Família

Relato de adoção: “Ele sempre foi nosso filho, só demoramos para nos encontrar”

Raquel tentou por muitos anos engravidar - Bruno Marçal
Bruno Marçal

Publicado em 19/10/2018, às 13h32 - Atualizado em 21/10/2018, às 15h55 por Jennifer Detlinger, Editora-chefe | Filha de Lucila e Paulo


A decisão pelo caminho da adoção vai muito além do desejo de construir uma família. É estar aberto para um filho que foi gerado em outra barriga e sentir-se grávida no coração. Antes de tudo, o amor e o altruísmo movem o desejo de adotar. E basta olhar para a família Gomes Badue para perceber a definição mais clara desses sentimentos.

Na casa de Raquel e Gustavo, eram apenas os dois ao longo de 27 anos. O casal mora junto desde o primeiro dia em que se conheceram, quando ela tinha 18 anos e ele, 22. Como o desejo de aumentar a família sempre existiu, eles perceberam que tinham um vazio e começaram as tentativas para engravidar. “Um dia, notei que havia algo estranho, pois, mesmo sem utilizar nenhum método contraceptivo, eu não engravidava”, conta Raquel. O casal passou por tratamentos e algumas perdas gestacionais até perceberem que o caminho destinado a eles era outro: serem pais por adoção. Pais de Pedro.

Eles deram entrada ao processo com a documentação necessária no dia 17 janeiro de 2013 – mesma data em que nascia Pedro, em uma maternidade de São Paulo. “Tenho a certeza de que não foi só uma coincidência. Ele sempre foi nosso filho, só demoramos para nos encontrar”, relata Raquel.

(Foto: Bruno Marçal)
Pedro nasceu no mesmo dia em que o casal entrou com os papéis para adoção (Foto: Bruno Marçal)

Durante o processo, o casal participou de um grupo de apoio à adoção e levou um ano para estarem habilitados. Depois de três anos na fila, receberam uma ligação do fórum. Era a notícia de que havia uma criança disponível para ser adotada. “A emoção foi indescritível. No fórum, logo que olhei o Pedro em uma foto, bem velhinha e granulada, já soube que ele era nosso filho”, conta a mãe.

O aprender do pertencimento

O casal passou 22 dias indo e voltando ao abrigo de Pedro para visitá-lo, até que ele pudesse ir de vez para a casa da família. Enquanto isso, montaram o quarto, compraram as roupas e brinquedos do filho, tudo com um misto de medo, ansiedade e carinho. A primeira vez que Pedro entrou na casa, olhou tudo rapidamente e ficou paralisado. “Quando chegou no seu quarto, ele não tocou em nada, afinal ainda não sabia o que era pertencer a um lugar com suas próprias coisas, sua casa, sua família”, conta o pai.

Nesse mesmo primeiro dia, Pedro também entrou no quarto do casal e logo saiu – demorou mais de duas semanas para que ele se deitasse na cama dos pais. “Fui convidando-o, aos poucos, para brincar e assim ele foi se entregando. Foram muitas lutas com meias nas mãos, estacionamentos fictícios com carrinhos atrás das almofadas e tantas outras que, aos poucos, nos conduziu a um conhecimento maior um do outro”, relembra Raquel. O primeiro ano foi de adaptação para todos.

(Foto: Bruno Marçal)
O menino tinha três anos quando foi adotado por Raquel e Gustavo (Foto: Bruno Marçal)

A casa da família Gomes Badue sempre foi cheia de cores e formas. Raquel é artista plástica e imprimiu personalidade e estilo a cada ambiente, parede e canto. Mas hoje, não são somente os quadros, vasos e livros que colorem o ambiente. Do banheiro à sala de estar, tudo ganhou mais vida e cores.

Com os primeiros dias de Pedro em casa, Raquel e Gustavo mal dormiam. Desde então, a porta do quarto deles fica entreaberta, com a luz acesa no corredor e os olhos e ouvidos atentos para qualquer resmungo, pesadelo ou mesmo um bocejo. Eles perceberam que levaria um tempo para que o menino tivesse segurança de estar em seu novo quarto e passaram a redescobrir o mundo com ele. Entre tantas novas informações e emoções, Pedro foi crescendo e construindo um vínculo familiar e de amizade com quem estava ao seu redor.

Após oito dias de sua chegada, Raquel e Gustavo foram chamados de mãe e pai pela primeira vez. “Foi um momento inexplicável de tanta alegria, de realização. Um êxtase a nossas almas”, lembra Raquel. Uma criança com 3 anos de idade – com este mesmo tempo de vida em um abrigo -, é um livro aberto mas não em branco. Vem com sua bagagem. E a de Pedro, veio com o desejo de ter uma família, de amar e ser amado.

A casa é nossa

O casal percebeu que o filho estava realmente se sentindo em casa quando convidou um amigo para ir até lá. “Ele pôde, enfim, ter um lar para receber quem gosta. Eu não consigo mais me ver sem ele. Ele ocupa meu corpo, minha casa e meu coração. Antes, o tempo era meu. Hoje, o tempo é nosso”, conta Raquel.

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