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Vídeos de crianças passando vergonha na internet não dá!

Entenda como a autoestima do seu filho pode ser abalada por essa prática

Redação Pais&Filhos

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(Foto: iStock)

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Um relatório recente explorou o fato de que existem mais de 30.000 vídeos de crianças “passando vergonha” na internet e a tendência, que é crescente, desanima tanto os especialistas quanto os pais.

Pode ser um desafio descobrir a maneira “certa” de disciplinar seu filho com base na sua idade, nível de maturidade, mau comportamento e remorso, entre outros fatores. E é claro que sempre haverão várias escolas de pensamentos em torno das estratégias de disciplina mais eficazes. Mas há uma nova tendência para disciplinar que é, sem dúvida, perturbadora para muitos especialistas e pais: envergonhar crianças ao vivo ou gravar conteúdo de vídeo e postar online. Uma recente reportagem do The Sun apontou que 30.000 clipes como esses existem na internet e incluem exemplos horripilantes como pais dirigindo os Xboxes de seus filhos, raspando suas cabeças ou jogando seus presentes de Natal no fogo.

Em um caso particularmente notório e extremo de 2015, uma mãe chamada Jessica Beagley forçou o filho a beber pimenta após ele mentir. Depois disso, ela ainda gritou com ele enquanto o fazia tomar um banho gelado. Ela, claro,  foi condenada por abuso infantil e recebeu uma sentença de suspensão da guarda da criança e uma multa de 2.500 dólares.

Um exemplo mais recente que provocou debate online envolveu um pai fazendo seu filho correr na chuva depois que ele foi chutado para fora do ônibus por causa do bullying.

Como os pais se sentem

Muitos pais são rápidos em condenar essa forma de disciplina. “Envergonhar e intimidar/humilhar uma criança nunca é bom. Ponto final”, diz Gabby Gamble, mãe de dois filhos de Champaign, Illinois, nos Estados Unidos, para uma entrevista à Parents. “Como adulto, como você se sentiria se seu chefe gritasse com você na frente de mais de 100 funcionários e te repreendesse sobre o quão ruim você é?”, ela completa.

Danielle Joyce, mãe de dois filhos de Phoenix, Arizona, também nos Estados Unidos, observa: “Eu não concordo em envergonhar publicamente seu filho como uma forma de disciplina. Isso pode fazer uma mudança temporária no comportamento, mas a longo prazo, eu temo desconfiança e raiva contra seus pais. Estamos colocando as coisas na internet sem o seu consentimento, esperando que eles respeitem nossa autoridade como pais”.

Outros acham que pode haver um momento e lugar para uma forma particular dessa tática disciplinar. Angela Hawkins, mãe de três filhos de Houston, Texas, aponta que os pais podem documentar as punições online dos filhos como uma maneira de se conectar e se sentir menos sozinhos. “Quando se trata de filmar as punições das crianças, é quase como um grito de atenção para os pais – como se eles precisassem de alguém para lhes dar um grande abraço e dizer-lhes que não estão sozinhos, que outras pessoas estiveram lá e que estão fazendo um bom trabalho”, ela compartilha. “Eu não acho que a maioria dos pais está filmando seus filhos para causar uma ‘vergonha infantil’. Acho que é uma tentativa de ganhar apoio”.

Essa é a mentalidade que Hawkins teve quando filmou a birra da filha e a publicou online. “Filmar e postar o episódio deu a outros pais a oportunidade de acompanhar seus conselhos sobre como evitar esses episódios e como lidar com eles quando não pudessem ser prevenidos”. Ela acrescenta que, ao longo dos anos, aprendeu a confiar em seus próprios instintos parentais e confia menos em estranhos, de modo que provavelmente não postará esses tipos de vídeos online novamente.

O que os especialistas dizem

Psicólogos infantis e especialistas em educação infantil advertem contra o uso de vergonha ou humilhação para disciplinar crianças, independentemente da situação. A exposição da criança online pode levar à “baixa autoestima e incapacidade de insegurança”, explica Karyl McBride, autora de “Will I Ever Be Good Enough?” – em português “Eu serei sempre bom o suficiente?”.

Os pais que apoiam essa forma de disciplina fariam bem em intensificar a comunicação, aponta Bela Sood, psiquiatra infantil do Hospital Infantil de Richmond em VCU e do Virginia Treatment Center for Children, nos Estados Unidos. “Transmitir os vídeos para o mundo para ver apenas exibe o mau comportamento dos pais”, acrescenta. As crianças já estão expostas à mídia social envergonhando e tirando sarro emocional dos colegas – a última coisa de que precisam é de seus pais ou um adulto que espalha essa vergonha, disse Doug Newton, psiquiatra infantil no Colorado. “As crianças vão tentar imitar esse comportamento e podem usar as mídias sociais para envergonhar ou envergonhar seus colegas de escola”.

Karyl recomenda trocar a exposição pela empatia. “Se queremos criar boas pessoas, precisamos ser pais com empatia”, explica. “As crianças precisam ser vistas, ouvidas e validadas. Quando cometem um erro, precisam aprender que todos cometem erros e podemos aprender com eles”.

Por fim, ela acrescentou que essa exposição, além de humilhar as crianças de forma emocionalmente abusiva, também faz com que você crie filhos possivelmente maldosos com os outros.

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