Vizinhos relatam agressões do padrasto de Henry a ex-mulher e filha de 13 anos

Moradores do condomínio da Barra da Tijuca relataram que ouviam xingamentos e barulhos de objetos sendo quebrados no apartamento onde os três moravam na época

Resumo da Notícia

  • Ana Carolina Ferreira prestou uma ocorrência policial contra Dr. Jairinho na época
  • As denuncias chegaram a ser investigadas, mas a ex-mulher negou o ocorrido
  • Vizinhos ligaram para delegacia da mulher após ouvir xingamentos e barulhos de objetos sendo quebrados no apartamento do ex-casal

Ana Carolina Ferreira prestou uma ocorrência policial contra Dr. Jairinho, na época em que ainda mantinham um relacionamento, agora, cinco anos depois, vizinhos da dentista denunciaram que ela e a filha do casal, uma adolescente, sofriam ‘violências, humilhações, insultos e ofensas’ por parte do médico, que está sendo investigado pelo caso do enteado, Henry Borel, de 4 anos, que faleceu na madrugada do dia 8 de março e ainda não teve a causa esclarecida.

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Vizinhos denunciaram Dr. Jairinho (Foto: Reprodução / Vídeo R7)

De acordo com informações do O GLOBO, na época, uma ligação para a Central de Atendimento à Mulher (Ligue 180), em junho de 2019, denunciava xingamentos e barulhos de objetos sendo quebrados no apartamento onde os três viviam, no condomínio na Barra da Tijuca.

A denúncia foi encaminhada para a Ouvidoria do Ministério Público do Estado do Rio, que enviou à 1ª Central de Inquéritos, que acionou o Conselho Tutelar da Barra. Segundo o documento assinado pela conselheira Elizabeth do Nascimento Silva Soares, na época foi feita uma visita à residência da família, mas a ex-mulher de Dr. Jairinho negou as denuncias relatadas pelos vizinhos.

Após a visita, Ana Carolina foi notificada e precisou comparecer  à sede do Conselho Tutelar com a filha de 13 anos na época. A menina disse que o relacionamento da mãe com Dr. Jairinho era ‘normal’ e que, às vezes, eles chegavam a discutir. Na ocasião, a adolescente também negou tenha tenha presenciado a mãe sofrer violência por parte do médico.

Porém, em 3 de janeiro de 2014, Ana Carolina foi até a 16ª DP (Barra da Tijuca) denunciar que Dr. Jairinho ‘sempre foi violento’ e que sofreu diversas agressões por ele. Na época,  Ana Carolina disse a policiais que o médico, com quem teve um relacionamento de 15 anos e dois filhos, estava ‘mais violento’.

Ao ser procurado pelo O GLOBO, o advogado de defesa de Dr. Jairinho negou qualquer tipo de violência por parte do médico. “Havia muitas brigas verbais, ocasionadas, inclusive, pela perseguição de uma ex-namorada ao casal. A própria filha foi ouvida no Conselho Tutelar e desmentiu qualquer narrativa que envolvesse agressão física, psicológica, afetiva, emocional do pai à mãe e/ou vice-versa”, disse.

Entenda o caso Henry

Henry Borel, segundo o G1, não resistiu na madrugada da segunda-feira, 8 de março, na Barra de Tijuca, Zona Oeste do Rio. A causa ainda está sendo investigada pela Secretaria de Polícia Civil. No dia, o menino estava na casa da mãe, Monique Medeiros da Costa Almeida, e do padrasto, o vereador Jairo Souza Santos, o Dr. Jairinho (Solidariedade).

Entenda o caso Henry Borel (Foto: Reprodução / Vídeo R7)

No laudo médico é relatado que a criança já deu entrada no hospital sem vida, sendo a causa uma hemorragia interna e laceração hepática causada por uma ação contundente. A criança apresentava:

  • Múltiplos hematomas no abdômen e nos membros superiores;
  • Infiltração hemorrágica na região frontal do crânio, na região parietal direita e occipital, ou seja, na parte da frente, lateral posterior da cabeça;
  • Edemas no encéfalo;
  • Grande quantidade de sangue no abdômen;
  • Contusão no rim à direita;
  • Trauma com contusão pulmonar;
  • Laceração hepática (no fígado);
  • Hemorragia retroperitoneal.

