Família

Tamanho família

Tamanho família

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Que a família encolheu, a gente sabe faz um tempo. Mas só saca o que significa de verdade essa diminuição assim que tem filho, olha em volta e percebe que não tem ninguém por perto para dividir as coisas difíceis, compartilhar as bacanas

Por Michaela von Schmaedel, mãe de Manuela, Lorena e Jorge

Só quem já teve um bebê que não pára de chorar de cólica sabe a dádiva que é uma avó ou uma tia chegar e dizer: “Eu cuido dela para você, vai descansar!”. Cada vez mais essa frase soa como algo do século passado.

Aquele modelo familiar, em que os parentes se revezavam nos cuidados com o recém-nascido, seja para poupar a mãe, seja porque é gostoso mesmo receber um novo membro do clã, está mais raro, principalmente, nas classes médias e altas. Lembra da música Família, dos Titãs?: “Papai, mamãe, titia, família, família. Almoça junto todo dia, nunca perde essa mania. Família, família, vovô, vovó, sobrinha. Família, família. Janta junto todo dia. Nunca perde essa mania.” É de 1986, do CD Cabeça Dinossauro. E, para muita gente, soa como uma espécie de fóssil mesmo. Almoçar junto todo dia? Quem é que consegue? Fala sério!

A família encolheu e esgarçou e estamos sentindo os efeitos disso. Se por um lado escapamos de alguns conflitos, como os palpites da sogra ou da própria mãe na criação dos filhos, também nos privamos de muita coisa boa. “O que está acontecendo não é uma destruição da família, mas uma transformação. Hoje, pais, avós e tios estão cada vez mais envolvidos com suas vidas profissionais e sociais. E as crianças ficam em escolas e com babás quase em período integral. Isso faz desaparecer costumes, reuniões entre parentes, trocas de experiências. Vemos cada vez mais surgir a família de modelo nuclear, ou seja, que é composta apenas por pais e filhos”, diz a psicóloga paulista ângela Clara Corrêa, mãe de Vinicius. Isso quando há dois pais. Muitas vezes, a família se compõe de um adulto e uma criança. E ponto.

E essa família pequena, por melhor que seja, fica carente de laços afetivos. A criança não escuta mais as histórias antigas dos avós, não recebe o carinho daquela tia que sabe exatamente do que o sobrinho gosta, não convive com primos e primas.

Enfim, fica sem outras referências importantes em sua vida. “É duro admitir, mas mesmo morando na mesma cidade, meu filho de 4 anos quase não vê os avós, tios e primos. É que todo mundo trabalha e tem horários diferentes. Só nos encontramos mesmo em datas bem familiares como Natal ou festas de aniversário”, conta a publicitária paulista Maria Tereza Gomes, 34 anos, mãe de Patrick.

Nem sempre é por falta de tentar uma aproximação. “De vez em quando, procuro deixar meu filho na casa da minha mãe, para fortalecer o vínculo entre eles e para eu descansar um pouco. Mas logo ela me telefona e diz para eu buscá-lo porque ele está impaciente, chorando, sem saber o que fazer ali”, conta.

Questão de identidade

Ainda não há estudos específicos que comprovem, mas psicólogos e psicanalistas acreditam que, quanto menos vínculos familiares a criança tem, mais difícil será para ela construir sua própria identidade. Isso porque a família nos dá a noção de origem, de pertencimento. Saber o que o avô fazia, do que a mãe gostava de comer, a história de objetos antigos, recordar histórias olhando fotos, tudo isso mostra para a criança de onde ela vem, de que grupo faz parte. Para a psicoterapeuta Maria Lúcia Paiva, mãe de Julia e Luiza, os pequenos hoje estão rodeados de vínculos temporários.

“Na escola, troca-se de classe, de professores, de amiguinhos a toda hora. Em casa, troca-se de babás, de empregadas etc. Parece que tudo é descartável. A família faz esse contraponto, mostra para a criança que existem vínculos que são para sempre, sendo eles bons ou ruins. Um neto que tem contato com o avô percebe bem a noção de geração, do que é passado para frente, de continuidade. E isso é muito importante para que a criança no futuro não sinta um vazio, uma falta de identidade”, explica.

