Criança

Inteligência emocional: entenda o que é e como estimular essa habilidade no seu filho

Em um mundo cada vez mais complexo, saber lidar com críticas, frustrações e emoções no geral é um dos maiores desafios para as crianças

Jennifer Detlinger

Jennifer Detlinger ,Filha de Lucila e Paulo

A inteligência emocional pode ser desenvolvida desde cedo (Foto: Getty Images)

Imagine um mundo em que todos conseguem se colocar no lugar do outro, sabem lidar com frustrações, sentimentos e diferenças, além de terem autoconfiança e persistência. Todas essas qualidades fazem parte de uma cesta de habilidades conhecidas como competências socioemocionais. Oferecer às crianças uma educação para que elas consigam aprender, conviver e trabalhar em um mundo cada vez mais complexo é um dos maiores desafios da atualidade. Exercícios, provas, decorebas e repetições podem até resultar em notas maiores, mas não vão preparar o aluno plenamente e desenvolver as habilidades que seu filho precisa para enfrentar o mundo nos próximos anos.

A inteligência emocional é a capacidade de reconhecer diferentes sentimentos, aprender a lidar com as próprias emoções, como frustrações, medos, perdas e contrariedades, além de compreender as emoções do outro. Seus pilares são a autoconsciência, o autocontrole, a consciência social, as habilidades de construir relações e a tomada de decisões responsáveis. Parece simples, mas não é uma tarefa fácil e, apesar de algumas pessoas terem essa habilidade desde pequenas, a maioria de nós precisa aprender ao longo da vida a lidar com as emoções diárias. “Antigamente, a inteligência emocional era considerada uma habilidade inata. Hoje, é comprovado que podemos desenvolvê-la, como se fosse um idioma ou uma fórmula matemática. Ela deve ser aprendida e ensinada”, explica Camila Cury, psicóloga e especialista na Teoria da Inteligência Multifocal, filha de Augusto Cury e mãe de Alice e Augusto.

Não adianta seu filho ser um gênio, se não souber lidar com as críticas e frustrações (Foto: Getty Images)

“A criança nasce egoísta, ela não vai querer dividir, é algo instintivo e genético. Por isso, precisa ser ensinada a fazer carinho e não bater e morder, por exemplo. Como ela não tem noção do outro e espera que o mundo gire em torno dela, cabe aos pais ensinar que na sociedade deve existir um equilíbrio. Há pessoas que não têm inteligência emocional e mesmo assim dão tudo para o outro. Vai além de ter apenas empatia, precisa criar um equilíbrio”, defende Camila.

Vale lembrar que uma criança emocionalmente saudável não é aquela que não chora, se irrita ou se frustra, mas sim que melhora sempre a compreensão de suas próprias emoções. A inteligência emocional (QE) é tão importante quanto o quociente de inteligência (QI) – ou seja, não adianta seu filho ser um gênio, se não souber lidar com as críticas e frustrações, por exemplo. O jornalista e psicólogo Daniel Goleman, conhecido como pai da inteligência emocional defende que não existe relação direta entre a QE e a QI, pois são controladas por diferentes partes do cérebro. Mas enquanto o QI não é capaz de mudar significativamente ao longo da vida, a inteligência emocional pode evoluir e aumentar, sim. E existem alguns hábitos para desenvolver esse tipo de inteligência.

De emoção em emoção

Quanto mais cedo você começar a desenvolver essa habilidade no seu filho, melhor. Por mais que a criança seja boa em aspectos lógicos e analíticos, ela também precisa aprender a aplicar seus conhecimentos e articular tudo o que sabe para lidar com frustrações e perdas. “A criança deve se sentir segura com a ideia de errar e encontrar situações que vão dar resultados negativos. O papel dos pais é oferecer segurança e proteção, mas  também dar liberdade para os filhos se aventurarem, fazerem suas próprias escolhas e aprenderem com elas”, explica Victor Friary, psicólogo e mestre em terapia cognitivo-comportamental, filho de Ismélia e Anthony.

Segundo o especialista, a grande dificuldade dos pais está em lidar com momentos em que o filho não se comportou bem. “É mais natural termos uma atitude de aprovação. Por isso, os pais devem ficar atentos ao impulso de reprovar quando algo sai errado e oferecer carinho. O sistema de punição nem sempre é a melhor resposta”. Camila também reforça a importância de ensinar seu filho a lidar com as frustrações: “Se a criança crescer sendo feliz o tempo todo, o primeiro ‘não’ recebido vai deixá-la mal, seja na escola, no vestibular ou no namoro. O papel dos pais não é formar um filho feliz, mas sim preparado para as alegrias e também para as perdas e angústias”.

