Família

Tenente Gonçalves fala um mês após perda da esposa: “Minha dor não pode ser maior do que o amor pela minha filha”

O policial militar perdeu a mulher grávida na porta da igreja

Nathalia Lopes

Nathalia Lopes ,Filha de Márcia e Toninho

A família estava muito ansiosa pela chegada de Sophia (Foto: Reprodução/Instagram @tenente_bahia17)

Perder a esposa e precisar ficar sozinho com a filha não é fácil, mas infelizmente aconteceu com o Tenente Gonçalves. No dia 14 de setembro, Jéssica, a noiva do policial militar, teve um AVC na porta da igreja e acabou falecendo, ela está grávida de Sophia, que felizmente resistiu e está se tratando em uma maternidade de São Paulo.

Nós conversamos com o Tenente no dia 15 de outubro para saber como foi esse primeiro mês longe da noiva e como ele e a bebê estão passando por essa situação. A menina nasceu prematuramente, mas está cada vez mais forte e sendo acompanhada de perto pelo pai coruja.

O Tenente começou nossa conversa falando sobre como organiza o dia-a-dia dele, como são as visitas ao hospital e também de como cada vez, os dois estão se conectando. “Sobre a rotina do hospital, eu estou todos os dias lá. A gente está fazendo o método canguru, que ajuda ela ganhar peso, aumentar a conexão pai e filha e se desenvolver melhor. Ela fica tão feliz de escutar minha voz, antes dava até soluço, mas agora eu já chego mais suave, aprendi a falar mais baixo e todos os dias eu canto para ela e quando ela dorme, eu durmo também”.

Tenente e Sophia já mais do que melhores amigos (Foto: reprodução/Instagram @tenente_bahia87)

A dor 

“Os finais de semana, são os dias que eu fico mais triste e então eu fico o máximo de tempo com ela. Toda vez que eu chego no hospital, eu oro para tentar tirar todas as coisas ruins e ficar o mais puro para me conectar com ela. Porque eu aprendi que a minha dor não pode ser maior que do eu sinto pela minha filha. O meu amor pela Sophia é gigante, eu me sinto um leão. Por ela eu faço tudo”.

Ele ainda disse que não tem uma rotina certa, mas não deixa de passar no hospital um só dia. “Por mais que eu não tenha um horário fixo, todos os dias eu estou lá. De manhã e de madrugada”.

O Tenente também conversou como foi todo o processo de descoberta da paternidade e do papel do pai. “A ficha da paternidade caiu muito rápido e eu ainda consegui a licença maternidade judicialmente, então eu to mais aliviado. É algo que eu vou conseguir fazer para ela, acompanhar o desenvolvimento, ler os livros que falam sobre a relação pais e filhos, que vão me ajudar. Eu aprendi que não vou ser pai e mãe, vou ser um ótimo pai”.

(Foto: reprodução/Instagram @tenente_bahia87)

A mãe e a maturidade

O Tenente também nos contou como a memória da Jéssica ou Jess vai ser vista pela filha. “A figura da mãe vai sempre existir, eu fico falando sempre da Jéssica para a Sophia, na encubadora tem fotos nossas, minha e da Jess e eu sempre falo da mamãe. E outra, ela já tem os traços da mãe. Do papai ela herdou mesmo só a cor da pele. Tenho certeza que ela vai parecer com a mãe dela”, começa.

“E é muito engraçado, porque no hospital a maioria das pessoas são as mães. Então eu converso muito com elas, procuro entender e aprender. Minha inteligência emocional é outra, a atenção também. Estou sempre querendo aprender, principalmente quando são os médicos”.

“Quando a Sophia teve trombose e minha sogra me ligou, falando que os médicos queriam falar comigo, ela não tinha entendido o quão grave era aquilo, mas eu sim. Ali eu comecei a orar e graças a Deus ela sumiu tudo, a Sophia está ótima. Não para de ganhar peso. A prematuridade mexe muito comigo, porque um bebê prematuro oscila muito. Um dia ele está bem, outro dia não”.

Flávio e Jessica aproveitaram muito os passos da gestação (Foto: Reprodução/Instagram @tenente_bahia17)

Sobre a Jéssica 

Flávio está bem ativo nas redes sociais, sempre compartilha um pouco das visitas que faz à filha e também compartilha um pouco dos momentos que viveu com Jéssica e ele tem um ótimo motivo para isso.”Minha mãe até fala para eu parar de ver as fotos. Mas quando eu vejo, tenho certeza que aqueles momentos ficaram eternizados, que foi único”.

“Eu relembro para saber que foi real, para fazer a memória dela. Porque quando eu acordo, eu passo a mão no lençol e elas não está lá. Então eu pego o celular e revejo as fotos e dói muito, mas é para preservar a memória daquela pessoa incrível. Para quando a filhinha dela crescer, pensar: ‘Olha a mãe que eu tive'”.

O Tenente mais uma vez ressalta a importância que Jéssica vai ter na vida da filha.”Se bem que eu já estou contado a nossa história para Sophia agora, eu tenho no meu coração que por mais que o cognitivo não entenda perfeitamente, eu sei que ela escuta. Ela sabe que o papai tá ali e que a mamãe está presente, porque está presente no meu coração”.

Ele também contou como vê o desenvolvimento da menina como pessoa:”Quero que a Sophia cresça perto das natureza, perto dos animais. Porque a Jéssica amava isso e eu quero que ela cresça nessa paz. Numa casa gostosa, que tenha plantas, cachorro, com passarinho. Eu quero que ela sinta a natureza. Quero que ela tenha pelo menos esse senso de amor pelo próximo que era muito forte na mãe dela”.

“Eu aprendi com a Jéssica, como tratar uma mulher, e eu pretendo, respeitando o desenvolvimento da Sophia, tratar minha filha da melhor maneira possível. Para ela ter uma referência de como um homem precisa tratá-la. A Jéssica já me fazia conversar com ela desde a barriga. A Jéssica já me dizia que a Sophia ia me ter como referência de homem e já me pedia para ser mais amável, para conversar com ela (ainda na barriga)”

“Claro que eu quero que a minha filha seja inteligente, alegre e uma criança normal, mas a Sophia ainda não conhece e eu quem vou ter que ensinar e mostrar o mundo para ela e é por isso que eu digo que a minha dor não pode ser maior que o amor. Para passar só coisas boas para ela”, desabafa.

Sobre como esses 30 dias foram, ele foi bem sincero e não tem como não se emocionar: “Esse mês foi um mês de recaída, foi um mês que eu conheci pessoas que também lidaram com perdas importantes, foi um mês que eu tive que conversar com os meus alunos e parar de dar aula. Mas eu tive que usar o discurso que fazia nas aulas e aplicar na minha vida”.

“E para mim, é importante quando eu falo da minha dor para as pessoas porque ali eu tento passar um pouquinho do que eu vivi, para que as pessoas possam ser mais gratas. Se temos problemas, precisamos resolver. A Jéssica só queria ter os problemas dela também, para resolver do meu lado. Ela lutou e o coração dela ainda bate até hoje, isso é outra coisa que eu vou ensinar para a Sophia: O coração da mamãe tá batendo até hoje”, encerra.

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