A importância de tios e primos na vida da criança é enorme, mas o papel dos avós é ainda mais forte. “Sua maior importância reside no registro simbólico: afinal, os avós são os únicos que teriam o poder de impor silêncio e respeito aos poderosos pais das crianças, os únicos que guardam registros de atos e artes desses personagens, os únicos a lembrar que um dia eles também foram crianças”, escrevem a psicóloga Lídia Aratangy e o pediatra Leonardo Posternak, no delicioso Livro dos Avós – Na Casa dos Avós é Sempre Domingo? (ed. Artemeios).

E não importa se eles estão presentes fisicamente ou não. As histórias sempre podem ser lembradas pelos pais, que também podem mostrar as fotos antigas, contar coisas engraçadas e também fatos tristes. “Já reparei que minha filha Clara, de 5 anos, adora quando eu conto o que fazia quando era pequena, como meus pais me colocavam para dormir, etc. Ela sempre pede: “Mãe, conta como a vovó fazia você comer legumes! Passamos horas falando sobre hábitos e parentes antigos, nunca pensei que ela iria gostar disso”, diz Daniela Junqueira, 40 anos, empresária do Rio de Janeiro.

Além das conseqüências que o afastamento familiar pode provocar nas crianças, os pais também sofrem muito quando percebem que estão sozinhos com seus filhos. O psicanalista francês Bernard Golse, chefe do serviço de psiquiatria do Hospital Saint Vincent de Paul, em Paris, e autor do livro Sobre a Psicoterapia Pais-Bebê: Narratividade, Filiação e Transmissão (ed. Casa do Psicólogo), acredita que uma das principais causas da depressão pós-parto é a falta de ajuda familiar. Se a mãe não puder dividir suas aflições, seus medos, com alguém e contar com uma ajuda efetiva da família no cuidado com o recém-nascido, as chances de ela desenvolver a doença crescem assustadoramente.

Depois, quando as crianças já estão maiores, a falta da família também pesa. “Combinar uma viagem a sós com o marido sabendo que meu filho ficará sob os cuidados da avó é ótimo. Mas, quando sei que ele vai ficar em casa, só com a babá, já desanimo totalmente. Eu já adiei umas três viagens por conta disso, se minha mãe ou sogra não pode ficar com a Julia, de 3 anos, prefiro ficar em casa e não ir viajar,” diz Juliana Dias, 35 anos, economista de São Paulo.

Claro que deixar os filhos com alguém da família é o ideal, mas é importante não criar um caso quando realmente não há ninguém disponível. Às vezes, é melhor deixar as crianças com uma babá bacana do que com uma avó que, naquele momento, não está a fim de ficar com os netos, seja por que motivo for (até a gente que é pai e mãe às vezes não está a fim de brincar com as crianças, normal…).

Alguns pai acabam mesmo abusando um pouco dos familiares que estão por perto. E aí os problemas e atritos começam. Não dá para exigir, por exemplo, que os avós eduquem os netos ou que os tios dêem broncas nos sobrinhos. São outros tipos de relações. E a educação é sempre obrigação dos pais numa família em que eles estão presentes. Em algumas famílias acontece de os avós terem uma importância fundamental na educação dos netos, quer por morarem perto, por ficarem tomando conta das crianças enquanto os pais não chegam do trabalho ou saem de férias etc.

Avós são pessoas de experiência, podem e devem ajudar, orientar e participar da educação das novas gerações da família à qual deram origem, mas não têm obrigações semelhantes às dos pais. Seu papel social é outro. Hoje é comum vermos avós de idade avançada, ainda atuando na vida profissional, lúcidos, viajando, aproveitando da sua aposentadoria como bem merecem. Querem dividir experiências com os netos, deixar-lhes boas lembranças. “Não devem mesmo assumir um lugar para o qual seus filhos têm muito mais condições de adotar: a de pais”, diz Maria Irene