Gravidez

O que acontece na cabeça da mulher durante a gravidez?

O cérebro da mulher muda durante a gestação. Entenda os efeitos desse fenômeno, chamado em inglês de “baby brain”, como a sensação de estar mais esquecida, cansada ou até lenta

Yulia Serra

Yulia Serra ,filha de Suzimar e Leopoldo

A mudança só acontece nas mulheres, os homens não apresentaram nada diferente (Foto: Getty Images)

A gravidez muda muita coisa na vida de uma mulher. As questões físicas são facilmente perceptíveis e, por isso, geralmente são as únicas levadas em consideração. Mas elas não estão sozinhas. 

Uma das maiores transformações nessa fase acontece no cérebro. Se você está sentindo sua cabeça diferente, saiba que é mais comum do que imagina e existe uma explicação científica para essa sensação.

As alterações psicológicas são das mesmas dimensões que as físicas, mas isso muitas vezes é subestimado”, afirma o dr. Igor Padovesi, ginecologista e obstetra, e pai de Beatriz e Guilherme. O especialista enfatiza que o desconhecimento só colabora para a falsa idealização da maternidade.

De acordo com um estudo europeu divulgado na Nature Neuroscience, o cérebro da mulher reduz de tamanho durante a gravidez. Isso ocorre pela diminuição, em áreas específicas, da massa cinzenta, local em que há maior quantidade de neurônios, responsáveis pelas conexões neurais.

Não se assuste, essa mudança nada mais é que uma adaptação do corpo à nova realidade e, ao contrário do que imagina, vai te ajudar a focar no que realmente precisa. Isso porque a principal área afetada pela redução é a responsável pelas interações sociais, acionadas quando você pensa ou sente algo por alguém. 

Com esse espaço reduzido, as grávidas conseguem dedicar mais atenção às “tarefas da mente” que realmente importam. Isso é uma grande vantagem na hora de cuidar do bebê, garantindo maior empatia e aproximação. 

(Foto: iStock)

Nem tudo são flores

Por outro lado, essa mudança causa, sim, um prejuízo, porém leve e à curto prazo. A redução dessa massa também representa um declínio cognitivo, ou seja, maior chance de esquecer certas coisas ou perda no raciocínio lógico. O médico comenta que quase todas as pacientes sentem essa mudança: “Elas dizem que ficam mais avoadas e esquecidas”.

A pesquisa liderada por Elseline Hoekzema, feita na Universidade Autônoma de Barcelona e Universidade de Leiden, utilizou exames de ressonância magnética em 25 voluntárias antes, durante e após darem à luz para chegar a esse resultado.

Os especialistas não conseguiram identificar o que causa essa redução, mas acreditam que seja uma ação “inteligente” do corpo humano para se adaptar à nova fase da vida da mulher. Os sintomas vão se intensificando ao longo da gestação, apresentando os maiores números ao terceiro trimestre, período entre a 27ª semana e 40ª semana (ou até o momento do nascimento do bebê). 

Além do organismo, você também pode e deve se preparar para essa etapa. “É fundamental a mulher saber que é um período difícil, principalmente no puerpério. 80 a 90% das mulheres vão ter o chamado blues puerperal, um período que predomina o sentimento de tristeza, choro entre as duas e quatro primeiras semanas após o nascimento. É importante que as mulheres saibam isso e não pensem que tudo vai ser como uma propaganda de manteiga”, explica dr. Igor Padovesi

Essa redução da massa cinzenta, mesmo após o puerpério, continua por, pelo menos, dois anos após o parto. Essa mudança é tão significativa que os pesquisadores foram capaz de identificar as mães entre todos os participantes do experimento através dos números.

A alteração no cérebro para se encaixar no momento de vida da pessoa não é exclusiva da maternidade. Outros estudos mostram que acontece algo similar durante a adolescência, tendo uma reorganização para então se preparar para as mudanças biológicas. 

Em contrapartida, na fase adulta, só as mulheres passam por essa mudança no cérebro. Os homens não apresentam nenhuma alteração após a paternidade. É coisa de mãe. Pensada para o bebê. Mostrando que o corpo é uma máquina muito mais incrível do que imaginamos.

Acima de tudo, é fundamental que você entenda as belezas e dores desse momento. “A informação e rede de apoio, aproximando mulheres que estão nessa mesma fase, fazem muita diferença na questão psicológica”, conta o ginecologista. Assim, você consegue viver uma maternagem mais leve e livre de culpa.

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