma a buscar minimizar possíveis cobranças de resultado, e desenvolve na criança habilidades psicológicas importantes para enfrentar as adversidades presentes no ambiente esportivo”, explica Juliane.

Durante as olimpíadas, Rayssa Leal participou da competição de forma descontraída, mesmo carregando o peso de ser a mais nova  representante do país em um evento mundial. Juliane conta que o comportamento da menina foi fruto de empenho e dedicação da equipe que a auxiliou em todas as etapas, até à conquista da medalha de prata para o Brasil.

Rayssa contou com o apoio da equipe e acompanhamento psicológico (Foto: Reprodução/ Instagram)

“A forma como a Rayssa se comportou durante a sua participação nas Olimpíadas, que chamou a atenção do mundo, é como deveria ser o esporte para as crianças. Ela estava visivelmente feliz e se divertindo por estar lá. O comportamento dela foi o resultado de um conjunto de coisas: do acompanhamento psicológico realizado desde que ela entrou para a seleção, uma preocupação da CBSK- Confederação Brasileira de Skate, desde o início, não somente com ela, mas também com os pais e com todos os outros atletas, o apoio de toda a Confederação para que ela estivesse bem, o acompanhamento do fisioterapeuta fazendo ela se sentir segura fisicamente, e o apoio da família. Então eu sempre falo que o sucesso é sempre o resultado de um conjunto de profissionais”.

Sem cobranças

Se o seu filho está começando a praticar esportes ou tem o sonho de se tornar um grande atleta profissional, Juliane dá dicas sobre como orientar a criança e para que você também fique de olho em encontrar o equilíbrio entre a prática do esporte e a diversão:

  • Apoie o sonho da criança, mas deixe que ela tenha uma vida o mais próximo do normal possível
  • Faça com que ela tenha tempo para brincar, para estudar e estar com os amigos que não sejam somente os do ambiente esportivo
  • Ensine à criança que é importante ter um plano B, e isso requer o incentivo e a dedicação aos estudos.
  • Nunca faça comparação de desempenho e não deposite expectativas exageradas
  • Ao contrário disso, sejam sempre grandes incentivadores