Saúde mental: número de crianças que buscaram ajuda profissional após a pandemia aumentou 54% no Reino Unido

Os dados servem como alerta também para o Brasil. Conversamos com especialistas para te ajudar a perceber os sinais de problemas na saúde mental em casa e o que fazer para ajudar seu filho

Resumo da Notícia

  • Número de crianças em tratamento para a saúde emocional aumentou 54% após a pandemia no Reino Unido
  • Ao todo, são 420 mil crianças que buscaram ajuda
  • Os números servem como alerta também para o Brasil
  • Conversamos com especialistas para te ajudar e identificar o problema em casa e como solucioná-lo

Os dados sobre a saúde mental das crianças após a pandemia no Reino Unido tem causado bastante preocupação. Isso porque, de acordo com o jornal The Guardian, número de menores de 18 anos atendidos nesta área pelo National Health System (NHS), o sistema britânico de saúde pública, cresceu 54% em fevereiro deste ano, em comparação a fevereiro de 2020, pouco antes do início da pandemia de covid-19.

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Os especialistas ouvidos pelo jornal internacional apontaram que, para eles, essa é apenas a ponta do iceberg, já que, além desse elevado crescimento, uma série de crianças que precisam da ajuda psicológica não estão recebendo o atendimento, porque as famílias não buscam ajuda ou por falhas no sistema. Ao todo, são 420 mil crianças e jovens que estão ou em atendimento ou esperando por uma vaga, maior número desde 2016, quando os registros começaram a ser feitos.

Saúde mental: número de crianças que buscaram ajuda profissional após a pandemia aumentou 54% no Reino Unido
Saúde mental: número de crianças que buscaram ajuda profissional após a pandemia aumentou 54% no Reino Unido (Foto: Getty Images)

Para Olly Parker, chefe de assuntos externos da instituição de saúde mental Young Minds, esses números representam uma “crise sem precedentes” na saúde mental das crianças. “O número recorde de crianças e jovens que estão recebendo cuidados do NHS nos diz que a crise na saúde mental dos jovens é uma onda, que está quebrando agora”, ressaltou ele, em entrevista ao The Guardian.

O isolamento social provocado pela covid-19 pode ser um agravante para a saúde mental das crianças, justamente por essa falta de interação com o mundo ao redor e com outras crianças na mesma faixa etária. Apesar dos dados parecerem vir de longe, no Reino Unido, é preciso ficar atento também à saúde mental das crianças aqui no Brasil. De acordo com números levantados pela Seduc (Secretaria da Educação do Estado de São Paulo) em parceria com o Instituto Ayrton Senna, 7 em cada 10 estudantes da rede pública estadual apresentaram sintomas de ansiedade e depressão durante a pandemia de Covid-19. Os dados provavelmente também estão refletindo nesta retomada à “vida normal”.

Por isso, mais do que nunca, é preciso ficar de olho nos sinais que seu filho dá em casa e dar uma atenção a mais para a saúde mental dele, para garantir que tudo está bem. Mas sem desesperos! A gente te ajuda a fazer isso.

Atento aos sinais

A saúde mental não deve ser motivo de preocupação apenas entre adultos ou idosos, as crianças também podem sofrer com distúrbios emocionais. O grande problema é que elas nem sempre conseguem entender o que está acontecendo ou expressar aquilo que estão sentindo. Por isso, os pais e responsáveis devem ficar em alerta para perceber os sinais e se esforçarem para ajudar a resolver os problemas ainda na infância, para que eles não sejam levados ao longo da vida.

A infância deve ser livre de preocupações e tristezas. Ainda que muitas crianças possam passar por experiências negativas, são os acontecimentos sucessivos que, a longo prazo, vão resultar em problemas emocionais e comportamentais no futuro. A psicóloga Ediane Ribeiro, filha de Maria Madalena e Antônio Xavier, apontou alguns sinais que são mais fáceis de identificar para os pais e adultos próximos à criança ficarem atentos:

  • Mudanças bruscas de comportamento sem causa aparente
  • Agitação e nervosismo em situações cotidianas
  • Apatia e falta de disposição para fazer coisas que antes ela gostava
  • Alterações no sono, como insônia recorrente, que podem vir acompanhadas de pesadelos frequentes
  • Tendência ao isolamento e a querer evitar situações de contato com outras crianças ou com adultos
  • Alterações importantes nos hábitos alimentares
  • Queda no desempenho escolar

“Mas é preciso atentar-se também a sinais que podem ser mais sutis. Uma criança que fica muito quietinha e é muito envergonhada, por exemplo, pode ser considerada tímida e na verdade já ser um sinal de alguma questão emocional”, ressalta Ediane.

O Dr. Fernando Gomes, pai de Fernando, Amanda, Fred e Lara diz que alteração do comportamento, na forma em que a criança se relaciona com outras pessoas, no sono, na alimentação, e no desempenho escolar são alguns dos aspectos que podem noticiar problemas relacionados à saúde mental. “Criança deprimida pode roer unha, ser agressiva com ela mesma ou com outras crianças, jogar brinquedos no chão, etc… esses podem ser sinais de depressão que nem sempre se manifestam como tristeza”, diz.

