Síndrome da Cabana: entenda o medo excessivo de sair de casa depois do isolamento social

Após tanto tempo de isolamento, a ideia de sair de casa e retornar ao convívio interpessoal pode ser no mínimo preocupante. Mas fique atento aos sinais, pois alguns sentimentos exagerados podem desencadear fobias sociais

Resumo da Notícia

  • A pandemia da Covid-19 obrigou pessoas a manterem o isolamento social
  • A flexibilização das medidas de saúde e o retorno às atividades presenciais tem gerado preocupação
  • Os medos, dúvidas e incertezas estão desencadeando graves distúrbios que afetam diretamente a saúde mental das pessoas

Durante a pandemia, fomos obrigados a permanecer dentro das quatro paredes de nossas casas. Fomos impelidos a ver no contato com outros indivíduos, principalmente os que não fazem parte do nosso círculo mais próximo, um perigo em potencial. Essa conduta foi necessária para cuidar de si mesmo e das pessoas que mais amamos. Mas esse cenário se tornou ainda mais problemático no caso de quem já apresentava dificuldade em estabelecer relações sociais. Na mesma medida em que essas pessoas se sentiram autorizadas a “não ter mais que socializar”, essa permissão ao isolamento também contribuiu para o aumento da ansiedade ou fobia social.

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Após tanto tempo de isolamento, a ideia de sair de casa e retornar ao convívio interpessoal pode ser no mínimo preocupante para muitos. Isso porque a pandemia de Covid-19 provocou mudanças significativas na rotina e deixou marcas irreversíveis em toda a população. Incertezas, medos e dúvidas em relação à doença e aos rumos da vida pós pandemia cercam o pensamento não só dos brasileiros, mas de todas as pessoas ao redor do mundo. Tendo em vista o período de aflição que enfrentamos, as novas flexibilizações nos fazem questionar se realmente estamos prontos para retomada da rotina, livre de máscaras, álcool gel e distanciamento.

Muitas pessoas ainda não estão se sentindo prontas para o retorno ao convício social
Muitas pessoas ainda não estão se sentindo prontas para o retorno ao convício social (Foto: Getty Images)

Mesmo com a garantia das autoridades de saúde, experiências clínicas mostram que algumas pessoas vêm apresentando medo excessivo de sair do modo em que viveram nos últimos dois anos. O fim da obrigatoriedade do uso de máscaras foi um dos temas que se tornou gatilho para pessoas que ainda não se sentem 100% confortáveis em sair pelas ruas sem máscaras, ou estar próximo à outras que não fazem uso da medida de proteção.

É nesse contexto que surge a Síndrome da Cabana. Você já ouviu falar nela? Apesar de não se tratar de uma doença, é um transtorno psicológico que afeta diretamente a saúde mental dos indivíduos e pode abrir portas para distúrbios como depressão e crise de pânico. Por isso, vale dar atenção a esta síndrome e não deixar os sintomas passarem despercebidos.

O que é a Síndrome da Cabana?

A síndrome da cabana é um fenômeno natural que está relacionado à experiência do ser humano em lidar com mudanças bruscas na rotina ou no comportamento, após longos períodos de isolamento social.

Os primeiros relatos associados a esse termo vêm do início do século XX, nos anos de 1900, nos Estados Unidos (Cabin Fever). Nessa época, muitos caçadores norte-americanos passavam longos períodos em suas cabanas esperando o final do inverno rigoroso para voltarem às suas atividades. Ao fim dessa estação, eles sentiam dificuldade de retornar à civilização e ao convívio social. Ou seja, não queriam sair de suas cabanas.

A Síndrome de Cabana também é perceptível no contexto atual da pandemia da Covid-19
A Síndrome de Cabana também é perceptível no contexto atual da pandemia da Covid-19 (Foto: Thinkstock)

Atualmente, a ideia é a mesma, o que muda é o contexto que estamos inseridos. “Trata-se de uma ansiedade ou angústia que neste momento aparece associada ao fato de encontrar com outras pessoas sem o uso da proteção e segurança que as máscaras representavam”, explica o psicanalista Ronaldo Coelho, pai de Ademir e Wania Marcia, analisando o enredo atual da pandemia da Covid-19.

Em casos como esse, a pessoa se vê obrigada a se adaptar a nova realidade de forma rápida e para isso, sair da sua zona de conforto, adequando-se a um contexto diferente e incerto, em que não se tem o controle total da situação. Essa transformação causa alterações significativas no modo de agir e na forma em lidar com as emoções.

Por trás das máscaras 

Quem pensa que a Síndrome da Cabana acomete apenas adultos, se engana. As professoras do Jardim e do 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio Santa Maria, por exemplo, ficaram surpresas com a reação de diversos alunos e alunas, de 3 a 6 anos de idade, que não querem tirar a máscara na instituição, mesmo quando necessário.

Eles parecem se sentir mais seguros quando usam o acessório. “É como um escudo de comunicação, uma armadura. Quando eu peço para um aluno tirar, só para eu poder ver o rostinho, ele diz que sente vergonha. Ao levantar a máscara, ele rapidamente fecha os olhos e cobre o rosto com as mãos”, conta Eliane Lima, orientadora pedagógica do segmento.

Uso de máscaras não é mais obrigatório em Balneário Camburiu
Algumas crianças têm apresentado relutância em tirar as máscaras, mesmo quando necessário (Foto: Getty Images)

De acordo com Ediane Ribeiro, filha de Maria Madalena e Antônio Xavier, psicóloga especialista em traumas, esse comportamento das crianças é comum em um primeiro momento. Isso porque é preciso levar em conta que crianças pequenas passaram grande parte de suas vidas vivendo uma realidade em que o uso de máscaras era obrigatório e necessário para a segurança delas. Então, o cérebro delas associa a máscara à proteção quando estiverem fora de casa e em contato com outras pessoas que não são a família.

