Relato de parto: “Senti o médico procurando uma compressa cirúrgica dentro da minha barriga”

“Tiraram meu marido da sala sem explicar o motivo. Na minha cabeça, algo ruim estava acontecendo comigo ou com meu filho”: Carolina Ildefonso, mãe de Victor, é repórter sênior da Pais&Filhos e relembra a experiência que teve no parto do primeiro filho

Resumo da Notícia

  • Eu já estava com 7 cm de dilatação, mas a maternidade me induziu para a cesárea
  • A equipe médica que fez meu parto perdeu uma compressa cirúrgica e não sabia se ela estava dentro de mim
  • O momento que tinha tudo para ser incrível se transformou em uma experiência traumática

Isso mesmo, o dia mais importante da minha vida foi marcado por medo e insegurança. A equipe médica que fez minha cesárea perdeu uma compressa cirúrgica e não sabia se ela estava dentro de mim. Sim, é assustador, mas minha frustração não começou aí. Minha escolha de parto também não foi respeitada e vou contar pra vocês.

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Carolina vivenciou uma experiência traumática no momento do parto (Foto: Arquivo Pessoal)

Engravidar sempre foi um sonho. Desde que o teste de farmácia deu positivo começaram os preparativos para a chegada do bebê, leitura sobre a maternidade, enxoval e, claro, muita pesquisa sobre os tipos de parto. E, por volta da 25ª semana, minha escolha estava feita: o parto normal. Nas consultas com o obstetra, essa decisão ficou acertada e estávamos apenas aguardando o grande dia.

Lembro como se fosse hoje: era uma segunda-feira, à noite, quando começaram as contrações. Foi uma madrugada em claro, com muita dor e o caderninho de anotações ao lado. O espaçamento entre uma contração e outra ficava cada vez mais curto. Sim, eu já estava em trabalho de parto e o grande momento da minha vida estava prestes a acontecer.

Ao amanhecer, mandei uma mensagem ao meu obstetra falando sobre os sintomas, peguei minha mala e fui para a maternidade. Já no pronto-socorro, foi constatado sete centímetros de dilatação. A médica olhou para mim e disse: é hoje!

O Plano de Parto é um documento com validade legal, recomendado e reconhecido pelo Ministério da Saúde, que deve ser feito pela gestante e seu obstetra (Foto: Laura Jabur)

É importante ressaltar que, ainda nesse primeiro atendimento, a própria médica do pronto-socorro ligou para meu obstetra e ele disse que chegaria na maternidade no máximo em três horas.  Até então, tudo estava bem encaminhado. Emocionada, olhei para meu marido e repeti a frase: é hoje! Em seguida, rapidamente me colocaram em uma cadeira de rodas e me levaram para uma sala de pré-parto. Foi tão rápido que nem consegui me despedir direito do meu marido. Mas me garantiram que ele ia me encontrar em alguns minutos, assim que eu tivesse acomodada.

Na sala de parto, enfermeiros e outros profissionais de saúde passaram para me examinar e me perguntavam qual tipo de parto eu gostaria de ter. A todo momento eu dizia que havia decidido pelo parto normal, mas precisava do meu obstetra para algumas confirmações. Um ano antes de engravidar eu havia feito um tratamento ginecológico e a informação que recebi, durante o pré-natal, era que antes do parto eu precisava ser examinada para ter a certeza que estava tudo bem para a segurança do bebê.

Fiquei nessa sala por volta de três horas, pedi muitas vezes para chamarem meu marido e a resposta era sempre a mesma: vamos chamá-lo, ele já vem… e nada! Comecei a ficar mais preocupada quando por duas vezes me disseram que não estavam conseguindo contato com meu médico. Até que a enfermeira Carolina – nunca vou esquecer o nome dela, pois é, o mesmo que o meu – com um batom vermelho, me falou:

– Você precisa decidir agora se quer parto normal ou cesárea!

Eu respondi que, na dúvida e sem o meu obstetra, preferia cesárea, pois estava insegura.

Ela saiu e em cinco minutos voltou e disse:

– Seu médico não vem mesmo!

Fiquei apavorada, mas tentei respirar fundo. Eu pensava: poxa, será que ele teve algum imprevisto, pois há pouco confirmou que viria. Achei tudo muito estranho, estava me sentindo bem vulnerável naquela situação e tentei me concentrar no nascimento do meu bebê, pois naquele momento eu não via outra saída.

Quando menos esperei, eu já estava na sala de parto na posição para tomar a anestesia. Só depois disso, meu marido, por quem chamei tanto naquela maternidade, para me dar apoio em meio a tanta desinformação e avisar os familiares, foi encaminhado até a sala. E então, às 17h51, um choro inesquecível. Meu filho nasceu saudável e, modéstia à parte, lindo!

O nascimento do Victor veio repleto de emoções (Foto: Arquivo Pessoal)

Falta uma compressa!

Em meio a tanta emoção, senti um clima estranho na sala de parto. Antes mesmo que eu pudesse pegar meu filho no colo, uma enfermeira pediu para meu marido se retirar da sala e percebi que o processo estava demorando demais. Perguntei ao médico se estava tudo bem e ele me respondeu prontamente que sim, mas mesmo sem conhecer os procedimentos médicos, eu ainda estava achando que tinha algo de errado.

Uns 30 minutos depois, fiz a pergunta novamente, já que meu filho ainda não estava no meu colo, eu ainda não tinha amamentado e eles continuavam a mexer na minha barriga e refazer uma contagem. Pois bem, até que me explicaram que estavam procurando uma compressa de parto que havia sumido. Pasmem! Eram 20 e só tinham 19 em mãos.

Foi necessário então fazer um raio x para localizar a compressa e, por sorte, encontraram. Ela estava embaixo do lençol e finalmente puderam fechar meu corte. Eu não tive nenhuma outra complicação, mas um momento que tinha tudo para ser incrível se transformou em uma experiência traumática.

Informação é tudo

Calma, se você está grávida não se assuste. É importante lembrar que cada gestação é única e suas experiências também serão só suas! Entretanto, vale o aprendizado de buscar sempre muita informação de qualidade, médicos de confiança e um bom obstetra que te ajude a montar seu plano de parto.

A gestante tem direitos que devem ser respeitados (Foto: Shutterstock)

Conforme dados da Organização Mundial da Saúde, as taxas de cesariana têm aumentado globalmente. Na América Latina, de dez partos quatro são cesáreas. O Brasil ocupa o segundo lugar no mundo de cesarianas, com uma taxa acima de 55% do total de partos, perdendo apenas para a República Dominicana, com 58%. Importante lembrar que a OMS recomenda que essa porcentagem seja de até 15% para os casos em que mãe e bebê não estão em condições clínicas para o parto normal.

A Pais&Filhos defende que cada mãe deve ter liberdade para escolher a forma com que deseja trazer seu filho ao mundo. Mas para isso, é necessário ter informação e autonomia, o que ainda falta muito no Brasil. Para te ajudar nessa missão, leia a reportagem completa sobre a importância e como montar o seu plano de parto.