A grande dificuldade dos pais está em lidar com momentos em que o filho não se comportou bem (Foto: Getty Images)

Para a criança que vive em uma família estável, frequenta a escola e tem acesso a lazer e cultura, as primeiras frustrações podem ser mudar de colégio, perder o bichinho de estimação, brigar com algum amigo ou não ganhar o brinquedo que pediu para os pais. Por mais que você enxergue tudo isso como algo pequeno, seu filho pode se deparar com um grande problema – e precisa aprender a lidar com essas situações desde cedo. “Os pais não devem passar a mão na cabeça dos filhos, mas sim permitir que eles sintam a frustração e depois acolher e demonstrar empatia com o problema ou a dificuldade. Quanto mais cedo investimos em aspectos socioemocionais, mais chances temos de sair bem na vida”, aconselha Camila.

Educação do futuro

Segundo uma pesquisa feita pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, estamos diante da geração mais insegura de todos os tempos. “A inteligência emocional ajuda a criança a lidar com fracassos e imediatismos, além de prepará-la para a gestão e liderança de pessoas no futuro”, explica Camila. Um estudo do Fórum Econômico Mundial, publicado em 2016, estima que 65% dos jovens que estão hoje no ensino fundamental vão ter empregos que ainda nem existem. Por isso, é preciso questionar o modo tradicional de ensino e valorizar ainda mais as habilidades socioemocionais para o presente e futuro do seu filho.

O modelo atual de ensino no Brasil precisa passar por mudanças (Foto: Getty Images)

Até 2020, todas as escolas brasileiras deverão incluir em seus currículos as habilidades socioemocionais. Isso porque as novas diretrizes da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) trazem dez competências – e cinco delas são socioemocionais. Por mais que algumas escolas já pratiquem a educação socioemocional no Brasil, espera-se que com as novas diretrizes da BNCC, a prática cresça a passos largos, o que pode resultar em uma melhora de cerca de 10% no aprendizado das outras matérias do currículo escolar. “Para a criança na escola atual, passa a ser vital vivenciar e respeitar situações de conflitos, diversidade e autoconhecimento. Dessa forma, ela aprende a estabelecer objetivos e propósitos de vida, trabalhar colaborativamente, ser protagonista das suas ações e tomar decisões autônomas com responsabilidade”, explica Vera Melis, pedagoga, mestre em educação pela Universidade de Houston.

Segundo os especialistas em educação, para que as crianças desenvolvam mais autonomia e senso crítico, o modelo atual de ensino no Brasil precisa passar por mudanças. “Embora as habilidades socioemocionais possam ser uma novidade para a BNCC, é algo que faz parte do trabalho da escola com crianças há décadas em muitos países. Por isso, precisamos questionar por que o desenvolvimento do caráter e do bem-estar dos alunos só está sendo abordado no currículo agora”, defende o educador Nigel Winnard, mestre em administração educacional pela Universidade de Michigan, doutor em educação pela University of South California e diretor da Escola Americana no Rio de Janeiro.

A educação socioemocional ajuda seu filho a desenvolver resiliência (Foto: iStock)

O educador acredita que a escola precisa oferecer uma dinâmica de aprendizagem que respeite as demandas e características do aluno totalmente diferente das crianças de 200 anos atrás, em que as instituições de ensino se apoiam. “Me pergunto o quanto a sociedade realmente quer que as crianças se tornem pensadores autônomos e críticos. Precisamos que nossos jovens sejam capazes de diferenciar fato e opinião, que sejam consumidores críticos do turbilhão de conteúdo que a Internet cria todos os dias,  além de equilibrar pontos de vista e opiniões. Mais do que nunca, o Brasil precisa que a juventude desenvolva o senso crítico – e isso não recai apenas nas escolas”, reflete o especialista.

“O processo de aprendizagem em que a criança, sentada em uma cadeira, deve absorver uma grande quantidade de conteúdo está passando por uma revisão. É preciso despertar no aluno a consciência de que aquilo que ele faz se conecta com o mundo, de que há sentido no aprender e de que ele também gera conhecimento em sala de aula. Logo, o espaço pedagógico deve oferecer um ambiente de livre criação aos estudantes, estimulando a autonomia e senso crítico neles”, reforça Diego Thuler, fundador da Little Maker, metodologia aplicada em escolas, baseada na aprendizagem criativa.

