Resiliência: saiba a importância de estimular essa habilidade no seu filho desde cedo

Esse termo ganhou ainda mais destaque durante o período de pandemia. Entenda a necessidade de ensinar essa atitude para a criança, e como ela se tornou ainda mais essencial no século XXI

Resumo da Notícia

  • A palavra resiliência ficou muito em alta nesse período de pandemia, mas você sabe de fato o que ela significa?
  • Conversamos com especialistas e pais para entender como aplicar essa habilidade na prática
  • Entenda porque essa característica é ainda mais essencial no século XXI

Resiliência. Quantas vezes você já escutou essa palavra nos últimos tempos? “É preciso ser resiliente”, “Quem tem resiliência está mais capacitado para lidar com os desafios da vida”. É fato que esse termo está na moda e ganhou ainda mais força durante o período de quarentena por conta da pandemia do coronavírus. Mas afinal, você sabe o real significado dessa palavra? É importante começar explicando que ela vai muito além de um conceito, mas é um hábito, um exercício constante e diário.

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A resiliência é uma habilidade fundamental para todos no século XXI (Foto: Shutterstock)

Nas definições do dicionário, é possível encontrar explicações como “propriedade dos corpos que voltam à sua forma original, depois de terem sofrido deformação ou choque”, “capacidade de rápida adaptação ou recuperação” e “capacidade de superar, de recuperar de adversidades”. Daniella Freixo de Faria, psicóloga, mãe de Maria Luisa e Maria Eduarda, resume em duas frases: “A resiliência é a capacidade da pessoa em lidar com a realidade com flexibilidade. Uma pessoa resiliente tem recursos para se ajustar à realidade que se apresenta”.

A especialista explica que essa habilidade permite interagir e viver de forma responsável por suas atitudes. E é assim que se educa para a vida, que nunca é demais lembrar, não é uma continuação dos desejos e planos pessoais. A parentalidade em si é uma área bastante idealizada, principalmente em relação à maternidade, porém é necessário quebrar esses estereótipos e encarar a vida como ela é. “Na vulnerabilidade que podemos aprender juntos e convidar as crianças a sua responsabilidade e ao aprendizado. A melhor forma de estimularmos a inteligência emocional é sermos reais com nossos filhos”, defende.

Nesse contexto, o acolhimento é uma peça chave. E ele não significa resolver a questão pela criança ou fazê-la parar de chorar, muito pelo contrário, a psicóloga pontua que isso acontece quando você escuta e valida os sentimentos dela, afirmando que está junto dela sempre. Dessa forma, seu filho não se sentirá errado por se sentir daquela maneira e estará à vontade para pedir ajuda quando necessário. “Nesse aprendizado de todo dia, o futuro que tanto gera preocupação não estará mais dependente da garantia do adulto e, sim, sendo construído pelo bom plantio de todo dia da própria criança”.

Aqui e agora

Bianca Solléro, psicóloga, arte-educadora e arteterapeuta, autora do livro “Pare de perguntar o que seu filho vai ser”, mãe de Elisa e Filipe, também entende que esse é um estilo de vida mais leve para toda a família e conta: “É mais importante falar de si do que interpretar as emoções das crianças para elas. Ou seja, é mais didático dizer ‘eu sinto ciúmes quando…’ do que nomear para a criança que ‘ela sente ciúmes quando…’”. A especialista compreende a resiliência como fundamental para viver de forma saudável e apoia que seja abordada o quanto antes.

“Ensinar esta habilidade na infância faz toda diferença, pois é neste período que temos uma maior plasticidade cerebral, ou seja, quando existe maior capacidade de apreender estímulos e experiências”, justifica. Buscar a resiliência é romper barreiras e foi justamente o rompimento de uma que trouxe esse discurso tão forte em 2020 e 2021, segundo Bianca. “No antigo contexto (ou ‘antigo-normal’), nos era possível viver num modo mais automático e, talvez por isso, a resiliência não nos cutucava tanto quanto agora. A pandemia forçou a todos uma mudança estrondosa no modo de viver, conviver e produzir. A resiliência é o que permite às pessoas se adaptarem a este novo contexto com realismo e esperança, sem negar fatos evidentes”, coloca.

Esse período escancarou a fragilidade e ao mesmo tempo prepotência frente à vida e segue sendo um convite a humildade de refletir e aprender com essa situação. Sendo assim, fica ainda mais evidente a necessidade dos pais serem os exemplos. Não, nada de perfeição, o que seu filho realmente precisa é de realidade, que envolve demonstrar que, às vezes, está triste, com raiva, cansado, assim como feliz e empolgado em outras. “Pais ou mães apáticos apresentam um ideal frustrante do que é ‘ser adulto’”, expõe a arte-educadora.

