Gravidez e vacinação contra covid-19 no Brasil: entenda as novas recomendações do Ministério da Saúde

Após uma coletiva de imprensa realizada na sexta-feira, 16 de abril, o Ministério da Saúde falou sobre a autorização da vacinação contra a covid-19 para grávidas. A mudança já está vigente nos postos de saúde, mas é necessário seguir as recomendações

Resumo da Notícia

  • A portaria informa que apenas grávidas com comorbidades, que aumentem o risco para covid-19, ou que façam parte dos grupos prioritários, podem tomar a vacina
  • Se a grávida não se enquadrar em nenhuma das condições, é necessário que o médico informe a necessidade para a imunização, considerando os riscos e benefícios
  • O Ministério da Saúde está analisando incluir todas as grávidas e puérperas como grupo prioritário na campanha nacional de vacinação

Uma portaria do Ministério da Saúde recomenda que mulheres grávidas que apresentem comorbidades recebam a vacinação contra a covid-19. A indicação é uma mudança em relação a diretrizes anteriores da pasta e foi publicada em 15 de março. Apenas as grávidas que pertencem a algum grupo prioritário, como as trabalhadoras da saúde, ou que tenham alguma comorbidade que aumente o risco da covid podem tomar a vacina. São elas: diabetes, hipertensão arterial crônica, obesidade (IMC maior ou igual a 30), doença cardiovascular, asma brônquica, imunossuprimidas, transplantadas, doenças renais crônicas e doenças autoimunes.

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Mas atualmente, o Ministério da Saúde está analisando a inclusão de todas as grávidas e puérperas como grupo prioritário na campanha nacional de vacinação contra a covid-19, de acordo com declaração do secretário de Atenção Primária à Saúde, Raphael Câmara Medeiros Parente, durante coletiva de imprensa, nesta sexta-feira, 16 de abril. “Praticamente todos os especialistas em ginecologia obstetrícia têm uma sugestão e pedem com bastante força que todas gestantes entrem nesta recomendação, já estamos em tratativas avançadas”, afirmou.

O Ministério da Saúde está analisando incluir, futuramente, todas as grávidas e puérperas no Plano Nacional de Imunização (PNI) (Foto: Freepik)

Por outro lado, o secretário ressaltou que a gestação é um “período trombótico”, em que as mudanças vasculares necessárias para formar a placenta e realizar as trocas nutricionais e de oxigênio com o bebê, favorecem o aparecimento de coágulos que podem obstruir vasos sanguíneos. “Temos que ter cuidado porque algumas vacinas, ainda que de forma rara, estão mostrando alguns efeitos colaterais neste sentido”, disse. Raphael também afirmou que mesmo na ausência de estudos, novas cepas do coronavírus podem se manifestar mais gravemente em mulheres grávidas e recomendou que, a partir do terceiro trimestre de gestação, elas façam o exame RT-PCR, que aponta a infecção pela covid-19. “Já temos a nota técnica que dá essa recomendação expressa para as grávidas com fatores de risco. Estamos na fase final de análise e não podemos errar. Estamos avaliando se iremos colocar, mas a sugestão de grande parte dos especialistas é essa”, disse o secretário.

Portaria causou confusão

A portaria publicada pelo Ministério da Saúde provocou confusão em uma unidade de saúde na Zona Norte de São Paulo, na manhã deste sábado (17). De acordo com a portaria, devem procurar os postos de vacinação as gestantes que possuem doenças preexistentes. Quem não possui nenhuma comorbidade, precisa de uma recomendação médica. A Secretaria Estadual da Saúde informou que as grávidas só podem ser vacinadas se forem dos grupos prioritários.

Na UBS Vila Barbosa, no bairro do Limão, uma mulher grávida de 23 semanas tentou tomar a vacina contra o coronavírus e não conseguiu. “Baseado na declaração do Ministério da Saúde ontem, em nome de Rafael Parente, que é um dos secretários do Ministério da Saúde, informando que todas as mulheres grávidas já poderiam procurar [posto de saúde] para tomar a sua vacina. Minha esposa está de 23 semanas, e eles se recusaram, porque, segundo eles, não foram orientados. Chamei a polícia pra ver se conseguia resolver, mas eles não têm informação”, contou o marido Paulo Roberto, em entrevista ao G1.

Para as grávidas que não possuem comorbidades, ou não sejam do grupo prioritário, é necessário avaliação do médico para que a vacinação contra covid-19 possa acontecer (Foto: Getty Images)

O que dizem os especialistas

Para te ajudar a entender quais são as novas recomendações sobre a vacinação de grávidas, lactantes e puérperas, consultamos especialistas e levantamos perguntas e respostas:

O que mudou com a nova portaria?

