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Dr. Alberto DAuria

Redação Pais&Filhos

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O obstetra e ginecologista já dirigiu maternidades importantes, como o São Luiz, a Santa Joana e a Pro Matre, todas em São Paulo. Há apenas 10 anos, não sabia o que eram células-tronco. Hoje, dirige o maior banco que armazena sangue de cordão umbilical, o Cryopraxis. Não existia o método quando seus filhos, Alberto e André, nasceram, mas os netos com certeza terão suas células-tronco bem guardadinhas – e viverão 150 anos, se depender de todas as descobertas da medicina.

Por Mariana Setubal, filha de Cidinha e Paulo
 
Qual é a maior mudança que as células-tronco estão causando?
Em breve, o homem vai chegar aos 150 anos. Para isso, nós vamos ter que usar o recurso das quatro medicinas. A medicina curativa é aquela que o médico usa quando opera alguém, assim como quando dá o antibiótico. A gente não abandonou essa medicina, ela vai ter que ser usada sempre. Depois vem a medicina preventiva que é do início do século passado, é aquela coisa do lavar a mão para evitar vermes. Depois vem a medicina preditiva, que é a medicina do genoma, em que você abre a célula, pega o DNA, tira um gene e fala: esse gene aqui é de diabetes, vamos tirá-lo e colocar outro no lugar. A gente usa muito, inclusive, na reprodução assistida. Hoje, existe a opção de fazer o teste do genoma para ver se o embrião é defeituoso. Assim, não transfere uma síndrome genética. 
 
Isso não é polêmico?
Não, isso é usado em clínicas de reprodução assistida porque ali você lida com mulheres de idade mais avançada, com alto risco de ser transferido um embrião mal formado sob o aspecto genético.
 
É possível identificar a Síndrome de Down, por exemplo?
Lógico, mas aí entra a polêmica. É como fazer sexagem. Mas é importante fazer o diagnóstico para identificar possíveis patologias.
 
E a quarta medicina, que você estava falando, qual é?
É a medicina regenerativa, em que é feita a terapia celular. Você cultiva células, fabrica órgãos. Os seus filhos, muito provavelmente, daqui a uns 50, 60 anos, irão a uma empresa e falarão: eu vim aqui trocar meu fígado, ele não tá legal. Aí trocarão o fígado e fabricarão outro com células-tronco.
 
Você acha que os bebês que estão nascendo hoje já vão chegar aos 150 anos?
Aos 130, com certeza. Quando eu comecei a fazer medicina, há 30 anos, a média do homem era 56 anos. Isso em 1978. Hoje já foi pra 77, e a da mulher já foi pra 82. Mais um assoprão e nós vamos para 100.
 
O objetivo da medicina é que o homem chegue a 150 anos?
Sem dúvida. Eu acho que o objetivo é regenerar mesmo. Porque regenerando tecidos, dá uma vida melhor, prolonga uma vida com qualidade.
 
Mas tem algumas coisas, como Alzheimer, que ainda não tem esse tipo de cura, né?
Temos um trabalho avançadíssimo em relação ao Alzheimer, mas vamos com cautela.
 
Não pode contar?
Não. Mas é com célula-tronco também.
 
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Qual é a diferença entre as células da medula óssea e do cordão umbilical?
As duas são células-tronco, só que no sangue do cordão umbilical elas são mais virgens, mais limpas e mais isentas de agressões. Quando eu tiro a medula óssea de um indivíduo de 60 anos, eu estou tirando células-tronco que já foram agredidas com poluição, antibióticos, radiação, tabagismo… Se o indivíduo tem alguma doença que desenvolveu no decorrer da vida, pode ter células-tronco menos eficazes. As do cordão umbilical têm mais chances de sucesso e nenhum índice de rejeição.
 
Qual é a última novidade nessa área?
Uma delas é tratar a incontinência urinária com células-tronco retiradas do sangue menstrual, que são potencialmente poderosas.
 
Esse sangue menstrual pode ser usado para curar outras doenças?
Provavelmente, sim. Em um futuro muito próximo a gente vai usar. Quando você descama o endométrio, menstrua e joga fora uma quantidade enorme de células-tronco, que estavam preparadas para receber um ovo e com o potencial de transformá-lo em um ser humano.Não são células-tronco embrionárias.
 
Qual é a diferença entre a célula-tronco embrionária e a do cordão umbilical?
Só tem dois tipos de células-tronco: a embrionária e a adulta. A embrionária começa a crescer desgovernadamente e pode acabar se transformando em câncer. Por isso o abandono desses trabalhos. Elas só existem em uma blástula, em um saco gestacional com cinco dias de vida. Então, para colhê-las você precisa fazer o embrião e destruí-lo. As outras células todas são adultas, inclusive a do cordão umbilical.
 
Por que armazenar o sangue do cordão umbilical em vez de usar no futuro o da medula?
A célula-tronco de cordão umbilical tem índice de rejeição zero, vai servir para os irmãos e está pronta para usar. A outra (da medula) você tem que aspirar. Se está contaminada, não dá para usar. Então teremos que buscar um doador que seja compatível. Aí começa uma batalha pesada porque isso é muito difícil. No Brasil há uma grande dificuldade de conseguir compatibilidade porque tem uma miscigenação enorme. Quando você mistura pessoas diferentes, a sua célula se diferencia.
 
Existe um banco de dados aqui no Brasil? 
Sim. Hoje quem congrega todo o sangue de cordão e de medula dos bancos públicos é a BrasilCord. É uma iniciativa muito legal. Acho que nós deveríamos incentivar o banco público e o banco privado. Quanto mais sangue, mais crianças serão tratadas.
 
Falam disso como se o banco público e o privado fossem concorrência… 
Eu não vejo como concorrência. Por exemplo, não vejo como concorrência o hospital público e o hospital privado, eu quero que tenham muitos hospitais privados, e que tenham muitos hospitais públicos, com qualidade igual ao privado, mas que sejam um direito do cidadão.