O pai, no depoimento, contou que recebeu uma ligação de Monique às 4h30 pedindo que ele fosse até o Hospital Barra D’Or, porque o filho não estava respirando. Ela contou a Leniel que fez respiração boca-a-boca em uma tentativa de reanimar a criança.

As médicas que atenderam o menino no hospital também foram ouvidas pela polícia e as três pediatras garantiram que Henry chegou sem vida ao local. A mãe, Monique Medeiros, e o padrasto, vereador Doutor Jairinho, também realizaram os depoimentos e houve divergências entre eles.

Para a equipe médica que tentou socorrer o menino, a mãe dele disse que havia acordado após ouvir um barulho no quarto. Ao chegar no local, ela contou ter visto o menino caído no chão. Nesta primeira versão, que consta no Boletim de Atendimento Médico (BAM), eles encontraram o garoto gelado, pálido e sem poder de resposta. O padrasto chegou a pensar que o menino estava em parada cardiorrespiratória e a família foi para o Hospital Barra Dor, na Zona Oeste do Rio.

Já o padrasto contou alguns pontos diferentes. O primeiro ponto de divergência foi em relação ao barulho citado pelo casal na noite em que tudo aconteceu. Durante o relato feito à polícia, nem a mãe nem o padrasto mencionaram terem ouvido um barulho vindo do quarto da criança. Ela afirmou que acordou por volta das 3h30 com o barulho da TV ligada e foi ver o filho — quando o encontrou desacordado. Já o Doutor Jairinho contou que ele e a esposa estavam assistindo a uma série no quarto de hóspedes para não incomodar o sono do enteado e adormeceram. Quando Monique acordou, foi até o quarto do casal e encontrou Henry já caído, com os “olhos revirados e mãos e pés gelados”. Desde a perda do menino, os policiais estão ouvindo testemunhas para tentar desvendar o caso.

Relato de Dr. Jairinho com filhos de ex-namoradas

A Veja ainda mostra que o médico e o vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Dr. Jairinho, teria um histórico de agressão a ex-namoradas e aos filhos delas, todos da mesma faixa etária de Henry, e algumas delas já teriam sido relatadas para a polícia.

Dr. Jaiminho e Monique deixaram a delegacia após depoimento sobre Henry Borel, na madrugada desta quinta-feira, 18 de março (Foto: Reprodução/ TV Globo)

A revista Veja teve acesso a trocas de mensagens de Dr. Jairinho e depoimentos exclusivos, que mostram “um perfil de homem educado, gentil e generoso na aparência, mas que na intimidade exibe temperamento violento e perverso, beirando o sadismo”, diz a reportagem. A ex-mulher do vereador, a nutricionista Ana Carolina Ferreira Netto, com quem tem dois filhos, já registrou duas queixas na polícia: na primeira, em 2014, afirmou que, depois de uma discussão, ele teve um “ataque de fúria”, desferindo socos e pontapés, a ponto de ser hospitalizada; a outra, de 2020, cita apenas “lesões corporais”.

Tanto os depoimentos à polícia e os relatos feitos a Veja mencionam agressões a ex-namoradas e aos filhos delas, todos na mesma faixa de idade. Uma dessas ex-namoradas, com quem se relacionou entre 2014 e 2016 e mãe de um menino de 5 anos na época, esteve na delegacia e negou a ocorrência de maus-tratos. Mas uma amiga relatou que na época em que os dois se relacionaram, entre 2014 e 2016, o filho da namorada do vereador tremia ao ouvir o nome “tio Jairinho”. Segundo o depoimento, o menino de 5 anos também chorava ao ouvir menção ao vereador.