É preciso ficar atento aos sinais de problemas na saúde mental
É preciso ficar atento aos sinais de problemas na saúde mental (Foto: Getty Images)

4 maneiras de promover a saúde mental do seu filho

Conversar, escutar, acolher e dar suporte são atitudes que fazem toda a diferença quando o assunto é promover a saúde mental de crianças e são os primeiros passos a serem tomados para evitar que problemas graves aconteçam.

Os pais têm total influência no desenvolvimento do filho, isso porque são eles os maiores exemplos que a criança vai ter ao longo da infância. “As crianças possuem o cérebro em desenvolvimento e captam muito as variações mentais e emocionais dos adultos que fazem parte da vida dela”, fala Dr. Fernando.

Os padrões de vínculos estabelecidos entre pais e filhos nos primeiros anos de vida são fundamentais para garantir que as crianças tenham saúde mental. “A experiência emocional na infância é um mundo totalmente novo para a criança, que muitas vezes não sabe identificar nem expressar o que sente, por isso a sintonia entre ela e os adultos que a cuidam é tão importante”, afirma Ediane.

1. Criança é criança!

Seu filho precisa brincar, se divertir, se expressar e ser criança! Ainda que tenha algumas responsabilidades, a brincadeira não deve sair da rotina. É brincando que a criança aprende coisas novas, explora o mundo ao seu redor, solta a imaginação e consegue se expressar. Brincar com o seu filho vai fortalecer ainda mais os vínculos entre vocês e dá-lo confiança para se abrir.

Além disso, é brincando com os filhos que os pais também auxiliam na saúde mental da criança, ao oferecerem uma rotina equilibrada de atividades, alimentação e sono. Sem sobrecargas e com espaço para a brincadeira e o lúdico.

2. Abra o jogo

Não esconda o que está acontecendo. As crianças são capazes de perceber quando algo não está bem. Esconder a situação só vai transmitir que você não confia nela e, portanto, ela não pode confiar em você. Culpa e solidão também são sentimentos negativos que podem acompanhar essa questão.

Assim como os adultos, os pequenos também têm sentimentos, a diferença é que muitas vezes eles podem não saber como transmiti-los. Por isso, é fundamental que os pais criem um ambiente confortável para diálogo e estejam atentos para qualquer sinal de problemas. Para isso, valorize as emoções, opiniões e a personalidade do seu filho, mas sempre corrija com amor as condutas ruins de comportamento. Determinar e negociar limites é necessário. “Os limites oferecidos com amorosidade dão à criança a sensação de segurança, de que alguém cuida dela e aumentam a sensação de pertencimento”, aponta a psicóloga.

Com muito cuidado, converse e compartilhe com o seu filho os assuntos familiares que se relacionam diretamente com a vida dele. Responder as perguntas que as crianças fizerem também vai indicar que você se importa e está apto a ajudá-las sempre que necessário.

3. Muito amor envolvido!

O carinho, o toque, palavras de admiração e respeito são fundamentais dentro de um lar. Se sentir pertencente e amado por uma família é o essencial para que uma criança cresça de forma saudável e apta a estabelecer boas relações interpessoais no futuro.

Cada pessoa expressa os sentimentos de forma única e está tudo bem! O que realmente importa é que a criança saiba que a casa dela é um lugar seguro, confortável e cheio de amor. Invista tempo de qualidade para estar ao lado do seu filho e passar bons momentos junto a ele.

Cuidar da saúde mental dos filhos exige autoconsciência de suas atitudes. “São os pais quem representam o enriquecimento possível do estimulo do ambiente externo, já que é em casa que a criança tem o seu desenvolvimento baseado naqueles adultos quem os cuida”, comenta o neurocientista.

Se os pais têm tendência a manifestar problemas emocionais, as crianças podem vir a ter mais facilidade em sofrer o mesmo. “Uma casa onde não haja equilíbrio de relacionamento e preocupação de ensinar a lidar com as questões do dia a dia pode resultar em crianças com déficit de saúde mental e emocional”, ressalta Dr. Fernando.

4. Inteligência emocional

A infância é uma fase da vida cheia de aprendizados. Querendo ou não, a gente sabe que uma hora ou outra o seu filho vai enfrentar problemas como brigas com os colegas da escola, notas baixas ou conflitos familiares. Isso é normal! O seu papel é ensinar a criança a resolver essas situações de forma saudável.

Ajudar o seu filho a desenvolver inteligência emocional é fundamental para que ele aprenda a reconhecer diferentes sentimentos, aprender a lidar com os próprios sentimentos, como medos, frustrações, perdas, e inclusive compreender as emoções do outro.

Além disso, quando os pais fazem tudo pela criança, ela não desenvolve autonomia e pode se tornar uma pessoa emocionalmente dependente. Já quando os filhos são ensinados a buscar soluções, eles aprendem a lidar com os acontecimentos e a ser emocionalmente inteligentes.

Caso a criança claramente apresente sinais de distúrbios psíquicos como depressão e ansiedade, os pais devem procurar um psicólogo, marcar consultas e acompanhar de perto o tratamento do filho. Se a saúde mental for devidamente valorizada na infância, a criança se transformará em um adulto confiante e saudável.