Turbilhão de sentimentos: Miá Mello abre coração sobre mudanças com maternidade

Ela fala com leveza, realidade e humor sobre o turbilhão de sentimentos que transformam uma mulher após a maternidade: “filho é a coisa mais incontrolável que pode existir nas nossas vidas”

Resumo da Notícia

  • Miá Mello fala sua visão sobre a maternidade
  • Ela é responsável pelo show "Mãe Fora da Caixa"
  • Mostra como é possível lidar com a carreira e os cuidados com a família

Família e trabalho. Esses dois pilares estão totalmente ligados na vida de Miá Mello e formam o combustível para engrenar uma vida com os filhos Nina, de 11 anos, e Antônio, de 3. O exercício de ser mãe a transformou em uma mulher muito mais potente. Presença confirmada no 9° Seminário Internacional Pais&Filhos, a atriz e humorista fala sobre a relação entre carreira e maternidade depois de ficar em cartaz com o monólogo “Mãe Fora da Caixa”, permeando entre sentimentos como frustração, culpa, amor e felicidade.

Miá Mello conta sua visão sobre a maternidade (Foto: Arquivo Pessoal)

Filho é sinônimo de felicidade? MIÁ MELLO: Essa é uma ideia muito romântica. A felicidade é algo particular e individual. Ficamos em busca de uma coisa que é tão difícil de ser atingida, porque contempla muitos fatores e coisas que estão ao nosso redor que não temos como controlar. Não dá pra depositar a definição da felicidade em um só relacionamento. É claro que um filho pode vir a trazer felicidade, como também pode trazer tristeza, irritação, responsabilidade, cuidado, noites sem dormir, preocupação – todos os sentimentos estão englobados. E essas são coisas que funcionam pra somar na nossa felicidade. É o que completa a gente.

O que mudou em você como mulher depois da maternidade? MM: Foi um verdadeiro enraizamento das minhas bases e dos meus valores. Desde que a Nina nasceu, aumentei meu crescimento e amadurecimento, como mulher e pessoa. Senti que fiquei muito mais potente depois que tive filhos. Dá uma sensação de que agora você cuida de alguém e de que nada vai ser impossível, porque tem ali duas pessoas que dependem de você. Sempre penso
sobre a educação ser um reflexo do que a gente é. Não rola educar filho só na teoria, criança é muito esperta. Isso fez com que eu reforçasse valores importantes porque saquei muito rapidamente que educação é de exemplo. Criança no fundo vai seguir basicamente o que ela vê dentro de casa. A maternidade me fez reafirmar e reforçar valores.

O que mudou na sua carreira depois que você se tornou mãe? MM: Tenho pilares muito fortes dentro da minha vida: família e profissão. Essa sensação de potência é também vista no meu trabalho. Por exemplo, na minha cabeça, não tem como falhar, eu tenho uma família pra cuidar. Sinto que me deu uma força muito grande que é naturalmente vista no meu trabalho.

O que você mais aprendeu enquanto estava em cartaz com o “Mãe fora da Caixa”? MM: A troca transparente de experiências é um ato muito simples e poderoso. Em algum lugar dentro da gente, alivia uma pressão muito forte que vem enraizada na maternidade, no papel da mulher. Falar de uma maneira informal para todas as mulheres que estão ali, para os homens, avós e avôs, que às vezes a gente tá cansada, tá exausta e tem raiva dos filhos. E tudo bem, é natural.

Vem um turbilhão de sentimentos, né? MM: Não é porque estamos falando dos filhos que tem sentimentos que são proibidos de sentir. Nós somos mulheres, seres humanos e podemos ter todo sentimento dentro da gente. Acho que levantar essa bandeira é muito poderoso. Essa troca é um ato simples e de acolhimento, poder e sororidade, uma palavra que até está meio desgastada, mas é isso. Sempre me lembro daquele provérbio que diz que precisa de uma aldeia inteira para criar uma criança.

É a questão da rede de apoio! Ninguém cria um filho sozinho. MM: Super. E a gente tá muito distante do formato da aldeia. Fiquei pensando esses dias, eu nunca pedi uma xícara de açúcar pro meu vizinho. Então, reforçar essa rede de apoio, em que seja virtual, faz muito bem pra troca da mulher. Principalmente no primeiro ano de vida dos filhos que é tão intenso. Depois vai mudando, vai crescendo, os desafios vão mudando. Eu vejo meus pais, até hoje eles devem ter problema com a gente. Meu pai tem a melhor frase: “Filho é bom, mas dura…”. São desafios, mas a troca é um ato muito simples e poderoso.