Na prática, a educação socioemocional ajuda seu filho a desenvolver resiliência, mostrando que erros e perdas fazem parte de um processo natural de aprendizagem. “No caso da Little Maker, as crianças aprendem a não ter medo de errar e são encorajadas a resolver desafios com a mão na massa. Esse processo criativo de aprendizagem, que foge de espaços pedagógicos engessados e punitivos, estimula autonomia e protagonismo no aluno, mostrando que só erra quem não tenta”, explica Diego.

Se aplicada da forma certa, a educação socioemocional leva seu filho a ser confiante o suficiente para lidar com contratempos – ele vai procurar soluções para os erros, em vez de buscar desculpas ou culpas. “Os pais involuntariamente expressam seu amor pelo filho cercando-os de estruturas de apoio e mecanismos que enviam uma mensagem que pode minar a resiliência e a autoconfiança de seu filho. O presente mais importante que a educação socioemocional pode dar a qualquer criança é a crença de que ela pode administrar sua própria situação”, explica Nigel.

Pesquisa mostra que pais mais velhos são mais maduros para criar seus filhos (Foto: iStock)

De mãos dadas com a escola

Como tudo durante a criação de um filho, é preciso manter um equilíbrio entre liberdade e restrição, além de não depositar a responsabilidade da educação da criança totalmente na escola. “A sociedade não pode e não deve colocar tudo nos ombros de seus professores. Precisamos lembrar que os primeiros e mais importantes professores de uma criança são, na verdade, os pais”, defende Nigel.

Por isso, você não deve ser dominado pela vontade do seu filho. “Família não é democracia. Os pais precisam entender que são autoridades e ter direcionamento. Não é função do seu filho e nem da escola decidir coisas importante da vida dele. Se você tiver autoridade e um ouvido atento, não somente ao que ele verbaliza, é possível criar um equilíbrio”, explica Camila.

Além disso, a parceria entre escola e família deve ir muito além do conhecimento em volta do rendimento escolar e das reuniões semestrais. “Apoiar, valorizar o docente e as atividades desenvolvidas é uma das atitudes esperadas pela família. A escola se preocupa em vivenciar situações que envolvam o respeito às diferenças, é preciso que as crianças vivenciem em suas casas também”, aconselha Vera.

Culpa, não!

Por mais que você seja responsável pela criação do seu filho e deseje que ele se desenvolva da melhor forma, não deixe que a culpa tome conta do seu dia a dia. “Os pais precisam aprender a diminuir expectativa de que o filho vai ser bom, inteligente, saudável. A cultura do Instagram deixou essa impressão de que precisamos ser felizes. A culpa na nova geração é muito grande. Ser pai não é ter um filho sempre feliz, é estar com ele quando ele não está feliz. Se olharmos de uma forma diferente para a maternidade, ela se torna mais prazerosa”, explica Camila.

Crianças esbanjando sua criatividade nos desenhos (Foto: GettyImage)

Como eu posso ajudar?

Camila Cury tem algumas dicas que você pode usar para ajudar seu filho a desenvolver a inteligência emocional. Esse processo requer paciência, mas dá certo e deixa seu filho muito mais feliz e seguro:

1) Conheça seu filho: saiba do que ele gosta, do que ele não gosta, o que o incomoda e o que deixa feliz. “O impacto do seu ensinamento vem de quem você é na relação com seu filho”, diz a especialista.

2) Elogie entes de criticar: na matemática, a ordem dos fatores não altera os resultados. Nas emoções, altera e muito. Por isso, antes de dizer que seu filho fez alguma coisa errada e acusá-lo, elogie o que ele faz de bom. “Assim, você desloca a lembrança do foco de tensão para uma zona saudável”.

3) Não banque o super-herói: “quando você se diminui, faz grande seu filho”. Fale com seu filho das suas falhas, dificuldades e erros. Você se torna um referencial possível e se humaniza.

4) Surpreenda seu filho: não seja um manual de regras, tente ter uma relação leve com as crianças em casa.

5) Não cobre demais: a psicóloga afirma que “excesso de cobrança é um grande problema e as crianças acabam se frustrando mais do que o necessário”. Baixa autoestima faz com que 30% dos jovens não consigam buscar pelos seus objetivos.

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