“A mascara foi introduzida em um momento muito inicial do neurodesenvolvimento dessas crianças. Elas têm mais tempo de vida com essa experiência do que sem essa experiência. É uma mudança brusca sair de casa, ir para um novo ambiente, conhecer novas pessoas e ainda ficar sem aquilo que para elas se tornou um  símbolo de proteção e segurança”, explica a psicóloga. Inicialmente, esse não é um comportamento necessariamente disfuncional ou preocupante, ele pode ser visto como adaptativo. “A preocupação só tem que vir caso esse conduta perdure”, aponta Ediane.

Nesse momento, as escolas precisam ter muita sensibilidade para não forçar um processo que pode ser natural. A psicóloga sugere que as instituições ofereçam terreno para que essas crianças se sintam seguras no ambiente escolar. Assim, aos poucos, elas próprias se sentirão à vontade para abandonar a máscara. “Estamos com muito cuidado e cautela, trabalhando por meio de histórias e sensibilizações, conversando a respeito, estamos promovendo espaços de escuta e fortalecimento da autoestima. Cuidando para que, além das perdas motoras, físicas, cognitivas não sobre a fragilidade intra e interpessoal e o desejo de ‘invisibilidade'”, frisa Eliane.

De olho nos sinais

A volta a uma suposta “normalidade”, retorno da rotina e tarefas externas, assusta a ponto de você preferir continuar mantendo o isolamento social dentro de casa? Diante do trauma que enfrentamos no atual cenário persistente da pandemia, é até comum levantarmos dúvidas como essa. Mas até que ponto?

Os principais sintomas que uma pessoa que está lidando com a Síndrome da Cabana pode apresentar quando colocado em uma situação de  convívio com vários outros indivíduos são:

  • dificuldade de concentração
  • desconfiança das pessoas
  • tristeza persistente
  • falta de motivação
  • irritabilidade
  • inquietação
  • taquicardia
  • falta de ar
  • sudorese
  • tontura

Alterações de humor, sentimento de angústia, sensação de impotência, perda de memória,  perda ou ganho de apetite, dificuldade para dormir ou excesso de sono e ansiedade são sintomas que merecem cuidado redobrado, pois podem evoluir e desencadear distúrbios psíquicos graves. O psicanalista adverte que certo receio ou desconforto neste momento de retorno à socialização é bastante esperado. A grande questão, contudo, é quando esses sentimentos ultrapassam o limite da preocupação e ganham o caráter de fobia.

Tenho medo de sair de casa! E agora?

A partir do momento em que os sintomas da Síndrome da Cabana são identificados, é fundamental ter a consciência de que esses sentimentos podem evoluir e desencadear distúrbios psicológicos graves. Para que isso não aconteça, o paciente precisa estar disposto a encarar a nova rotina, ainda que ao poucos, com a ajuda profissional e também com o apoio de toda a família.

Esse é um processo lento e gradual — ninguém deve ser forçado a “sair da cabana”. Vale lembrar que as mudanças bruscas de rotina são o gatilho para o início desse distúrbio. Então paciência. O ideal é ir retomando atividades progressivamente, e sempre respeitando as próprias limitações e o próprio tempo.

Para iniciar essa missão, você pode começar observando a rua pela porta ou janela de casa, andar um pouco pela calçada ou até dar uma volta pelo bairro. Mudanças sutis na rotina, com uma saída ao mercado ou levar o cachorro para passear podem te encaminhar, degrau por degrau, para mais perto ao retorno completo à sociedade. Além disso, para impulsionar o desejo de sair da cabana e retornar ao convívio interpessoal, vale lembrar dos bons momentos que você já teve fora de casa, em contato com outras pessoas.

É superimportante consultar profissionais especializados em questões relacionadas a saúde mental e manter o acompanhamento médico. “Um bom processo psicoterápico é o meio mais rápido e efetivo que conhecemos até o momento para tratar esse tipo sofrimento”, afirma o psicanalista.

Aos poucos é possível retomar o convívio social e superar a Síndrome de Cabana
Aos poucos é possível retomar o convívio social e superar a Síndrome de Cabana (Foto: Shutterstock)

É possível evitar a Síndrome da Cabana?

“Acredito que não seja possível evitar essa angústia relacionada à sociabilidade, mas é possível cuidar dela quando identificada”, aponta Ronaldo. A chance de que o momento atual da pandemia apenas foi propício ao aparecimento de uma ansiedade social preexistente é bem alta. Ao ficar dois anos distante dos círculos sociais, é como as pessoas se perguntarem: como eu volto a me relacionar com as pessoas e fazer amigos? Sobre o que conversar? Como agir?

“Nestes casos vamos percebendo que há uma necessidade em retomar situações anteriores, revisitar sentimentos e relações que talvez a pessoa nem saiba que são fundamentais para a construção desses medos presentes. Haverá situações em que as habilidades sociais precisem ser reconstruídas, em outras elas terão de ser construídas pela primeira vez. Teremos sempre um percurso singular para cada paciente, um caminho que respeite seu ritmo, sua história, seus traumas e que considere seus recursos e habilidades. Nesse sentido, o meio de se cuidar de crianças e adultos segue o mesmo princípio, porém irá se adequar às necessidades referentes a cada fase da vida”, diz o psicanalista.