Livre pra voar

Lotar a agenda das crianças não está com nada

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Por Samantha Melo, filha de filha de Sandra e Tião


Mas você nunca mais vai brincar comigo? Foi essa a pergunta que Luan, de 2 anos, fez, depois de ser pego na escola e saber que ia para a aula de futebol. A mãe, Rosane Abraão, não entendeu nada. No dia anterior, ela havia brincado com o filho, como fazia todos os dias, antes dele dormir.  
Luan costumava ter uma agenda bem cheia: no período da tarde, fazia natação e escolinha de futebol. “Consultei a coordenadora da escola e ela aconselhou que eu desafogasse as tardes do Luan, para que ele pudesse brincar mais livremente.”

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Hoje em dia, não são raras as crianças que fazem mais de três atividades extracurriculares num horário alternado com o da escola. Mas os especialistas não só não recomendam lotar a agenda, como aconselham os pais a separarem um horário todos os dias para elas não fazerem nada.
Além disso, é importante que os pais saibam que a noção de tempo das crianças é totalmente diferente da nossa. Por isso, nem sempre eles entendem que a hora da brincadeira vai, sim, chegar, como foi o caso do Luan. Conversamos com psicopedagogos para descobrir a importância da brincadeira livre e como ela deve ser respeitada na rotina da criança.

Brincando que se aprende


A brincadeira é a atividade mais espontânea de uma criança, e uma das que mais estimula o seu desenvolvimento social, afetivo e cognitivo. Isso se deve, principalmente, aos neurônios-espelho, que são responsáveis por imitar mentalmente toda ação observada, para depois imitá-la de fato. Traduzindo, quando a sua filha diz para a boneca que está indo trabalhar, ela está te imitando, e incorporando o conceito de trabalho ao repertório.

“A criança reproduz o que entende do mundo através da brincadeira”, conta a psicoterapeuta Cecília Zylberstajn, filha de Hélio e Berta. Assim, ela vai, aos poucos, aprendendo sobre como é a vida em sociedade e suas regras, e tem a chance  de desenvolver seus interesses, entender o que gosta e o que não gosta.
"Em todas as brincadeiras, a Valentina queria ser a motorista e nem ligava pras bonecas. Hoje ela ama carros e é a única das irmãs que tem carta de motorista", conta a nossa leitora Lara Ferdi. “Para a criança, o brincar não é apenas uma distração, é uma necessidade real”, conclui a pedagoga e escritora Amanda Elias Castanheira, mãe de Pedro e Sophia.
 
Tempo livre


Desde que seu filho nasceu, todas as suas ações foram guiadas e sua rotina organizada. É nos momentos de tempo livre que ele tem a oportunidade de fazer o que quiser. Deixar que a criança brinque livremente é o primeiro passo para que ela desenvolva seu caminho. Se você organiza o dia do seu filho de modo que ele não tenha o tempo dele, isso pode deixá-lo desorientado. “Por causa disso, o tempo livre para algumas crianças é sinônimo de ansiedade e angústia, pois não sabem o que fazer e sentem-se ‘perdidas’”, aponta a psicopedagoga e terapeuta familiar, Maria Cecília Gasparian, mãe de Maria Elisa.

Quando a criança tem a liberdade de brincar do que e quando quiser, ela tem a oportunidade de criar suas regras e suas próprias maneiras de se divertir. Assim, tem a chance de estimular a criatividade e a fantasia, que são inatas ao ser humano. “As brincadeiras mais livres envolvem a fantasia e trazem benefícios, pois exigem das crianças maior envolvimento e articulação das ideias”, aponta Amanda.

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Futuro promissor


Pode ser até inconsciente, mas uma coisa a maioria dos pais tem em comum: a gente quer que os filhos tenham uma vida melhor do que tivemos. Esse é um dos motivos das crianças começarem cada vez mais cedo a fazer atividades extracurriculares.
“Os pais acreditam que tem o dever de dar recursos  aos filhos, para que eles tenham as melhores oportunidades no futuro”, explica a psicóloga Mariana Chalfon, mãe de Ian e Helena. Quando nos damos conta, nossos filhos têm menos tempo livre que nós mesmos!
Só que não podemos esquecer do presente. Aqui, na Pais&Filhos, a gente acredita que é preciso aproveitar a infância, porque ela passa rápido. E é isso mesmo que os especialistas dizem: “o mal da sociedade é não aproveitar a infância. Antes a infância era de ouro.  Criança tem que ser criança, e agenda lotada é coisa de adulto”, pede Cecília.

Tente deixar, no mínimo, dois dias da semana livres e, de preferência, escolha atividades que não tomem a tarde toda, apenas algumas horas. Além disso, inclua sempre o seu filho na escolha. "Meu sonho era ter uma filha para colocá-la no balé, como eu. Mas a dona Yasmin não tinha a mínima disciplina, e era um terrorzinho na aula”, ri a artista plástica Zenaide Fernandes. Por isso, uma ideia é levá-lo para algumas aulas, para experimentar antes de decidir.

 Brincadeira saudável

Nem é preciso estimular a brincadeira, mas há algumas dicas para que as crianças aproveitem ao máximo esse momento.
“A criança tem a necessidade de ser ouvida. Por isso, é importante que os pais conversem com os filhos, saibam do que eles gostam, para que a partir daí, possam guiar a brincadeira”, ensina Maria Cecília.
Mas atenção, guiar não significa que você vai escolher a brincadeira. Ele quer brincar de astronauta, então pergunte: “e o que um astronauta faz?” ou “e qual planeta nós iremos visitar?”. E, claro, fazendo o trabalho pesado também, como carregar o “foguete”.

Procure deixar a criança o mais à vontade possível, mas dentro dos limites. Se o lugar é adequado e os materiais seguros, o bagunça e a sujeira são positivas. Então se segure para não reprimir! E sem essa de perder de propósito, ou fingir que não está vendo as trapaças da malandrinha, ela precisa saber que não é “café com leite”.
A gente pode brincar junto, sim, mas nem sempre é necessário. “Os pais devem ter 'desconfiômetro' para perceber se a criança quer ou não a sua participação”, diz a psicóloga Mariana. Como em todos os momentos da criação dos filhos, a hora de brincar também exige bom senso.

CONSULTORIA
AMANDA ELIAS CASTANHEIRA, mãe de Pedro e Sophia, é psicopedagoga e autora de livros infantis. CECÍLIA ZYLBERSTAJN, filha de Hélio e Berta, é psicóloga, psicodramatista e psicoterapeuta. MARIA CECÍLIA GASPARIAN, mãe de Maria Elisa, é psicopedagoga, membro da Associação Brasileira de Psicopedagogia. MARIANA CHALFON, mãe de
Ian e Helena, é psicóloga clínica, especialista em abordagem infantil.

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