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Mário Sérgio Cortella

A entrevista desse mês é com o filósofo e escritor Mario Sergio Cortella

Redação Pais&Filhos

Redação Pais&Filhos

por Mônica Figueiredo, mãe de Antonia

Com três filhos, um neto chegando e mais tantos agregados, Mario Sérgio Cortella gosta de família grande e casa cheia. “Muito movimento, muito choro, muita música, muita risada”, brinca. Para ele, reunir todos em volta de uma mesa, fazer comida juntos, escutar música, conviver, está na essência da família. Quando chegamos para entrevistá-lo, estava falando no rádio sobre as Olimpíadas. Em minutos, passou a falar de educação de filhos. Poderia ter falado também, com propriedade, sobre política, escola, culinária, gatos ou qualquer outro assunto. Nós, aprendemos sempre.

Não tem fórmula para criar os filhos, né?
Não tem regra. Filho não vem com manual de instrução, mas não é tão solto assim. Tem um mito nessa área de que não dá para programar. É claro que dá! Planejamento está no reino da ciência, adivinhação está no reino da magia. Embora cada indivíduo seja um indivíduo, não significa que não haja características comuns na humanidade. É possível aprender a educar pessoas.

Você se definiria como um pai de que tipo?
Algumas coisas eu trouxe da formação que meus pais me deram. Nem tudo o que vem do passado deve ser descartado. Algumas coisas tem que ser trazidas para o presente, guardadas, cultivadas. É o que a gente chama de tradicional. Muitas vezes se usa equivocadamente a palavra ‘tradição’.

Como se fosse ruim…
Isso. Tradicional é aquilo que preserva o antigo. O antigo não é o velho. Há alguns valores na formação familiar que são antigos: convivência, afetividade, ideia de gratidão, reverência à comunidade. O que é velho: o autoritarismo, a violência, o espancamento, o machismo, o cinismo na convivência. Por isso, dos meus pais, eu trouxe aquilo que eu entendo como tradição. A defesa da honestidade, a capacidade do amor exigente, isto é, “não é porque eu te amo que eu aceito qualquer coisa de você. É exatamente porque eu te amo que eu não aceito qualquer coisa de você.”

E aí entra uma coisa do amor paciente.
Sim, mas paciência não é lerdeza. Um amor paciente é aquilo que o Paulo Freire chamava de paciência pedagógica, histórica e afetiva. O que é a paciência histórica? As coisas têm o seu tempo. Não adianta eu falar com um menino de 7 anos sobre o exercício do sexo. Eu posso falar com ele sobre sexualidade. Há situações que uma criança não compreende.

Histórica no sentido da idade da criança.
Histórica de tempo, de maturação, de faixa etária. A segunda paciência é a pedagógica. As pessoas não aprendem do mesmo modo nem ao mesmo tempo.

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Isso já melhorou muito.
Sim, porque os ritmos são diversos. E, terceiro lugar, a paciência afetiva, que é a capacidade de resistir a alguns momentos em que se daria para perder a paciência, e é preciso tê-la. Quem ama não desiste. Então, as paciências histórica, pedagógica e afetiva compõem um dos módulos da paciência. Paciência, repito, não é lerdeza. Mas também velocidade não pode ser pressa. Hoje uma parte das crianças e jovens está crescendo apressadamente.

Queimando etapas emocionais muito importantes.
A borboleta não pode sair do casulo antes da hora. Se isso acontece, pode até encantar num determinado momento, mas ainda não está madura o suficiente para voar sua autonomia. Toda borboleta que sai do casulo antes da hora é exuberante num primeiro momento, mas depois perece. Eu ouvi, ontem, uma mãe dizendo que, há alguns anos, as filhas queriam aprender a cozinhar com as mães, e hoje querem aprender a beber como os pais. Independentemente do componente machista que pode haver na frase, quer dizer, mulher cozinha, homem bebe, ainda é uma lógica bem expressiva. Há muitas borboletas saindo do casulo antes da hora.

Hoje a gente é mais permissivo?
Nós somos mais frouxos e, portanto, mais permissivos. Como hoje uma parte das pessoas fica muito ausente de casa, não tem convivência. E nós cometemos um equívoco, que foi fazer a família apartada.  

Como assim?
Só 25% das famílias do mundo vivem no nosso modelo ocidental, isto é, pai, mãe, filhos. 75% das famílias do mundo vivem em comunidade familiar.

O que muda tudo.
Exatamente. Por exemplo, qual é o lugar em que os filhos aprendiam valores há algumas décadas? E ainda é na família africana, asiática, no mundo árabe. Com os avós. Como pai e mãe estão na atividade e os avós, em casa, faz mais sentido. Por exemplo, na casa da avó podia tudo menos o que ela proibisse. Parece uma contradição, mas não é. A noção de limite é exatamente essa. A questão é que algumas famílias ficaram muito solitárias, se apartaram de avó e avô, e isso produziu um prejuízo. Por se ausentarem, em função das distâncias das metrópoles, pela necessidade de trabalhar mais números de horas, pelo fato também de a sociedade no século XX ter trazido à tona um dilema que não existia até o século XIX – que é se a mulher trabalhava fora ou não – parte dos pais e mães afrouxou as capacidades de regulamento. Porque você só pode ter autoridade quando convive. Se você não convive, sua autoridade é frágil, na medida em que você não exerce o poder no cotidiano. É nos momentos de aproximação que são geradas as rupturas. Aí tem duas opções. Ou você, para não ter o conflito, sai fora e cede, ou você parte de maneira agressiva.

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E as duas são furadas.
Claro. Aí você grita. Ao gritar, perde completamente a razão. Porque o uso da força para o controle de alguém é sinal de fraqueza. Desse ponto de vista, houve de fato um afrouxamento. E uma parte das famílias criou algo muito ruim: uma geração que vem crescendo sem a noção de esforço.

A conquista…
A criança não arruma a própria cama, não partilha o trabalho domésti