Uma em cada 10 crianças de até 5 anos está com excesso de peso no Brasil

Os dados são de um estudo feito pelo Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil em 2019 e 2020, que foram divulgados recentemente

Resumo da Notícia

  • Excesso de peso afeta uma em cada 10 crianças de até 5 anos
  • Os dados são de um estudo feito pelo Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil
  • Os números são de 2019 e 2020, mas foram divulgados recentemente
  • O estudo também trouxe possíveis motivos para esse aumento

Um estudo encomendado pelo Ministério da Saúde e publicado recentemente mostrou que uma em cada 10 crianças brasileiras de até 5 anos estão acima do peso ideal. O excesso de peso também foi percebido em mais da metade das mães de crianças nessa faixa etária.

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Os dados são do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani-2019), coordenado pelo Instituto de Nutrição Josué de Castro, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). De acordo com as informações publicadas, entre as crianças de até 5 anos que estão acima do peso, 7% estão com sobrepeso e 3% já se enquadram em um grau de obesidade.

Para o estudo, o Enani avaliou 14.558 crianças e 12.155 mães biológicas em 12.524 domicílios brasileiros. A pesquisa foi realizada em 123 municípios dos 26 estados e do Distrito Federal entre fevereiro de 2019 e março de 2020. Os dados ainda apontam que um quinto das crianças (18,6%) de até 5 anos estão em uma zona de risco de sobrepeso.

Excesso de peso afeta uma em cada 10 crianças de até 5 anos
Excesso de peso afeta uma em cada 10 crianças de até 5 anos (Foto: Shutterstock)

Vale ressaltar que os dados foram coletados antes da pandemia e, de acordo com especialistas, a tendência é que esse número seja ainda maior após o período em que ficamos em isolamento social. Para efeitos de comparação, os últimos dados relacionados a esse são de uma pesquisa de 2006 e, desde então, o cenário mudou muito. A prevalência de excesso de peso em crianças nessa faixa etária aumentou de 6,6% em 2006 para 10%, em 2019.

O aumento preocupa os médicos

Os dados acenderam um alerta para a comunidade médica, que já estava de olho nos números sobre obesidade infantil há um tempo. A mais recente delas, divulgada pelo Ministério da Saúde em 2021, estima que 6,4 milhões de crianças têm excesso de peso no Brasil e 3,1 milhões já evoluíram para obesidade.

“O que realmente nos preocupa é a tendência de aumento. No passado a obesidade era um fenômeno concentrado principalmente entre adultos, mas aos poucos ela foi atingindo também os adolescentes, as crianças mais velhas e agora as de menos de 5 anos”, disse Inês Rugani, pesquisadora do Enani-2019, à BBC News Brasil.

Vale ressaltar que o estudo identificou uma prevalência maior no excesso de peso entre as crianças menores, de até 23 meses de idade, com 23% delas acima do peso. As crianças de 24 a 35 meses estão em segundo lugar (20,4%), seguidos pelos de 36 a 47 meses (15,8%) e 48 a 59 meses (14,7%).

Motivos para o aumento

A obesidade pode estar relacionada a diversos fatores, mas, para os especialistas ouvidos no estudo, o principal fator neste caso é o aumento no consumo de produtos ultraprocessados. Os sucos de caixinha, bolachas, salgadinhos, refrigerantes e macarrão instantâneo estão cada vez mais presentes na mesa dos brasileiros e são alguns dos grandes agravantes para o aumento da obesidade infantil.

Entre as famílias entrevistadas pelo Enani-2019, a prevalência do consumo de alimentos ultraprocessados chegou a 93% entre crianças de 24 a 59 meses e 80,5% entre crianças de 6 a 23 meses. Já o consumo de bebidas adoçadas atinge 24,5%  entre 6 a 23 meses, 37,7% de 18 a 23 meses e 50,3% das crianças de 24 a 59 meses.

A possibilidades desse aumento são várias: esses alimentos costumam ser mais baratos, além de mais práticos e rápidos para o dia a dia. Fora isso, os comerciais também tendem a aguçar o paladar das crianças para essas comidas, instigando o consumo.

Com uma proposta de deixar os números mais claros e, possivelmente, mudar esse padrão do consumidor, a Anvisa aprovou um novo padrão de rotulagem de alimentos e bebidas industrializadas, que entra em vigor a partir de outubro de 2022. A partir desta data, as embalagens vão ter que apresentar um selo frontal com símbolo de lupa para informar sobre altos teores de açúcar, gordura e sódio.

Vale ressaltar que o excesso de peso pode ter várias implicações na saúde e bem-estar das crianças e famílias. Ele pode estar associado a doenças crônicas graves, como problemas cardiovasculares, diabetes, hipertensão, problemas renais, asma e diferentes tipos de câncer.

O presente reflete o futuro

O que seu filho come hoje será refletido na vida adulta. Crianças que estão acima do peso têm muito mais chance de permanecerem assim ou com um quadro mais grave mais velhos. Se, quando mais jovens essa diferença pode ocasionar problemas vasculares e infecções, mais para frente podem desenvolver um quadro de diabetes, colesterol e hipertensão. Além disso, esse aumento afeta diretamente a autoestima em todas as idades. 

Isso tem ligação com uma construção social muito forte que determina um padrão de corpo desde a infância. De acordo com a Carla João Nogueira de Almeida, que participou do Congresso Brasileiro de Nutrologia da ABRAN, as crianças obesas têm 63% mais chances de sofrer bullying e, vai desde um apelido até uma agressão física. Ela reforçou a falta de informação como principal responsável e completou que os produtos deveriam deixar claro no rótulo o valor nutricional, assim menos pessoas consumiriam. 

A mudança de mentalidade e consequentemente de hábito não acontece do dia para a noite e precisa de muitos esforços envolvidos: uma conscientização dos pais e preocupação para oferecer produtos mais saudáveis, campanhas governamentais de educação alimentar e criação de políticas públicas, opções mais saudáveis e em conta disponíveis no mercado, e uma melhor abordagem dos médicos para falar sobre o assunto com os pacientes que estão enfrentando essa situação. Nós já sabemos o que fazer. O importante, agora, é começar.