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Entrevista:Terrence Meersman

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

Em 2000, os americanos Bruce e Jolene McCaw se tornaram pais e decidiram buscar informações sobre quais seriam as melhores maneiras de educar um filho. Foi aí que criaram o Talaris Institute, para traduzir conhecimentos científicos. Esteve no Brasil a convite da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, Terrence Meersman, então vice-chairman do Talaris, hoje vice-presidente da M.A. Cargill Foundation.  Como ele diz, não nos tornamos pais de uma criança, nos tornamos de todas.

Por Larissa Purvinni, mãe de Carol, Duda e Babi

Por que o período de 0 a 3 anos é tão importante?
É a fase em que o cérebro mais se desenvolve, o que depende dos genes e dos estímulos fornecidos pelo ambiente emocional. Também é nessa fase que os pais adotam seu estilo de paternidade. Em mais ou menos nove meses, os pais já estão adaptados à paternidade. Mudar percepções ou a maneira de interpretar o comportamento do bebê é  importante, porque isso pode alterar o curso desse relacionamento. Há janelas de oportunidade entre 0 e 3 anos. Não acredito que essas janelas se fechem depois, mas é nesse período em que você se conecta ao seu filho. É nessa época que podemos identificar precocemente situações como autismo, reduzindo o impacto negativo.

Alguns pediatras brasileiros defendem que o melhor para as crianças nesta fase seria ficar em casa. Qual a sua opinião?
Nos EUA, também há grande controvérsia sobre se a criança deve ir para a escola ou ficar em casa. Há evidências de que a criança precisa ter, ao mesmo tempo, um lugar seguro para voltar quando está com medo e uma base de lançamento de onde pode partir para explorar o mundo e para onde pode voltar sempre. A criança explora o ambiente e volta para perto dos pais. Esse é o significado do vínculo emocional: ganhar a confiança deles. Isso depende de relacionamentos de qualidade e menos de onde isso acontece. A escolinha ou creche não é boa ou má em si. Isso depende da qualidade dessa escola. As pessoas que estão tentando mudar o sistema não dizem “queremos creche para todas as crianças”, mas “queremos creche de qualidade para o máximo de crianças possível”. E nós dizemos “queremos ambientes de qualidade para que todas as crianças se desenvolvam em seus primeiros anos, seja em casa ou na creche.” O ambiente deve ser acolhedor, com estímulos adequados, atenção e apoio emocional.

O fato de o bebê ficar com uma babá atrapalha ou ajuda o desenvolvimento?
Uma boa babá pode ajudar a reduzir o nível de estresse dos pais, tornando-os mais disponíveis para se ligar à criança quando estão em casa. A criança precisa de um adulto acolhedor, em quem possa confiar. Não importa se é a mãe, uma babá ou ambas.

O psicanalista Donald Winnicott escreveu que não devemos tornar as mães autoconscientes. Muita informação pode deixar a mãe preocupada ou culpada?
Há muita informação sobre ser pai e mãe, mas faltam informações confiáveis. Sempre nos baseamos em pesquisas científicas. As informações baseadas em pesquisas normalmente derrubam muitos dos mitos que preocupam os pais. Outra coisa que percebemos é que, na maior parte do tempo, as pessoas estão preocupadas com detalhes. Os pais têm de saber que tudo começa com o nascimento. O aprendizado começa imediatamente, não apenas quando a criança entra na escola. E os pais têm um papel fundamental nisso. O vínculo entre pais e filhos é muito importante, interfere na capacidade de a criança regular suas próprias emoções. Somos contra a culpa. Se os pais conseguirem agir da melhor maneira em um terço das vezes, o filho vai ficar bem.

Os pais têm medo de traumatizar o filho ao não atendê-lo na hora quando chora…
As crianças nascem com temperamentos diferentes e, às vezes, os pais têm expectativas irrealistas sobre como seu filho deveria ser. Alguns se adaptam rapidamente, outros ficam tentando adaptar o filho a essa expectativa. Algumas crianças têm cólicas e choram, mas isso não significa que estejam traumatizadas. Os pais devem ir às pessoas certas e tirar suas dúvidas com base em informações comprovadas. O mais importante é conhecer o filho, comunicar-se com ele, acolhê-lo.

Estudos mostram que crianças de classes sociais menos privilegiadas demoram mais para desenvolver habilidades de língua. Como podemos ajudá-las?
Diversos fatores podem ajudar a trazer mais palavras para a vida dessas crianças. Um deles é tornar os pais conscientes da importância de falar com os filhos. Conversando com o filho, ele vai aprender melhor.

Percebemos que as famílias pobres muitas vezes sabem mais sobre cuidar dos filhos do que as ricas. Elas só não têm certos recursos, muitas vezes precisam deixar os filhos com o vizinho para poder trabalhar. E esse vizinho deixa a criança em frente à televisão e nunca fala com ela. Evidentemente defendemos que existam mais creches e berçários de qualidade para o maior número possível de crianças. E, mesmo que a criança não esteja numa creche formal, quem fica com ela pode ser orientado a falar mais com ela. conversar com ela.

Que tipos de políticas públicas você acredita que podem ajudar no desenvolvimento das crianças?
O melhor seria fornecer informações confiáveis para os pais, apoiar os pais para que possam apoiar os filhos. Aconselho a não se esquecerem dos pais e da importância do desenvolvimento social e emocional. Tendo essa base, as crianças vão se sentir mais seguras e poderão explorar o mundo. Esse é o ponto principal, se queremos que as crianças se saiam bem na escola. Outro ponto é investir em licença-maternidade e paternidade remuneradas, para que os pais possam ficar com os filhos mais tempo.

Qual seria o tempo ideal, na sua opinião?
No mínimo, um ano. Na Finlândia, as políticas públicas são fantásticas. A licença pode durar até três anos. E, depois que os pais voltam a trabalhar, há creches de qualidade, perto do tra