“O Ministério da Saúde se posicionou favorável, recomendando às gestantes a tomarem a vacina, principalmente aquelas que possuem outros fatores de risco. Porém, ele não criou uma nova categoria para as gestantes como prioridades, ou seja, grupos de risco. Então, o que mudou para o Ministério da Saúde foi que as grávidas que tivessem comorbidades tomem a vacina, mas respeitando a ordem dos grupos de risco. Na prática, a mulher que era professora, profissional da saúde, agente de segurança pública, que já estavam na vez de tomar a vacina, se estivesse grávida e houvesse uma dúvida, era para tomar. Foi isso que o Ministério quis dizer. Mas todos entenderam que iria começar a priorizar as gestantes e não foi isso”, explica Dr. Igor Padovesi, Ginecologista e Obstetra da USP e do Hosp. Albert Einstein, colunista e embaixador da Pais&Filhos, e pai de Beatriz e Guilherme.

A recomendação do ministério vale para todas as grávidas?

Não. A nova recomendação é para que as mulheres grávidas com comorbidades sejam vacinadas. As doenças listadas são:

  • Asma brônquica
  • Diabetes
  • Doença cardiovascular
  • Doenças autoimunes
  • Doenças renais crônicas
  • Hipertensão arterial crônica
  • Imunossuprimidas
    Obesidade (IMC maior ou igual
    a 30)
  • Transplantadas

E como funciona a vacinação para mulheres grávidas sem doenças prévias?

O Ministério da Saúde considera a possibilidade também para as grávidas sem doenças prévias. Mas, é importante reforçar que existe a necessidade de uma avaliação de riscos e benefícios, que deve ser feita e acompanhada por um médico obstetra.

Novas variantes do coronavírus são mais agressivas para grávidas?

Ainda durante a coletiva, Raphael Parente comentou que as novas variantes do coronavírus têm sido mais agressivas para as grávidas. “A visão clínica, de especialistas, nos mostra que essa variante nova tem uma ação mais agressiva nas grávidas. Antes estava muito mais ligado ao final da gravidez e puerpério, e hoje a gente já vê uma evolução mais grave inclusive no segundo trimestre (de gravidez), quiçá por vezes no primeiro trimestre“.

É estimado que as novas variantes da covid-19 sejam mais agressivas, mas é necessário que estudos sejam analisados para a comprovação (Foto: iStock)

De acordo com o Dr. Filipe Prohaska, infectologista do Grupo Oncoclínicas, pai de Letícia e Luisa, as novas cepas ainda trazem novidades em diversos parâmetros. “A verdade é que ainda sabemos pouco sobre essas variantes, e todo o cuidado deve ser ampliado. As gestantes devem, nesse primeiro momento, ter mais cuidado, redobrar as medidas de isolamento social, uso de máscaras e higienização, para evitar não só o covid-19 e suas novas cepas, como outras doenças virais que temos no nosso meio”.

Contudo, apesar dos especialistas suspeitarem que as novas variantes possam ser mais agressivas nos casos de covid-19, são necessários mais estudos. “A princípio, elas têm um maior potencial de causar doenças mais severas em qualquer estrato da população, inclusive nas grávidas, mas é tudo não definido, sem estudos robustos comprobatórios. Mas, acredita-se que essa cepa possa realmente ter essa característica de infectar pessoas de forma mais grave, pessoas sem fatores de risco. As questões ainda estão em observação e faltam estudos confirmatórios”, comenta o Dr. Estevão Urbano, infectologista do Hospital Vila da Serra, Presidente da Sociedade Mineira de Infectologia e Diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia.

Vacinação contra covid-19 na prática

A médica oncologista Jamile Almeida Silva, que está esperando pelo primeiro filho, Lucas, recebeu a primeira dose da CoronaVac com 16 semanas e a segunda, com 19. Para que a imunização fosse possível, ela, que atua na linha de frente e tem contato com pacientes contaminados, precisou conversar com o obstetra antes de tomar, de fato, a vacina, além de avaliar possíveis riscos e benefícios.

“Já tive covid em março de 2020, quadro leve, porém sabemos que a reinfecção é real e temos visto situações mais graves da infecção em gestantes do que em mulheres não gestantes na mesma faixa etária”, comenta Jamile. “Conversamos bastante sobre a ausência de estudos nas gestantes, por ser uma vacina nova e isso é esperado. Mas, sabemos a similaridade da CoronaVac com a vacina da gripe, que é recomendada para grávidas. Analisando todas essas informações com meu médico, considerei que meu risco de infecção por covid-19 era maior que o risco de uma vacina com tecnologia já conhecida, então me senti segura em tomar”.

Aumento de mortes de grávidas levanta preocupação

Desde o início da pandemia, cresceu 144% o número de mortes maternas pelo novo coronavírus, segundo uma pesquisa do Observatório Obstétrico Brasileiro covid-19. O período de maior risco da doença para grávidas pode ser desenvolvido no último trimestre de gestação e no período do puerpério. Por isso, gestantes e puérperas até o 14º dia de pós-parto, são consideradas grupos de risco para contrair o vírus.