A cantora, compositora, atriz e colunista da Pais&Filhos, Negra Li, mãe de Sofia e Noah, também enxerga dessa forma e disse que o isolamento trouxe um ponto a mais: “Não temos fuga, não temos pra onde correr. Muitas vezes quando passamos por algum desafio, recorremos a uma visita na casa de amigos, bar, cinema, que são válvulas de escape. Nesta situação, estamos ‘presos’, limitados e temos que buscar artifícios dentro de nós mesmos”. Aline Barbosa, mãe solo de Laura, Vicente, Joaquim e Antônia, professora, e criadora de conteúdo digital no perfil @maecrespa, reforça esse ponto de vista ao procurar se manter positiva diante de tudo que está acontecendo, mas garante: “Pode parecer em um primeiro momento que não há solução, mas, se não há, podemos criá-la”. Segundo ela, a empatia é fundamental para se colocar no lugar do outro e regar o amor pelo próximo diariamente. As cobranças existem e, na grande maioria, vem de si mesma, porém é necessário entender que as frustrações fazem parte do caminho, e isso, desde pequenos.

Vivendo intensamente

O psicanalista, professor Titular em Psicanálise e Psicopatologia do Instituto de Psicologia da USP, Christian Dunker, pai de Nathalia e Mathias, entende que a rotina do dia a dia já traz diversas oportunidades para ensinar às crianças sobre resiliência. Vale se questionar: qual a sua reação ao ser contrariado? Grita? Fica nervoso? Ou reage de forma a transformar uma reação em ação? É essa a história que você irá transmitir para o seu filho. “É preciso tempo, em que a gente se deixa afetar e quanto mais profundamente e qualitativamente você se afeta, melhor é a qualidade da tua resposta em termos de emoção e sentimento, porque você pode se dedicar às qualidades mais complexas que estão te afetando e portanto mandar uma resposta mais específica”, assegura.

Não é uma corrida de quem chega mais rápido. É um processo, então se permita sentir o que estiver aí. E não tente esconder do seu filho esse sentimento, assim ele também irá reconhecer quando acontecer com ele. É comum que os pais tentem evitar certos afetos nas crianças, de acordo com Christian, mas todos os afetos precisam ser vividos em profundidade. Aquela grande derrota é essencial para o aprendizado. “Nesse momento, é importante que os pais ajudem ela a interpretar o que aconteceu e que seja de preferência interpretações complexas e inteligentes. Não que qualifiquem como: você é burra, ou a culpa é sua. Mas uma resposta de análise da situação que busque a excelência, que busque olhar para aquilo que não pôde ser visto ou reconhecer fatores imponderáveis, como levou azar. Tudo isso vai fortalecendo a resiliência, principalmente quando a derrota não é associada com uma dimensão moral bruta, quando a derrota não fala de quem você é, mas de como você jogou, de como você fez”, comenta.

A pandemia só deixou ainda mais evidente a necessidade de estimularmos os filhos a serem resilientes (Foto: Shutterstock)

Pessoas mais resilientes são mais capazes de resistir e aproveitar produtivamente mudanças tanto positivas quanto negativas e esse é um fator imprescindível para a inteligência emocional. “É uma condição para proteção da saúde mental”, completa. Escutar a si mesmo é o primeiro passo para escutar os outros e é preciso saber lidar com as próprias questões internamente. Tatiane de Sá Manduca, psicóloga clínica e autora do livro “Valida-te”, mãe de Mateus, declara: “Nós, adultos, temos certa dificuldade de frustrar a criança diante de impossibilidades. Isso faz com que ela não crie uma narrativa própria para lidar com perdas e falhas, que são tão comuns à vida.

Perder faz parte! Ganhar também! E sustentar a confiança que nem sempre ela triunfará faz parte para o amadurecimento psíquico”. A dor existe, mas não devemos estar presos a ela, é necessário se reinventar e a psicóloga menciona que isso só é possível vivenciando o sentimento e legitimando-o.

Hoje e para sempre

Beto Bigatti, pai de Gianluca e Stefano, colunista e embaixador da Pais&Filhos, autor do livro “PAI MALA, relatos sinceros de afeto, vínculos e imperfeições que não estão nos manuais”, entende que resiliência é a essência da pandemia: “Reconhecer nossa fragilidade ao olhar para dentro de si é o primeiro passo para entendermos este momento. E conseguirmos olhar para frente”, porém complementa que essa habilidade vai muito além desse período: “Saber se adaptar às dificuldades e ao que elas causam em nós é uma questão de sobrevivência”.

