Gravidez

Médico relembra história emocionante de parto inesperado que fez em uma garagem: “Foi um milagre”

Antonio Barbosa respeitou todas as escolhas da mãe para realizar o sonho do nascimento do bebê

Izabel Gimenez

Izabel Gimenez ,filha de Laura e Décio

Nasceu! (Foto: Arquivo Pessoal)   

O ginecologista e obstetra, especialista em parto natural, Antonio Julio Sales Barbosa, abriu o coração para a Pais&Filhos e relembrou a história emocionante de um dos partos mais inusitados da sua carreira. Em um dia que parecia normal, o médico viveu um momento único. Valorizando, antes de tudo, a escolha da mãe, fez um parto no estacionamento do seu trabalho no banco de trás de um carro. Leia a história na íntegra:

“A terça-feira, de 28 de maio, começou como um dia comum: muitos atendimentos na minha clínica, o Centro Paulista de Parto Natural, onde acompanho o pré-natal de diversas gestantes que desejam mais do que simplesmente dar a luz. Desejam ser protagonistas dos próprios partos. E nada mais justo, não é mesmo? Afinal, seu corpo, seu parto e como aquele serzinho que ela gera dentro de si própria vem ao mundo são aspectos que devem estar sob o controle dela.

Nunca esperaria eu que, naquele mesmo dia, seria colocado diante de mais uma situação extremamente inusitada e emocionante das que já vivi em meus 35 de carreira. Eu estava atendendo a última cliente do dia quando o interfone tocou e fui avisado que uma de minhas pacientes estava em trabalho de parto em um carro de aplicativo. Ele me aguardava na garagem do condomínio que abriga minha clínica. “Mas que coisa”, pensei eu. Afinal, nenhuma das minhas pacientes estava com data prevista para parto para aqueles dias. E nenhuma delas havia feito contato prévio comigo, como de costume. “Estranho”, pensei.

Tudo foi como ela queria! (Foto: Arquivo Pessoal)

Terminei a consulta e me fui até a garagem. E foi aí que o show de desencontros começou.  Antes de tudo, aquela não era uma de minhas pacientes, e, para a minha surpresa, o bebê dela já estava coroando! Tentei descobrir quem era  e percebi que ela não era brasileira. “Chilena”, consegui a informação de uma de suas duas amigas, que a acompanhavam (também estrangeiras, uma colombiana e uma peruana, se não me falha a memória). “Fez o pré-natal? O bebê está a termo?”, tentei saber. “Sim”, me responde ela, mencionando ter sido atendida na UBS República, enquanto ouço os batimentos do bebê. Tudo parece ok.

Descobri que ela estava há 4 meses com o marido em São Paulo e que agora vive em um prédio de ocupação, junto a outros estrangeiros e artistas de rua, no Centro. Sua intenção, era ter o bebê da maneira mais natural possível. Não queria nenhuma intervenção, e para isso, havia escolhido uma conhecida casa de parto em Santo Amaro para ter seu bebê.

“Mas como chegou até aqui?”, questionei. E para isso, o motorista do carro de aplicativo, onde ela ainda estava deitava, me responde. “Ela queria ir para a casa de parto, doutor, mas do jeito que estava eu vi que não ia dar tempo para chegar na zona sul. Ela olhou na internet e achou o senhor, Centro Paulista de Parto Natural, então viemos pra cá; bem mais perto”, explicou.

No outro dia, o médico fez todo o checkup necessário e registrou o bebê (Foto: Arquivo Pessoal)

Só tem um problema. O Centro Paulista de Parto Natural é uma clínica de acompanhamento durante a gestação. Na nossa unidade, realizamos as consultas do pré-natal. Não somos uma casa de parto. Expliquei isso a ela, enquanto ouvia as sirenes da ambulância do SAMU se aproximando. A parturiente se agita. “Não quero ir para um hospital, por favor, não me levem para hospital!”

Ela havia idealizado seu parto. Seria natural. Sem intervenções. Numa casa de parto. Havia sonhado com isso durante meses, mas ela estava no banco traseiro de um carro de aplicativo. No estacionamento da minha clínica. Se apoiando em sua amiga. Quando o SAMU chegou, precisavamos tomar a decisão: faríamos o parto ali ou a teriamos que levá0-la para o hospital mais próximo? E por mais que a gente estivesse acostumado a finais que não respeitem o protagonismo da mulher, esse não foi o caso. Os enfermeiros da ambulância a deixaram decidir o que ela queria fazer, sendo solícitos o tempo inteiro. E ela queria ter seu filho ali. Ela exerceria seu direito.

Eu? Concordei. Avaliei os riscos, vi que seria possível e fiquei feliz por poder auxiliá-la e garantir o mínimo de segurança a ela e ao seu bebê, que agora já pedia para nascer. Escutei de novo os batimentos. Tudo ok. “Respire e siga os instintos do seu corpo!”, pedia.

Em poucos minutos, ela deu à luz a um menino, sadio, perfeito, na traseira do carro. Coloquei o bebê no seio da mãe, para o contato pele a pele e aquecimento, como se preconiza logo após o nascimento. Não cortei o cordão umbilical. Deixei os dois permanecerem unidos e é dessa forma que ela é colocada na ambulância e levada ao hospital, para uma avaliação pós parto e para o bebê ser examinado. Fiquei na garagem parado, de luvas e avental. Olho para minha mulher, que assistiu a tudo, pois já me aguardava para irmos para casa, e não me contenho em pensar: mas que dia lindo para participar de um milagre!”

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