E é importante ir além da troca superficial, né? Se permitir falar e escutar sem julgamentos. MM: Nós somos falíveis também, temos fraquezas. O que a gente mais precisa ter entre nós mulheres e mães é o acolhimento, a empatia, o não julgar. Às vezes me perguntam: “Que dica você dá?”. E eu não dou dica nenhuma de maternidade. É muito particular. Como eu vou dar dica de uma coisa que funcionou pro meu filho, mas pode não funcionar para o dela? A pessoa vai achar que está fazendo tudo errado. O legal é bater papo, conversar, contar os seus relatos, como você chegou até ali, o que funcionou pra mim naquele momento. Mulher tem uma intuição poderosíssima. Vamos ter questões o tempo inteiro, mas é importante saber que cada um tem uma resposta.

Como é sua relação com a culpa?MM: A troca com as outras mães, mais uma vez, é uma que funciona muito na questão da culpa. Ver que você não é a única que passou por isso ajuda muito a apagar a sensação de sufoco que a culpa traz. A Nina tinha 1 ano quando eu trabalhava em um programa de TV e fui avisada com mais ou menos 10 dias de antecedência que iria cobrir a Copa do Mundo na África por um mês. Era irrecusável como trabalho, mas pensei: Como vou deixar uma bebê sem a mãe? Acabei indo, trabalhava por seis dias e folgava só um. Nesse único de folga, eu chorava quase que o dia inteiro. E ficava super culpada.

Foi difícil conciliar a carreira com a maternidade? MM: Me considero uma pessoa que tem muito claro que é importante que eu seja feliz para os meus filhos serem felizes. Nunca fui aquela pessoa que voltava do trabalho enchendo a criança de presente pra recompensar. Claro, eu ficava sofrida lá, sentia culpa, dor no coração. Mas é assim: “Tô indo fazer o que eu amo, filha”. Batalhei muito pra fazer o que eu faço hoje em dia, então tenho muito orgulho e estou feliz de fazer isso. Tem uma culpa que anda com a gente o tempo inteiro, mas temos que tentar ser mais fortes do que ela e andar. Conversar com outras mães é uma ferramenta simples e fundamental para a nossa sanidade mental.

Como você lida com a frustração a felicidade ao ser mãe? MM: Eu tenho tudo muito organizado, brinco que gostaria que meus lhos fossem duas planilhas de Excel – e é a última coisa que eles são. Então, a frustração na
maternidade é um sentimento muito difícil de lidar. Fico pensando: “Eu z toda a metodologia da disciplina
positiva, como é que meus lhos não entendem?” Isso é desesperador. Como tá saindo do trilho que eu achei que
fosse ser? Para mim, levantar dessa frustração é uma coisa louca e superdifícil. É uma dureza sair do que eu desejo,
almejo, penso e planejo. Mas é isso. Filho é a coisa mais incontrolável que pode existir nas nossas vidas.

Você cria seus filhos, uma menina e um menino, da mesma forma? MM: Eu acho muito importante criar de forma igual. Eu evito falar “isso é coisa de menino e isso é de menina”. Não tem uma regra. Minha filha andou muito mais rápido que o Antonio e ele falou muito mais rápido do que a Nina, por exemplo. Em relação a ela, a gente tem tipo um bordão aqui em casa: “Só ela pode falar o que ela não pode fazer”. Desde pequena, ela escolhia as roupas da cor que queria, jogava bola, faz jazz e dança. A gente já tem altos papos de feminismo, sobre atitudes. Principalmente agora, que já está com 11 anos e as coisas vão piorando ainda mais. A Nina é uma menina muito esclarecida e forte, o que eu acho fundamental para trazer essa mudança que a gente espera que aconteça.

E com o Antônio? MM: Quando engravidei e vi que era um menino, pensei: “Meu Deus”, o que eu vou fazer?”. Porque é muito lindo criar uma menina forte, todo mundo dá apoio. E como criar um menino sensível? Mas eu tenho dois grandes modelos masculinos que admiro: meu pai e meu marido. São homens que respeitam muito as mulheres e incentivam, dão valor. É muito incrível ter essa oportunidade de colocar mais um homem assim no mundo, que é tão especial, raro e importante pra esse modelo de sociedade que a gente quer criar.