Violência obstétrica: saiba o que é, como identificar e denunciar esse abuso

Após a influenciadora Shantal relatar por áudios ter sofrido abusos do ginecologista e obstetra Dr. Renato Kalil, ressaltamos a importância de falar sobre o assunto

Na última semana, o caso de violência obstétrica sofrido por Shantal, mãe de Fillippo e Domenica, veio à tona nas redes sociais após influenciadora desabafar por áudios e vídeos ao relatar o parto de 48 horas da filha caçula em grupo fechado de amigas.

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A história viralizou e ganhou protagonismo pelo fato de Shantal ter sofrido violência obstétrica pelo ginecologista e obstetra Renato Kalil. Segundo o relato, o médico a agrediu verbalmente, além de comentar de maneira invasiva para terceiros sobre o seu órgão genital. “Ele ficou com birra que eu não quis fazer episiotomia, ele não espera para ver se vai precisar fazer ou não. Descobri que ele falou da minha vagina para outras pessoas. Tipo ‘Ficou arrebentada, se não tiver episiotomia, você vai ficar igual”, relembrou Shantal.

Shantal compartilhou diversos momentos do parto de Domênica
Shantal compartilhou os abusos que sofreu durante o parto da filha (Foto: Hanna Rocha)

A influenciadora conta ainda que o médico a teria ‘rasgado com a mão’ e que as imagens gravadas por uma GoPro do companheiro no dia do parto mostram cenas de violência explícitas. “Tem um vídeo dele me rasgando com a mão. Simplesmente, quando a gente assistia ao vídeo do parto, ele me xinga o trabalho de parto inteiro. Fala ‘P*rra, faz força. Filha da mãe, ela não faz força direito. Viadinha’. Que ódio. Não se mexe, p*rra’… depois que vi tudo, foi horrível”, desabafou.

Nos áudios, Shantal conta que estava tão extasiada após o parto que só percebeu a violência que havia sofrido ao reassistir aos vídeos. “Como meu parto normal era um sonho, só pelo fato de ter conseguido fazer, eu já estava feliz”, relata.

Shantal relata abuso obstétrico feito pelo ginecologista Renato Kalil (Foto: Hanna Rocha)

O caso de Shantal deu abertura para outras mulheres fazerem denúncias contra o Dr. Renato Kalil. De acordo com o jornal Extra, a bancária Letícia Domingues disse que estuprada mais de uma vez pelo obstetra e ginecologista na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, em 1991. Ela afirma que sofreu abusos por três dias em um quarto onde foi internada sozinha. Outra mulher teria sido vítima de Kalil no Hospital São Luiz, também em São Paulo, onde ele teria exibido o pênis em uma consulta depois de um parto traumático, em 1993.

Caso está sendo investigado

O Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo) abriu uma investigação sobre o caso, que está sob sigilo. O Dr. Renato Kalil nega as acusações e afirma que o parto ocorreu sem “qualquer intercorrência” e que o vídeo foi editado, com frases retiradas de contexto.

O que é violência obstétrica?

“Agressões físicas e verbais são consideradas violência em qualquer especialidade médica, isso é indiscutível. O consentimento é essencial. Quando a relação é de confiança, acolhimento e empatia, toda a intervenção necessária é aceita sem que haja desconfortos ou disputas, sabendo que todos estão buscando a melhor forma de nascimento para esse bebê”, explica Fabiana Garcia, ginecologista e obstetra e sócia-fundadora do Espaço MAE, dedicado ao atendimento integral da mulher e da gestação.

Quais os tipos de violência obstétrica?

A Organização Mundial da Saúde fez uma lista de possíveis violências no parto para que as gestantes e acompanhantes saibam identificar e combater nos hospitais e maternidades: abuso físico, abuso sexual, preconceito, discriminação, não cumprimento dos padrões profissionais de cuidado, mau relacionamento entre as gestantes e os profissionais e condições ruins do sistema de saúde.

Como identificar uma violência obstétrica?

No Brasil, dados mostram que 25% das mulheres já sofreu algum tipo de violência obstétrica. Sem saber, muitas mães já foram vítimas desse tipo de agressão, que pode ser física ou verbal, durante ou antes do parto. Independentemente do tempo que uma agressão possa ter acontecido, é fundamental denunciar e falar sobre o assunto. Desta maneira, outras mulheres ganham espaço para também expor os abusos e violências que tenham sofrido.

Como denunciar uma violência obstétrica

Casos de violência obstétrica podem ser denunciados pelo Disque 136, se o parto ocorreu em maternidade do SUS, ou pelo Disque 180, que recebe todos os tipos de denúncia de violência contra a mulher. O serviço está disponível 24 horas por dia, incluindo sábados, domingos e feriados. A ligação é gratuita. Tenha sempre a sua rede de apoio próxima para te ajudar a lidar com esse trauma que não deve ser menosprezado.

O que a violência obstétrica pode causar?

Segundo o estudo “A Mulher Diante Da Violência Obstétrica: Consequências Psicossociais”, publicado na  Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento, em 2018, consequências psicossociais como transtornos comportamentais, de adaptação e ansiedade são as mais comuns entre as mulheres que sofreram violência obstétrica.

“Muitas vezes passa desapercebida, sem a compreensão de que aquela ação pode desenvolver transtornos psicossociais. A maioria das mulheres também não reconhece a violência e nem os seus direitos, sendo de suma importância a orientação das mesmas para que busquem informações e manifestem suas opiniões, minimizando possíveis consequências no pós-parto, retomando assim o seu protagonismo, diante do parto e das escolhas e valores de vida”, indica o estudo.

Por isso, é tão importante entender e fazer o plano de parto durante a gestação. É ali que você já aponta suas vontades e direcionamentos ao médico, antes durante e após o parto. Procure sempre um profissional que respeite suas decisões e também que ele se sinta confortável em segui-las.