Dr. Jairinho falou com ax-namorada logo após o acontecido e não comentou nada (Foto: Reprodução / Vídeo R7)

A amiga também disse ter conhecimento de episódios tenebrosos. Um deles foi a tentativa de Jairinho de dopar a namorada em um hotel. “Minha amiga acordou, grogue, e deparou com o menino chorando e o namorado o forçando a tomar banho de banheira”, lembra. Durante o relacionamento, o vereador arranjava motivos para sair sozinho com o menino, que voltava parecendo ter passado por “sessões de tortura”. Em uma ocasião, o menino teria chegado com o rosto inchado e desfigurado, olhos roxos e a explicação era que ele havia caído de cabeça. Em outra, apareceu com a perna fraturada na altura do fêmur e a justificativa era que tinha se prendido no cinto de segurança e tropeçado ao sair do carro. “Nas duas vezes, Jairinho o levou a uma clínica de conhecidos dele. Minha amiga estava deslumbrada e tinha medo por ele ser poderoso”, contou a mulher a Veja.

“Nas duas vezes, Jairinho o levou a uma clínica de conhecidos dele. Minha amiga estava deslumbrada e tinha medo por ele ser poderoso”, disse. Segundo ela, a ex-namorada ainda manteria contato com o verador até hoje e teria recebido um telefonema de Jairinho algumas horas após a morte de Henry, mas ele não fez nenhum comentário sobre o assunto.

Agressões também foram relatadas à Veja por outra ex-namorada de Jairinho, que prestou depoimento à polícia na companhia da filha, que hoje tem 13 anos de idade. Ela se relacionou com Jairinho entre 2010 e 2013 e também lembra que o vereador arranjava motivos para sair sozinho com a garota, que tinha 4 anos na época. Com o tempo, a menina começou a reclamar que ele torcia seus braços e pernas e lhe dava cascudos. “Passei muito tempo da minha vida me culpando e me sentindo péssima como mãe por não ter visto a realidade. Ele é um tipo de homem que cega, ilude, mente”, disse à reportagem.

Entenda o caso Henry Borel (Foto: Reprodução / Vídeo R7)

Segundo a matéria, o episódio mais assustador foi quando a filha relatou que teria ido com o “tio” a um lugar que, pela descrição, assemelhava-se a um quarto de motel. A menina contou que o quarto tinha uma cama e uma piscina e Jairinho supostamente a orientou a despir-se. Na sequência, ele também teria tirado as roupas e ficado de sunga, entrando com a menina no box e ligando o chuveiro, onde teria batido repetidamente com a cabeça dela na parede. Ela ainda afirmou que ele teria afundado sua cabeça na piscina com os pés.

A mãe da menina conta que decidiu falar agora diante da morte de Henry e que recebeu um telefonema em tom de ameaça do vereador, com quem não falava há oito anos. O pai de Henry, o engenheiro Leniel Borel, frisa que o menino mudou depois que Monique foi viver com o vereador. Semanas antes de morrer, o menino havia começado a frequentar uma psicóloga, por causa da mudança de comportamento. “Meu filho, uma criança linda e feliz, passou a chorar desesperadamente para não voltar para a casa dela. Só queria ficar comigo e com os avós. No domingo, horas antes da morte, chegou a vomitar de tão nervoso quando o deixei no prédio”, lembra o engenheiro.

Henry já tinha reclamado com o pai que o “tio Jairinho abraça muito forte” e batia nele. O pai levou a queixa à ex-esposa, que disse ser invenção do menino e reflexo da separação. “Que mãe não ficaria desesperada para saber o que aconteceu, em vez de proteger o namorado? Não sei se ela age assim por medo ou por interesse”, diz o pai de Henry. A revista Veja também tentou falar com a mãe de Henry, Monique Medeiros, na casa de seus pais, onde ela estaria morando. Enquanto aguardava, a reportagem teria ouvido o pai de Monique dizendo que “a gente tem que falar a verdade sobre esse troço”. No entanto, eles não responderam perguntas, alegando que “não poderiam falar”.