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Fuga das babás

Saiba por que a profissão está sumindo do mercado e como viver sem elas.

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

 

Na falta de boas e acessíveis creches, a gente aqui no Brasil adquiriu o hábito de depender das babás. Agora, a profissão está sumindo do mercado. Saiba por que isso aconteceu e que sim, é possível  viver sem elas  
 
Por Nivia de Souza, filha de Tânia e Renato
 
Confiar os cuidados dos nossos filhos a uma pessoa enquanto estamos fora de casa é uma tarefa nada fácil para os pais. Para a maioria das famílias, existem três opções viáveis na hora de deixar as crianças e voltar a trabalhar: as babás, as escolas ou creches de período integral ou a casa dos avós. Muitos pais não querem que os filhos fiquem o dia todo na escola ou não podem pagar a mensalidade, que chega a dobrar. Ficar com os avós tem sido cada vez mais complicado: muitos ainda trabalham ou não podem ficar o dia todo com os netos. As babás acabam sendo a única opção para muitas pessoas, mesmo que estejam cada vez mais difíceis de serem encontradas. 
 
Fora do Brasil, as mães levam seus filhos para as creches sem pestanejar. Por aqui é bem diferente. No estado de São Paulo, por exemplo, segundo dados do IBGE, apenas 1,6% da população com menos de 3 anos está matriculada nas creches. O motivo? Não há investimento nas creches públicas e nem existe uma regulamentação específica para o funcionamento delas. 
As mães que trabalham com a carteira assinada (CLT) e numa empresa com mais de 30 mulheres têm o direito de ganhar assistência, até o bebê completar 6 meses. Essa ajuda pode ser de duas formas, que são estabelecidas por meio de acordos entre o empregado e o patrão: ou a empresa oferece convênios com determinadas creches ou paga, de forma integral, as despesas da funcionária com a assistência. Mas, se você escolhe deixar o bebê com uma babá, a lei não garante que as despesas sejam cobertas.  
 
A babá hoje
Abrir as portas da nossa casa para uma pessoa que, até ontem, era uma estranha para toda a família não é fácil. “É uma relação específica de trabalho que tem como base principal a intimidade, o afeto e a confiança”, afirma Juliana Zorzi, filha de Elena e Alziro, e coordenadora de recursos humanos da agência de babás Kanguruh. 
E é exatamente por ser específica que a relação mãe-babá mudou tanto na última década. “Foram muitas mudanças socioculturais. As babás sabem que possuem uma função especializada e tiveram seu trabalho mais valorizado e melhor remunerado”, explica Neyla França, mãe de Lucia, Eduardo e Ricardo, psicanalista especializada no atendimento de crianças e adolescentes. 
É uma exigência mútua e progressiva: quanto mais os pais requisitam especializações, mais as babás cobram pelos seus direitos e pelo seu trabalho. Quanto mais as babás exigem dos patrões, mais as famílias cobram aperfeiçoamento. Quem começou primeiro? Não tem resposta. É como perguntar quem veio primeiro: o ovo ou a galinha.
 
Além da confiança
De acordo com Neyla, gostar de criança não é mais a única exigência do cargo. Em muitos casos, são as babás que administram a vida dos nossos filhos, assumindo mais responsabilidades e procurando a especialização. “É um movimento muito positivo porque demonstra interesse no desenvolvimento pessoal e profissional”, avalia Juliana Zorzi.
Atualmente, as babás fazem parte da categoria dos empregados domésticos, juntamente a diaristas, jardineiros, cozinheiros, motoristas e domésticas. Portanto, legalmente, elas precisam receber os benefícios assegurados para a classe (veja o box da página 68). 
Isso significa que, mesmo com um currículo recheado de cursos e experiências, as babás podem ganhar apenas um salário mínimo, ou seja, R$678. Porém, na prática, os pais sabem que não é bem assim que a banda toca. Em geral, uma babá que trabalha de segunda a sexta-feira, por exemplo, ganha mais de R$1200, ou seja, 43,5% a mais do que o salário mínimo.
Já as que dormem no trabalho – atualmente, as mais difíceis de encontrar e contratar – ganham, em média, 62% a mais do que a legislação assegura. “Essa profissional, sim, sumiu do mercado. Elas também querem cuidar de suas famílias. O ir e vir do trabalho não é mais uma dificuldade e isso viabiliza os estudos”, afirma Carolina Baena, mãe de Beatriz, enfermeira e sócia da escola de babás Nursery School.   
Taluana Adjuto, mãe de Ayron e Leonna, psicóloga e idealizadora da Elite Care, uma agência de babás, baby-sitters e monitoras, afirma que é totalmente contra o trabalho das babás 24 horas. “As que dormem realmente podem dizer o quanto querem ganhar. Outras estudam, querem namorar. Elas têm esse direito”, completa.
 
Existe vida sem babá?
Algumas mães fazem parte de um movimento reverso, que consegue conciliar a carreira e a rotina dos filhos. É o caso de Juliana Saab, mãe de Henrique e Eduardo. “Quando eu estava grávida do Henrique, ter ou não ter babá não era uma dúvida. Sempre tive convicção de que daria conta”, diz a relações públicas, que cresceu sem babá e acredita que isso foi um dos fatores que a levou a optar por não ter uma.
Henrique tem 3 anos e meio e Eduardo está com quase 2. Os irmãos ficam em período integral na escola e Juliana tem a ajuda da mãe para os casos de urgência. “Se vejo que vou atrasar para pegá-los na escola, peço para minha mãe ir buscá-los. Meu coração aperta só de pensar que eles vão ficar um minuto a mais do que o normal”, desabafa. 
A pedagoga, psicóloga e colunista da Pais & Filhos Elizabeth Monteiro, mãe de Gabriela, Samuel, Tarsila e Francisco, afirma que, quando você cria os filhos sem ajuda, é preciso aprender a priorizar. E foi o que Mariana Belém, mãe de Laura, cantora e também colunista da Pais & Filhos, fez. Ela sempre quis viver a experiência da maternidade de forma intensa e se programou para isso, inclusive economicamente. “Parei minha vida profissional por um ano para ser exclusivamente mãe”, conta. 
Laura já completou um ano e, aos poucos, Mariana está “desmamando da intensidade” e voltando à rotina. Juliana retornou ao trabalho assim que a licença-maternidade acabou e serviu de inspiração para Mariana, sua cunhada. “Se ficasse muito puxado e não aguentássemos, contrataríamos alguém. Não existe drama ou sensação de fracasso: se precisar, partiremos em busca de alguém bacana para nos ajudar sim”, diz a cantora.     
Tanto Juliana quanto Mariana foram vistas com olhares desconfiados de outras pessoas quando, casualmente, comentam a decisão de não ter babá. “Quando era só o Henrique, as pessoas nunca se espantavam. Porém, quando