Já Nanna Pretto, mãe de Gabriel, Rafael e Luisa, jornalista, colunista e embaixadora da Pais&Filhos, viveu isso na prática ao engravidar ano passado. “Descobri em abril, nós já estávamos em isolamento e tivemos que mudar muitas regras de convivência em casa, porque não tínhamos resposta do que era uma gravidez na pandemia”. Ela também menciona a adaptação às aulas online como um exercício prático de resiliência. Apesar dos desafios, Nanna tira uma lição dessa fase: “A gente tem aprendido muito que tem coisas que fogem do nosso controle, que existem coisas que são maiores e mais fortes que a nossa vontade, e muitas vezes a gente precisa abrir mão daquilo que a gente quer por um bem maior. Talvez eu não ensinasse isso tão cedo para os meus filhos se a gente não entrasse na pandemia”.

Silvia Lobo, psicóloga e psicanalista, autora do livro “Mães que fazem mal”, mãe de Adriana, Suzana e Maurício, pontua que ensinamos as crianças a serem resilientes aguardando o ritmo que cada uma tem para realizar os desafios de crescimento pessoal. “Ser resiliente é sempre difícil, em pandemia ou não. Implica em aceitar a postergação dos desejos, dos prazeres, custa”, porém traz inúmeros ganhos: “Conquistar a capacidade de resistir às dificuldades e adiamento de prazeres aparece no sentimento de ter sido apto a resistir, vencer a pressão interior, sentir-se capaz de dominar essa força que nos habita e nos torna reféns”.

Para ela, a checagem de êxito da família no uso da resiliência pode ser feita na aferição da harmonia, sinceridade e respeito dentro de casa. Diferentemente dos termos como quarentena, distanciamento e isolamento social, a resiliência continuará sendo importante quando tudo isso acabar, porque, sim, vai acabar. Em 2020, a resiliência se tornou uma qualidade praticamente imposta e obrigatória para todos, e é ela que irá nos permitir seguir adiante neste ano e nos próximos que virão.

Na prática

Confira algumas dicas para a família propagar a resiliência na rotina a partir de hoje! Lembrando que exemplo é tudo

  • Converse sempre e muito com seu filho
  • Faça perguntas para todos, como “o que aprendemos com as falhas e erros e como podemos agir amanhã para não cairmos no mesmo lugar?”
  • Não julgue o que seu filho está sentindo
  • Acolha os sentimentos, permita que seu filho se expresse
  • Utilize livros, filmes e jogos para introduzir esse tema em casa
  • Peça ajuda quando precisar, seja de amigos, familiares ou profissionais especializados

Corrente do bem

Oito pilares vitais que estruturam a resiliência de acordo com a Sociedade Brasileira de Resiliência (SOBRARE)

  • 1. OTIMISMO: “é a capacidade que temos de enxergar a vida com esperança, alegria e sonhos. É a maturidade de controlar o destino da vida, mesmo quando o poder de decisão está fora de nossas mãos”
  • 2. AUTOCONFIANÇA: “essa é a capacidade de ter convicção de ser eficaz nas ações propostas”
  • 3. SENTIDO DE VIDA: “é ter a capacidade de entendimento de um propósito vital de vida. Promove um enriquecimento do valor da vida, fortalecendo e capacitando a pessoa a preservar sua vida ao máximo”
  • 4. ANÁLISE DO CONTEXTO: “é a capacidade que a pessoa tem de analisar quais são as pistas e identificar os sinais que estão presentes no ambiente, de fazer a análise adequada dos riscos e dos fatores de proteção”
  • 5. LEITURA CORPORAL: “é a capacidade de ler e organizar o nosso sistema nervoso/muscular. Essa capacidade de fazer uma leitura interna e se dar conta do que está acontecendo e se administrar”
  • 6. AUTOCONTROLE: “é a capacidade que uma pessoa adquire em se controlar emocionalmente e fazer a gestão de suas próprias emoções”
  • 7. CONQUISTAR E MANTER PESSOAS: “é a habilidade que a pessoa tem em trazer outra pessoa para perto de si e não só trazer, mas manter essa outra pessoa junta”
  • 8. EMPATIA: “essa área da vida organiza a capacidade de ter uma comunicação com outra pessoa, é olhar para o outro e emitir uma mensagem para ele de tal modo que o outro responda com reciprocidade”